O Minotauro arranja um emprego

Léo Caillard (Hipsters in Stone, 2012-2016)

Léo Caillard (Hipsters in Stone, 2012-2016)

...and as he sank below the crust of the visible world, into his dazzling kingdom, he understood that he had travelled a long way from the early days, that he still had far to go, and that, from now on, his life would be difficult and without forgiveness. 

Steven Millhauser, “In the Kingdom of Harad IV”

 

O cerne da questão é que odeio estes homens, que se têm servido do meu tempo como se fosse deles, com as suas perguntas inúteis e impiedosas, que no fim servem apenas para que o seu poder sobre mim seja afirmado, e que me obrigam a dar ordens inúteis e impiedosas a outros, para que o nosso tempo seja controlado, a nossa energia destruída, a nossa criatividade drenada. E eu que até tinha conseguido escapar a isto, a esta vergonha, a esta miséria humana, sou eu também agora um instrumento disto. O tempo que de outro modo eu estaria a empregar em manter-me impecavelmente humano é de outro modo desperdiçado em tarefas que a cada dia me desumanizam e por isso me degradam.

            Nos primeiros dias ainda conseguia parar e chegar-me à janela, agora não consigo suportar o mundo lá fora, tenho inveja da liberdade daqueles que enchem as ruas, daqueles que podem escapar por um minuto. Vivo ultimamente para esse grande dever: escapar por um minuto, porque é só nas poucas horas do dia em que estas funções que me foram conferidas param de me oprimir que estou vivo. Tudo o resto são horas mortas. Nem sequer inveja posso ter do meu chefe, muito menos aspirar a ser como ele, que nas reuniões com clientes e outros chefes tem o hábito de cobrir os genitais, o que, porque ele é alto, o força a curvar os ombros e levantar demasiado os joelhos, como os defesas nos jogos de futebol quando a equipa adversária pode reclamar uma falta ou como um flamingo.

Tudo nestes trabalho é uma arte de cobrança, a cobrança que é necessário exercer a cada erro ou mediocridade que é cometida. Este é um emprego que existe porque as pessoas cometem erros ou fazem algo medíocre e o meu trabalho é vigiar isso, corrigir os erros dos outros, dependendo de quem comete o erro, apontando a sua estupidez com um paternalismo de pendor neocolonialista ou, se o erro é cometido do outro lado da linha de produção, corrigindo o erro sem o fazer notar, o que inevitavelmente gera mais erros. Na verdade, e em última análise, tudo isto é um gigantesco erro, que vem do nosso gosto de mentirmos a nós próprios, enterrados como toupeiras numa rotina que nos anestesia na ilusão de que a vida dura tanto que pode ser completamente desperdiçada em tarefas estúpidas, na completa falta de uma causa que pudesse ser digna do nosso amor. Há dias em que tenho vontade de me trancar na casa de banho e vomitar. Há dias em que tenho vontade de me trancar na casa de banho e embalar-me com choro até ao juízo final. O que é que pode ser a minha felicidade a partir daqui? Não sentir tanta tristeza, aprender na minha vida de indivíduo, na minha vida de alguém que não é um agente ao serviço desta máquina suja, a não oprimir os outros, a deixá-los em paz para que eles me deixem em paz. A ternura a que aspiro agora é essa: deixar os outros em paz para que eles me deixem em paz. É difícil combater a monstruosidade das horas, não morrer de tédio. Reparei há alguns dias que se me posicionar num certo ângulo consigo sentir o coração a bater-me no ouvido, o que me torna num grande tambor vivo, uma máquina só feita de ritmo, mas o ritmo do meu corpo é tempo e é as exigências de merda destes homens brancos, vestidos de fato e gravata, sem sonhos, sem paixão, sem amor por nada que não seja o seu lucro, que, conjugado com a nossa pobreza, lhes permite consumir todo o calor do nosso corpo, até que, pela nossa vez, nós nos tornemos cada vez mais preparados para ser extintos.

Quando atravessei as portas deste gigantesco edifício cinzento pela primeira vez (na verdade é azul, mas só o consigo entender como cinzento), a primeira coisa que eles fizeram foi dar-me um cartão que lhes permite controlar a que horas entro e a que horas abandono o edifício. E foi aí que eu entendi: deixou de ser possível eu desaparecer para qualquer parte a qualquer hora do dia, e deixou de ser possível certas horas da minha vida serem só minhas, numa perspectiva utilitária: usadas por mim no ofício de estar vivo. E este contexto, não haja dúvidas sobre isso, é pensado para uma coisa, e para uma coisa apenas, para nos tornar todos iguais, para nos fazer a todos reagir de certa maneira. Normas e códigos são-nos repetidos diariamente, e protocolos de resposta devem ser decorados para cada situação. Existem guiões, formulários, processos, requerimentos que desencadeiam reacções que devem ser seguidas sempre de acordo com o mesmo padrão. Para que nada atrapalhe o ofício sagrado da grande máquina, ao qual é nosso dever sacrificarmo-nos.

A incapacidade de um asmático de respirar parece-se com as minhas horas de trabalho. A pouca humanidade de que disponho é uma coisa que demora uma incrível quantidade de horas a ser reunida e que se conserva com a precariedade de dentes-de-leão num dia muito vento. Ao fim do dia saio do comboio e corro para a livraria mais próxima e enrosco-me num dos bancos do primeiro andar com este caderno e esta caneta na mão porque preciso de sentir que algo da minha vida, da história do que em mim tem estado vivo, é resgatado por este gesto. Porque é muito pesado o extremo da necessidade que carrego e o meu trabalho é escrever isto, tentar conservar as breves iluminações de humanidade (no caminho para aqui, o rapaz na tasca de burritos, sentado ao balcão num banco alto, com os headphones azuis na cabeça como uma fita, a comer com fome o seu jantar que hoje acontece mais cedo, para onde irá ele a seguir? porquê tão cedo ou tão tarde?, ou os dois velhos bêbados à porta do bar, um deles a segurar o outro enquanto ele chorava) que fugazmente se acendem mesmo diante dos meus olhos. E eu devo dizer que agora preciso, mais do que nunca, que elas se acendam completamente diante dos meus olhos como as imagens no ecrã de cinema para o espectador que se senta na última fila, mesmo em frente ao ecrã. E não, nada disto é sobre luto, é antes sobre preservar quem sou, para que a estupidez em que diariamente tenho desperdiçado a minha vida não me destrua completamente, para que alguma das coisas que têm sido para mim sagradas não apodreçam completamente, não me tornem podre com o seu apodrecimento.

E houve mesmo uma altura em que acreditei que nada podia destruir o meu amor. Percebo agora que me deixei levar. Que o meu amor é constantemente ameaçado e que aquilo que o pode matar não é um golpe subitamente mas a banalidade de cada dia. Os dias despidos de qualquer possibilidade de beleza, conhecimento, encontro, ou descoberta. (Não encontro ninguém há meses, continuo a procurar e não há ninguém.) O frio e o medo são estas coisas e o trabalho da minha morte é o ofício porque eles vieram. Estes dias todos iguais que geram noites iguais umas às outras, que me fitam com as suas caras sem olhos através destas longas filas de secretárias e computadores que mesmo no verão só existem e só prosperam na escuridão de todos os invernos, de toda a falta de ternura, liberdade, ou calor. E podia ser que eu aceitasse que alguém me viesse dizer que nada disto é assim, que isto é apenas uma situação. Mas é isto ser apenas uma situação que permite que esta frase seja aceite, que esta maneira de viver sem sangue, sem amor, sem desejo, nesta perseguição tonta e vazia dos deuses do lucro e da velocidade (o mais importante de tudo é ser muito rápido, para produzir cada vez mais para gerar cada vez mais lucro, do qual, nós que o geramos, beneficiamos numa percentagem ao nível da esmola), seja confundida com a normalidade, com o que uma vida humana deve ser. Não há consolo nenhum para isto e não há nenhum outro perdão que não deixar esta guerra e este ódio crescer dentro de mim, até se tornar no meu jardim, alimentar-me deste total desprezo pela maneira como estou vivo aqui e agora, um desprezo que me inclui, uma vez que eu não tive outra escolha que não aceitar isto, trazer este contexto para cada dia da minha vida, que a partir daqui será cada vez mais difícil e cada vez mais imperdoável.

Oxford, 7 de Novembro de 2015

Escalas de protagonismo no ronche fort

I

 da última vez, todos nós nos excluímos.  
tudo  
o que poderíamos ter sido é:  
uma onda  
como a água te divide em dois
e as luminâncias
(no meio de uma tempestade) 
e conseguem dizer mas não se sustentam:  
arrastam com sonhos palavras de ordem  
(marcação que eu possa já ter cruzado): 
vocês tentarão descrever sem êxito à que me pareço antes de dizer as cidades com melhor custo benefício de perder os declames
- os oh’s e ah’s os cliques e flashes –  
ficcionalizamos os públicos passando em paredes de aço e em esferas
mas mesmo assim não foram dessa vez alegando perda de algo a falar em genéricos antes da viagem  

II

não volto lá sozinho
não vejo como escovar os dentes todos os dias em outro continente na mesma proporção que se frequenta a bebida local
talvez muitos lugares não me lembre   

III

reclames a formar bolas e esferas com a língua.  
uma praia emporcalhada de turistas - 
à disfarce nativo e belo.  
os dentes  
essa barreira à brecar tudo  
trouxas dedos a física da língua
este braço fazendo movimento de cisne a toda uma unidade de extensão dos pés direitos das calhas*:  
o que seríamos sem o estorvo? 
(quando coloca as palavras em seleção
prefere um desenho de indicadores
acham que tem uma distinção  
um fungo na “rivera” 
constante deslocamento que não deixa prestar atenção no que não seja enquadramentos)  

IV

ela  
já esteve procurando também um apartamento  
um emprego  
uma tautologia
(mais guinada à quiromancia
a descobrir as linhas das digitais no registro geral  
-também é ele
uma quiromancia impondo coisas) 
o beco não é essa coisa que se mira e se chega com as mãos  
algumas ferramentas de luz não encarnamos.  

-  

*as senhoras podem ver de engate à emplastro
sondas marinhas juntando grama
noturno chã ou furão de ferro
ceifas britadeiras quedas de temperatura
tudo da mesma maneira untando as mãos  
nós íamos  
e agora não vamos mais  
levando em consideração os joelhos e as colunas fechando círculos
bolsões de sonos  
a corda que fica suspensa partindo uma série de considerações sempre aos despejos:  
chuvas fazendo anatomia de mapas
quedas no armazém retendo
algumas formas de vida
algumas formas de empacotamento
mãos cerrando calhas  
mãos fazendo teto
mãos à procura das luzes em busca do contentamento
as senhoras poderão se alojar no lugar menos possível
algumas ferramentas de luz não encarnamos

Manchester

Edvard Munch

Edvard Munch

Subitamente irrompeu uma brecha na luz de Manchester, de onde irradiaram as trevas, aquelas que conhecemos e desconhecemos (pensar o abominável é já, diz-se, desculpá-lo um pouco) e às quais dedicamos cada vez menos caracteres indignados. Se nos habituarmos, vencem-nos. E nós habituamo-nos. A odiosa revelação de um niilismo, preenchido por círculos de escorpiões, que sente comprazimento na razia de vidas quase ainda por viver, vidas de futuro, cheias de entusiasmo e esperança, vem agora ter connosco como um mal esperado. Estamos no limiar de um abanão profundo, convocaremos, porém, ainda velhos rituais de compensação (homenagens, textos fúnebres, vagas policiais, vinganças jurídicas). Mas fazemo-lo sabendo que em breve algo virá novamente comer vidas e alegria, o terrorismo desbragado (acredito num terror que se quer conjurar a si mesmo) é um glutão insaciável, e nós, que vemos Manchester nos mass media, espectadores panópticos, aguardamos tristes pela próxima garfada. As vítimas de sangue (ainda tão juvenil, raios!) deixaram-nos e afogaram de dor quem as amava, como sabemos há muito mais do que 22 cadáveres. Queira alguma coisa bondosa que o magnífico enxame de estrelas, que nos visita tanto melhor quanto a noite for escura, reponha uma certa justiça.

 

Emparedado

Construo os muros da minha solidão, apátrida. Quero ter para onde ir, quando se apagam as luzes todas. Vou-me governando, e só preciso de três paredes. As minhas costas, e tudo o que está para trás delas, são o suficiente para ser a parede que falta, para encerrar o espaço da minha prisão voluntária. Crio listas, tento não me esquecer de nada, desde ontem, de tudo aquilo que necessito enquanto não volto. Tapo as tomadas todas, quase para sempre, para me proteger da tentação da carne ligada à corrente. Hidrato-me, bebo de uma garrafão de água destilada e os meus rins agradecem. Neste espaço de paredes, tenho um caixote de madeira com um cheiro de fruta da época que já passou, apodrecida na memória. É a minha única mobília sólida, se não contar com os outros objectos. Em cima deste caixote, de lado, coloco o meu gato empalhado. Malvado companheiro, que desertou da minha vida antes do tempo. E não conseguiu sequer esconder um sorriso, ele que tinha as minhas paredes para o fazer. Mantive-o assim, sorridente, com três flores cada uma da sua cor secas, cravadas no seu corpo peludo. Sou um criativo moderado, que a minha mobília não me deixa muito espaço para imaginar outro espaço. O chão, sobra. De livros, também estou servido. Tenho aqui o Camões, para não me esquecer dessa outra pátria que é Portugal, e um outro sobre os segredos e as virtudes das plantas medicinais. Apanhei muitas nos caminhos, e ainda não sei para o que servem. Noutro canto, tenho um elefante pequeno, do barro que eu próprio moldei, com uma figura triste. Fica com a expressão virada para uma das paredes, a ver se a comove. Ainda uma imagem, que trago comigo dobrada ao meio. Coloco-a no centro do caixote, por cima de um naperon de renda branca. Esta imagem pode ser tudo, e é também a minha origem. É a fotografia do casamento dos meus pais, onde aparecem com as mãos fechadas um no outro. Há prisões que se escolhem.  

Violeta Parra, Obrigada à vida

Tradução: Sandra Santos

Obrigada à vida, que me deu tanto.
Deu-me dois astros que, quando os abro,
distingo logo o negro do branco,
e no alto céu o seu fundo estrelado,
e nas multitudes o homem que eu amo.

Obrigada à vida, que me deu tanto.
Deu-me o ouvido, que em todo o seu tamanho
grava noite e dia; grilos e canários.
martelos, turbinas, bátegas
e a voz tão terna do meu namorado.

Obrigada à vida, que me deu tanto.
Deu-me o som e o abecedário,
com ele as palavras que penso e declaro:
mãe, amigo, irmão e luz, iluminando
a rota da alma do que estou amando.

Obrigada à vida, que me deu tanto.
Deu-me a marcha de meus pés cansados;
com eles percorri cidades e charcos,
praias e desertos, montanhas e planícies,
e a casa tua, a tua rua e o teu pátio.

Obrigada à vida, que me deu tanto.
Deu-me o coração, que agita a sua moldura
quando olho o fruto do cérebro humano,
quando olho o bom tão longe do mau,
quando olho o fundo dos teus olhos claros.

Obrigada à vida, que me deu tanto.
Deu-me o riso e deu-me o choro;
assim distingo destino de desalento,
os dois materiais que formam o meu canto
e o canto de vocês, que é o mesmo canto,
e o canto de todos, que é o meu próprio canto.


 

GRACIAS A LA VIDA

 

Gracias a la vida, que me ha dado tanto.
Me dió dos luceros que, cuando los abro,
perfecto distingo lo negro del blanco,
y en el alto cielo su fondo estrellado,
y en las multitudes el hombre que yo amo.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto.
Me ha dado el oído, que en todo su ancho
graba noche y día; grillos y canarios.
martillos, turbinas, chubascos
y la voz tan tierna de mi enamorado.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto.
Me ha dado el sonido y el abecedario,
con él las palabras que pienso y declaro:
madre, amigo, hermano y luz, alumbrando
la ruta del alma del que estoy amando.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto.
Me ha dado la marcha de mis pies cansados;
con ellos anduve ciudades y charcos,
playas y desiertos, montañas y llanos,
y la casa tuya, tu calle y tu patio.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto.
Me dió el corazón, que agita su marco
cuando miro el fruto del cerebro humano,
cuando miro el bueno tan lejos del malo,
cuando miro el fondo de tus ojos claros.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto.
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto;
así yo distingo dicha de quebranto,
los dos materiales que forman mi canto
y el canto de ustedes, que es el mismo canto,
y el canto de todos, que es mi propio canto.