Dos editores que não publicam livros

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Todos os dias, a partir das sete da tarde, quando os funcionários abandonavam o t-4 no qual a sede da editora se encontrava instalada, o editor seguia o ritual de estalar os dedos, descalçar os sapatos, alisar o cabelo com um pente molhado, folhear o jornal diário enquanto delia o açúcar no café, e responder aos autores que, iludidos pelo delírio de ser incluídos num catálogo que equivalia a prémios literários e a sucesso imediato, lhe enviavam manuscritos, arriscando receber em troca humilhantes e insultuosas cartas — sucintas, impregnadas de azedas observações, como não presta, não apreciei, aprenda a escrever, volte à escola, cosa peúgas.

O editor reservara aquela sexta-feira para reler as páginas finais de um manuscrito que, não lhe tendo desagradado — a prosa não se enodoava com refogados poéticos, não lhe saturava a vista, não lhe puxava as unhas para os dentes, nem o desguedelhava — , apresentava uma pecha inultrapassável: o editor não só conhecia o autor como com ele antipatizava. “Estimado senhor, sobre o seu original não me pronunciarei a não ser para lhe rogar que se dedique a tarefas não associadas à escrita durante os próximos quatro ou cinco anos, talvez os que me faltam para partir desta medonha existência”, redigiu, e pousou a caneta, arrependido de ter iniciado a carta num tão cordato tom. Estimado senhor. Caro cidadão. Boa noite, animal. Soletrou o vocábulo depois de bochechar o café frio. Animal. “Senhor animal”, emendou, “acredite ou não, no exacto segundo em que o carteiro me tocou à campainha com o seu manuscrito nas mãos, cheirou-me a trampa.” Dobrada e enfiada a folha A4 no envelope, costumava apagar-se do pensamento do editor a memória do que acabara de fazer. Enfiava-se no táxi, aterrava na cama, e na manhã seguinte que voltasse mais lixo para rejeitar, mas não naquele dia. Remexia papéis, abria e fechava o jornal, tamborilava no tampo da secretária, numa inquietação de quem, habituado à mecanização do trabalho, se via de repente a cogitar sobre o próprio ofício. “Odeio literatura”, soprou. Odiava o que fazia, detestava livros, ler, escritores, errara na profissão, cogitava que, em vez de telefonar para jornalistas e críticos literários a ameaçar por causa do “trabalho medíocre”, em vez de escrever panfletos contra o recurso à pontuação dos livros mediante recurso a estrelas, em vez de rejeitar noventa e nove ponto nove por cento dos manuscritos recebidos, poderia ter dado melhor uso ao curso de direito e à herança do pai, poderia ter lutado por causas justas, boas, poderia ter procriado, adoptado um menino africano, mas fora editor.

“Excelentíssimo director”, começava o editor, numa nota a remeter para suplemento cultural que o indispunha pela particular razão de raramente publicar recensões negativas. “A literatura hoje existente germinou numa latrina e é minha, nossa obrigação desinfectá-la.” Antes do ponto final, uma última frase: “A minha editora deixa de existir agora.” Passava das duas da manhã, a noite orvalhada convidava a fechar os olhos, e o editor, a morrer de sono, esticou-se no sofá, depois de rasgar a carta, as cartas todas. Era editor, seria sempre editor.

Algo resiste no sentido do centro

Querias as redenções mais rápidas para os teus pecados furtivos
a tua glória silenciosa ardendo por dentro dum peito
frio por fora, aberto às intempéries do real
ciclo orgânico-emocional dos dias, do tempo
sem a lava, sem um sinal exterior do lume, sem ti: mas estás,
algo resiste
no mesmo compasso onde esse algo desaparece e o paradoxo invoca as terras mais inférteis
aquelas onde o grão já plantado não cresce e as orações se tornam espiga
para nenhum pão, porque não as há
as mãos: o templo profanado já não guarda as antigas relíquias
o ouro índio roubado das areias, através das areias marcadas
no mapa e na cartografia fidedigna do corpo: assim se profanam
os templos, com a deslocação espacial da matéria sacra e a sombra
do mito sem esquina para dobrar: foi nos museus abertos
das 8 às 8 onde expuseram as nossas peças mais estimadas
onde turistas hereges se satisfazem com seus tamanhos e suas formas
excepto
nos feriados e na duração da noite, quando penso em ti e nos símbolos
resíduos abstractos do que antes fora religião local
agora credo e rosário conduzido pelos caminhos interiores
no sentido do centro
sempre do centro quando a janela se fecha e os pássaros já não bebem
da água benta das nossas fontes, dos nossos jardins onde os frutos:

Sim, antes havia.

agora nas mãos (apenas as primeiras) seguramos os poucos capitéis que salvámos, mas tornamo-nos mais turistas com os dias, com o tempo real aberto às intempéries, dentro do ciclo orgânico-emocional desta ausência (a nossa) e entramos nos museus como quem confunde o sagrado com o profano, os altares com os quadros e esquece a colheita, a horta esperando outras mãos, sempre as mesmas.

 

Da Vide


Luís Chacho, Vida mulata

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Luís Chacho
Vida mulata
ficção

Enfermaria 6, setembro de 2017, 42 páginas

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Beber sem pressa é poesia, palavras compostas dos outros pelas costuras de outros ainda. Sou das narrativas, quando muito, tensas. Aí, concedo, sou língua ressuscitada. Um espírito que se dessolidariza lateral à carnadura, desenhada esta por braços insuficientemente diurnos, para delinear uma sombra.

O Faulkner do Algarve

Página de um manuscrito do Faulkner real

Página de um manuscrito do Faulkner real

Escriba virtuoso, com pancada para o narcisismo e a estracinhar a mioleira com uma obsessão suicida que a medicação acelerava, Franz Santos  —  o Santos herdara do pai drogadinho e o nome Franz fora roubar a dicionário de pseudónimos achado na biblioteca da junta de freguesia —  anexou nota biográfica ao manuscrito enviado a editora de renome, mas não uma nota de somenos, padronizada, antes um punhado de violáceas palavras que resumiam os seus sentimentos a respeito de si mesmo:

“Franz, nascido a 13 de Setembro de 1978, autor de linhas que em estilo e em génio se equipara a uma espécie de Faulkner metido numa casa de putas.”

Lambido o envelope, enviado o manuscrito, rumou ao café da esquina a trincar cigarro, a cuspir fumaça e a convencer-se de que daquela vez é que era, que terminara o tempo do anonimato, que livro tão fibroso e rendilhado como o que escrevera seria o trampolim para uma boa editora, depois para os jornais literários e para as entrevistas e para o Prémio Nobel e para a imortalidade. Apesar de tantas rejeições. Tantos nãos. Apesar dos séculos a alimentar o ego em isolamento, a idealizar o estrelato, a dizer ao espelho tens talento, tens talento. Apesar da pistola no bolso a servir de comprimido SOS, pronta para resolver por via de balázio súbitos anseios relacionados com o paradoxo que era ambicionar conquistar o universo e, ao mesmo tempo, possuir míseros tostões para um bitoque e uma noite quase bem passada em espelunca na companhia de uma romena com tantos calos nos dedos dos pés como dentes na boca. 

A tasca do senhor Fernando, ou melhor, Nicole, esfinge oriunda do Maranhão, empregada da dita tasca, era o centro de todos os escritos oferecidos à humanidade por Franz. Portento de oitenta quilogramas a rebentar pelas costuras, loira de um loiro caseiro (tinta loiro claro, sete euros no minipreço), abonada em termos de peito e de borbulhas, Nicole, de certa maneira parecida com um pónei, figurava nas páginas de Franz como uma guerreira pela pobreza injustiçada, que enfrentava as adversidades abrindo o decote e levantando a saia a troco de dinheiro num prostíbulo. Ao raspar ao de leve no braço do escritor, Nicole, invariavelmente feia e sorridente, ocasionava imaginativo conto de cariz autobiográfico em que Franz se imaginava num quarto vermelho, a lançar notas ao ar e no marmelanço com a brasileira. As suas histórias eram vira o disco e toca o mesmo, Nicole de perna aberta, Nicole a roçar-se, Nicole assim, Nicole assado. Às cartas de editores a aconselhar mais diversidade temática, Franz respondia professorando que, para além de não ter culpa de amar mulheres feias, os seus estudos ficcionais e não-ficcionais em torno de Nicole eram secundários, dado que o que sobressaía ou merecia ser louvado ou apreciado, como música clássica, era a escrita lírica, faulkneriana, mais faulkneriana do que a própria escrita de Faulkner, que nascera na rica América, e ele, Francisco no berço, Chico durante a infância, pertencia ao Algarve. E o pior era não ser compreendido pelos editores, acabar calado, com um copo e uma caneta à frente.

Radio silence: notas sobre rádios

            “Rádio é um recurso tecnológico de telecomunicações utilizado para propiciar comunicação bidirecional por intermédio da transcepção de dados e informações previamente codificadas em sinal eletromagnético que se propaga através do espaço do mundo físico material e imaterial.” (Grifo nosso). Não sei o que a Wikipédia quis significar com “imaterial”, mas entendo essa sua vontade “amplificar” o alcance e as possibilidades do rádio, como se ele estivesse além da nossa individualidade e autorrealização.

            De minha parte, apenas quis lembrar-me dele. “O rádio. Lembrar-se do rádio, penso, ou escrevo em post-its (fiz isso apenas uma vez), ou penso quando desligo o carro e quero continuar ouvindo a estação mas preciso entrar em casa e lembrar de ligar na mesma estação. Simplesmente lembrar de deixar o rádio ligado. Uma forma singular de ocupar o espaço, também penso (só agora, que escrevo). Mas hoje estamos no shuffle.” (Anotações do diário)

Me refiro ao rádio pois é minha máquina predileta, basicamente por sua transmissão de frequências. Os vinis, hoje são caros e ocupam demasiado espaço, e, para quem tem rinite, é um problema a mais quando já existem os livros; enquanto que os CD’s, eu prefiro, mas os da minha coleção são de bandas obsoletas e infames, ou que, no mínimo, você, em pleno século 21, não mostraria para os convidados, muito menos para crush’s.

Há a máquina notebook, eu sei, que te conecta com possibilidades de combinações infinitas de matéria, inclusive com todo tipo de programa de rádio-transmissão. Digo a matéria, e não a simulação desta, ou meras imagens do real que se projetam numa mesma tela sempre feita da mesma coisa, ou seja, tela cuja substância não muda ao longo de um bom tempo, como a velha CPU que tenho, em cima da mesa-depósito, na quina do corredor de casa (mesa que papai ganhou (com design modernista e que ninguém nunca conseguiu montar com firmeza) de seu antigo trabalho, como forma de pagamento, pois a firma faliu; mas a CPU continua lá, pronta para ser ligada com todos os arquivos que eu deixei para trás, fotos editadas com sutis rabiscos do mouse feito pelo paint, ou só desenhos feitos com o paint, cartas breves de pedido de namoro também editadas com o paint, com corações efeito graffitte, um romance baseado no filme Guerra dos mundos, cujo título era Universos em guerra, e que o Pedro, meu vizinho, ajudou a escrever, se bem que depois de dez minutos sentado ao meu lado de frente para aquela máquina velha (pois já existia o Xp, e o meu era o 94, mas não seja por isso), o Pedro disse que precisava ir para casa e levantou-se, perguntou se o portão estava aberto, e foi sozinho fazer seu compromisso, mas me ajudou nos primeiros parágrafos; depois, eu imprimi a história na mesma tarde e fui para a casa de Pedro onde o encontrei deitado no sofá assistindo o melhor filme que já vimos juntos, era da Disney e devia ter mais de duas horas, trama complexa de um grupo que queria se libertar do mal autocrático exercido por outro, eram crianças num acampamento, ou crianças escravas, ou ladras; nunca vou me lembrar do título, mas os personagens e a fotografia remetiam a uma atmosfera desértica e onírica, como sonhar Fellini em colorido, não em p&b; tudo excessivamente amerelo-ouro. Mas a matéria em si ganha a medida do notebook, como dimensão biológica da experiência, e fica contida num buraco cujo fundo não há, se prolifera em abismos dentro de outros que retornam, sem absoluta hierarquia, por nossos próprios movimentos sobre teclas e mouses e as respostas da tela do notebook (tendenciosamente no mesmo ciclo vicioso por analogias mega-inteligentes, para as nossas preferências, etc.)

Apenas uma tendência. Mas que às vezes nos faz espantar quando nos deparamos (raramente ou com esforço) com espaços elaborados em uma matéria que não existia dentro desse ciclo, com verdadeiras ruínas, não raras vezes tentadas como “obras de arte”, e as habitamos por alguns instantes, instantes repletos de morte, e que imediatamente jogamos fora, dum lugar que carece de discurso, de escolha ou analogia, cuja podridão desloca os ensejos que tanto investimos a cada mínimo espaço de tempo conectados (no banheiro, na fila do mercado, no pronto socorro, no pré- e pós-sexo, nas escadas do prédio, no café, no engarramento); desloca-os todos para o movimento mais ousado e transgressor. Que é perspicaz e quieto, por sua desmedida substância.

O rádio cumpre, de forma abreviada e portátil, essa temporalidade indiferente e fora de alcance. Por seu corpo hoje inútil e sua vida própria, principalmente durante a noite.

Há disso nos romances, por exemplo; e é algo bonito, que nos toca particularmente na modernidade líquida, ou seja lá o que isso for. Trata-se da “perda” de tempo que investimos na leitura, na excessividade textual que pode levar a diversas imperfeições do enredo, detalhes e memórias absolutamente descartáveis, deslocadas do foco, um prolongamento do corpo de quem escreve que escapa no texto. Falo do romance (poderia falar em “gastar tempo” se dissolvendo em versos, nos enjambements) pois é o gênero mais valorizado hoje, dentre outras razões, por sua característica da “perfeição”, da possibilidade de narrar uma história com um tamanho ideal que dê conta daquilo de que enuncia: que seja compreensível e bem resolvida. E sua beleza particular é precisamente oposta a essa noção de “obra”; é a de um espaço cuja possibilidade de inventividade de matéria é inesgotável.

Outro exemplo de uma situação-ruína, extraio justamente de dois romances: radicalizando essa “textualidade” inútil, num gesto primitivo e infantil, os personagens pegam um livro e o estendem no varal; o livro fica aberto e com a maior área de contato possível, acelerando as reações químicas do vento, da chuva, do sol e do cocô de pássaros, sintetizando, num experimento visível, algo do tempo geológico. (São duas cenas parecidas, presentes em 2666, de Roberto Bolaño, e em Nocilla Epeirence, de Augustín Fernández Mallo, que disse não ter lido o romance de Bolaño antes de ter escrito Nocilla, ocorrendo o fenômeno de “plágio por antecipação”, como diz Borges.)

No dia-a-dia, não precisamos deteriorar os livros. O rádio é uma máquina fácil de ser acoplada ao ambiente e pode ficar de segundo plano, enquanto se escreve ou se lê um livro, por exemplo. É uma questão de escuta, em ambos os casos. Mas no caso do rádio, não precisamos nem estar “ouvindo rádio”.

Pois me lembrei dele, que ficava ali atrás na estante, a maior parte do tempo à toa, ruidoso enquanto me dedicava a algo mais importante, até que ele parou de funcionar. Agora, vejo-o ali ainda, com seu corpo alheio, indiferente. E então, todo o silêncio que percebo, emana exclusivamente dele, das suas caixas de som que não funcionam, aí penso que o título da música “Radio silence” faz sentido.

“Radio silence”, canção melosa do britânico James Blake. Eu justificaria dizendo que suas músicas são ritmadas fora do padrão da indústria (padrão das estações de rádio?!), verso-refrão-verso-refrão-solo, pois elas cismam em não cair no refrão, se prolongando, como em Erik Satie. Mas não tem nada a ver; as analogias são fúteis mesmo.

11/06/2017

Canção citada.