A utopia dos livros 

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Por vezes, brincando com uma ideia imaginária do homem que poderia ter sido, exteriorizo com a esposa, coitada, delírios de felicidade, sonhos suburbanos, de quem medrou na pobreza, como passar os dias de robe e pantufas numa casa com piscina, a soprar fumo de charuto, a ler Proust, a combinar as férias em Punta Cana. Estes são escapes mentais, maneiras de me idealizar noutra vida, talvez noutro corpo. Não sendo Tony Soprano, nem fumando charuto, é-me mais conveniente uma utopia proposta por Kafka, quando anota que a melhor forma de vida consiste em encerrar-se numa cova funda com um candeeiro e o material necessário para escrever. Escrever em paz, longe de vozes, livre do trabalho, eis uma possível utopia de quem escreve - a utopia de um dia vir a ter as condições perfeitas para criar (no escuro, no silêncio, na torre de Montaigne) a obra magistral. Outro sonho de quem se dedica aos livros é ler ininterruptamente, ler sem paragens, ler como se a leitura fosse acto inseparável da escrita, como se substituísse a comida e a bebida e pagasse as contas. Ler de maneira a que a leitura transforme este mundo de cansaço num mundo de Borges, no qual tudo, inclusive um dicionário, uma namorada, possa ser lido como ficção. Ler como se uma mulher, a nossa, pudesse ser parte da leitura. Kafka, explica-nos Ricardo Piglia em O Último Leitor, constrói uma leitora atada aos seus manuscritos, uma figura sentimental que une escrita e vida, em suma, uma mulher perfeita, uma leitora fiel, que vive para ler e copiar os manuscritos do homem que escreve (aliás, Felice Bauer, essa criatura transformada numa leitora de cartas e manuscritos, desperta a atenção de Kafka por passar a noite a ler, por ler até tarde na cama). 

7 poemas de SAL ~ SOL ; SOLO

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PRELÚDIO

 

Esmalte vermelho
Um pouco acinzentado

Cinza sobre a mesa pequena
Na varanda, conchas
Cheias da cinza, lembremo-nos,
Humano, este és tu também
Matéria leve, cinzas voando
Carregadas pelo vento
Que sobe
Pelo rio

Estou a sentir-me
Como na borda de um navio
Eu, inclinada sobre
A delicada estrutura de ferro

Olá liberdade!
Olá pássaros!
Olá perigo!


As bocas vermelhas
Dos meus dedos
Feitos pelo Deus-ferreiro
Dedos selados,
Cumprimentando com cortesia
Enquanto incluem
Penugens cinzentas, incenso
Contam-me sobre o calor
De fogo, vulcões. Olá,

Liberdade! Olá, phoenix!
Olá, vida!


RE:FLEXÃO

 

Eu peço-te
Que me vires

Como o vento dobra
As ondas, peço-te

Que me consertes
Para ter a força, concentrada
Para não estar espalhada por aí

Somente abstraída da fonte

Das minhas confusões
Pois eu não sou (do) mar
Mas nele me reconheço
Como seja um espelho


 

Se eu apertar
Um nó
Na minha tristeza
Pode ele lembrar-se
Lembrar-me
Da minha felicidade


NA BOCA

 

A eternidade
Na boca
Uma língua
Cheia de palavras
Cheia de silêncio
Sem fim
As palavras
Na boca
A eternidade
Elas lapidam
A obscuridade
Dentro dos lábios
Lapidam-na
Clara como uma
Pedra preciosa
Transformam-na
Numa ponta aguda
Será a caneta que
Eu vou usar para
Escrever sobre estas,
Aquelas coisas que
Ainda não sei


CAMINHO

 

Caminho
Eu estou a caminhar
Não caminho
Nas ruas, nos campos
Estou a caminhar num
Mundo sem corpo
Tudo é som, tudo é sonho
Eu sou um corpo, tenho-o
Tenho um que os meus
Pensamentos podem usar
Para caminhar e
Por isso eu caminho
Eu estou a caminhar
Bastante
Aqui, lá


TRAÇO
 

Em cima das tuas bochechas
Em baixo dos teus olhos castanhos
À esquerda, à direita
A pele ondea-se, tímida
Que rugas delicadinhas
Como se se sentassem lá
Borboletas, voadas, já


PASSAR (O TEMPO)
 

Para aterrar
Ele escreveu
Eu precisaria
De ver o destino
Ainda mais claramente

Apesar de tudo
Ainda estamos novos
Eu respondi

Os contornos
Esclarecerão
Quando os olhos
Desvanecerão, perderão
A linha


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Adam Zagajewski, "Tenta louvar o mundo mutilado"

Tradução de João Ferrão e Anna Kuśmierczyk

 

Tenta louvar o mundo mutilado.
Recorda os longos dias de Junho
e os morangos silvestres, as gotas de vinho rosé.
As urtigas que cobrem metodicamente
as herdades abandonadas dos exilados.
Tens de louvar o mundo mutilado.
Observaste os iates elegantes e os navios;
um tinha uma longa viagem pela frente,
ao outro esperava-o apenas o nada salgado.
Viste os refugiados que caminhavam para lugar nenhum,
ouviste os carrascos que cantavam com alegria.
Deves louvar o mundo mutilado.
Recorda os momentos em que estiveram juntos
no quarto branco, as cortinas movendo-se.
Volta em pensamento ao concerto, quando a música eclodiu.
No Outono colheste bolotas no parque
e as folhas rodopiavam sobre as cicatrizes da terra.
Louva o mundo mutilado
e a pena cinzenta, perdida pelo tordo,
e a luz delicada, que erra e desaparece
regressa.


Sobre o autor

Adam Zagajewski (1945) é um poeta, ensaísta e tradutor polaco. Nasceu em Lviv, actual Ucrânia, tendo mais tarde estudado em Gliwice e Cracóvia. Viveu em França e foi professor nos EUA e na Polónia, trabalhando actualmente na Universidade de Chicago, onde lecciona um curso sobre Czesław Miłosz. A sua poesia, marcada por imagens límpidas e um tom discursivo e íntimo, partilha de muitas das obsessões da restante literatura polaca moderna (o holocausto, uma relação peculiar com o Cristianismo, a cultura europeia), mas também tópicos pessoais (a relação com os pais, a memória, a música). Está traduzido em várias línguas e venceu, entre outros prémios, o Neustadt em 2004 e o Princesa das Asturias em 2017.

Tentativa e erro

David, pormenor do rosto

David, pormenor do rosto

A primeira vez que tentei estudar italiano foi em Lisboa, onde tive uma professora de Nápoles acabada de chegar de Buenos Aires, onde tinha vivido vários anos. Ela não parecia muito feliz de regressar à Europa, não falava uma palavra de português, não nos deixava tirar uma única nota por escrito (algo que a mim me enervava), e o meu colega de carteira, ocasionalmente, era o lendário cantor José Mário Branco, que uma vez a meio de um teste, não sei bem como, vendo-me derrapar no acto de soletrar Michelangelo me corrigiu amavelmente. Não tendo isto sido o início de uma bela amizade, tenho, no entanto, com José Mário Branco a dívida anónima de nunca mais ter incorrido no pecadilho de soletrar erradamente o nome de um dos maiores génios da Renascença. Michelangelo está sepultado em Santa Croce em Florença, ao lado de uma série de outros génios do Renascimento, tantos que parece um pouco banal dar com o seu túmulo ali. Uma pessoa erra de um lado para o outro no amplo espaço daquela Basílica no meio dos turistas, até acabar cá fora, num túnel subterrâneo, onde do chão ao tecto repousam várias lápides datadas do romantismo, de gente que morreu jovem e de febre, de tuberculose, em acidentes pelo menos tão acidentais e aleatórios quanto acidentalmente se vive. Há uma grande ausência no centro de Santa Croce, que na verdade preenche toda a Florença. Numa posição no centro da Basílica está o cenotáfio de Dante, algures entre Leonardo da Vinci e Michelangelo. Fora das suas rotinas, os vivos vêm aqui apreciar os mortos, de máquinas fotográficas em punho, os seus passos ecoando pelo mármore.

Como Dante sabia, às vezes no meio do caminho da nossa vida podemos dar por nós absolutamente surpresos. Então, do nada, ocorre-nos subitamente a suprema graciosidade de alguns dos esboços menores que antes de dar com o David em toda a sua glória, uns quarteirões mais abaixo na galeria de destaque da Academia, se pode ver nos corredores desse museu. São uma série de esboços de figuras que se contorcem e se dissipam incompletas na pedra. Michelangelo teimosamente a lutar com a forma, tentativa e erro em loop. Quanto é preciso errar para chegar à forma certa.

Atlas de Michelangelo, um dos estudos que circundam a estátua de David na Academia

Atlas de Michelangelo, um dos estudos que circundam a estátua de David na Academia

Em An Art Lover’s Guide to Florence, Judith Testa dedicou algumas linhas a estas estátuas menores:

Those who go to see David today must first make their way through a museum of mediocre paintings and then down a long gallery lined with unfinished sculptures by Michelangelo, remnants of several of the artists ill-fated projects. Those shadowy figures seem to be struggling to break free from the blocks of marble that imprison them. Then, at the end of the corridor, the David looms on its pedestal, as fully realized and free from its stone block as any statue ever made... (p.242)

Sensible Soccer

em memória de Armando Moreira

1

o jogo não corria de feição ao Milan
que tinha
até aqui
limpado todas as equipas da competição
Papin
a debater-se com um surto de infecção existencial
teve de ser substituído a meio
da segunda parte
foi este o jogo
em que Van Basten bateu
o recorde mundial
de bolas ao poste
quarenta e duas
e no final levou para casa
um dos postes como prémio
e Grobbelaar
Bruce Grobbelaar
louvado seja o seu nome
fez milagres que chegassem
para duas santificações
uma apoteose
e um Ballon d’Or

mas as coisas iam piorar

já perto do final
Whelan
até então condenado a tarefas defensivas
rouba a bola no lado esquerdo do meio campo
indromina Donadoni com uma finta de corpo
sprinta pela ala acima como um homem
perseguido por uma tribo de canibais
e tenta um cruzamento desesperado
perante a aproximação de Tassotti

a bola desenha no ar uma banana tão perfeita
que deixou a defesa a salivar
e encontra a cabeça de Ian Rush
que não quis que Whelan fosse o único
a desafiar as leis da física
lançou-se do limiar da área
sobrevoou Baresi
e só parou no fundo da baliza de Rossi
juntamente com a bola

Milan 0     –     Liverpool 1
                        I. Rush 83’

 

2

temos o mesmo nome
não era porreiro se eu fizesse a música
do vosso próximo jogo?
terá dito Captain Sensible
vocês sabem
dos The Damned
a Jon Hare da Sensible Software
então não era?
e em quanto é que isso nos ficaria?

uma pint e não se fala mais nisso

bebeu-se a pint
apertos de mão
votos de solidariedade artística
e na mesma tarde apareceu a música
que acompanhava o ecrã de abertura
da primeira versão de Sensible Soccer
1992
uma obra prima
maculada apenas
pela inutilidade dos guarda-redes

como bom punk
Captain Sensible
vocês sabem
dos Punk Floyd
não acreditava em assinar contratos
por isso
nenhum contrato foi assinado

passados meses
toca o telefone
vocês estão a usar uma música
do Captain Sensible

vocês sabem
dos Dead Men Walking
no vosso jogo?
nós temos os direitos
para toda a música que ele fez
fará
ou pensar em fazer
e agradecíamos que nos pagassem
uma pipa de massa


a brincadeira custou £10 000

uma dura lição
comentou Hare mais tarde
recordando o episódio
depois disso tivemos de remover a música
deixou de ter significado para nós

 

3

ele guardava caixas de disquetes
cheias de repetições
passava horas
a analisar lances
frame por frame
nessa tarde mostrou-nos como era possível
marcar golos
do pontapé de saída[i]
as formas mais eficientes
de marcar de canto
e como as defender
o que vocês querem
é encher o meio campo
[ii]
não deixar espaço para construir
e usar os jogadores mais rápidos nas alas

mandamentos
que ainda hoje
faço por seguir

 

4

ao anoitecer
chegou uma mulher
jovem loira
inadequadamente elegante
no seu vestido azul
Armando
não íamos sair?


a família vivia longe
raramente estava reunida
e ele era encantador

foi assim que aquela mulher tão bela
acabou com um avental
sobre o vestido azul
e nós
jogámos
Sensible Soccer
até ao ano seguinte

 

5

os guarda-redes da versão original
eram os mais incompetentes
da história do futebol digital
um jogo que acaba 8-5
não é verdadeiramente um jogo de futebol

mas quão fiel precisa de ser uma caricatura?

tudo começou como uma piada

a ideia era transpor a leveza
da alegre carnificina de Cannon Fodder
para o belo jogo

os bonecos corriam a 50Km/h
saltavam 20m para cabecear a bola
e dando uma guinada depois do remate
era possível alterar consideravelmente
a trajectória da bola
perdemos a conta
aos joysticks
que isto nos custou

mas o número de equipas era soberbo
os planteis exactos
o detalhe táctico
nunca visto num jogo
e a imaginação da infância
complementava
a indeterminação dos pixels

comecei a ver futebol
à procura de vestígios
que legitimassem a caricatura
o amor pela imitação
antecedendo
o amor
pela coisa real
ainda hoje não estou certo
de que seja possível
amar
coisas reais
mas o meu amor por futebol
permanece inabalável

mais tarde em 92 saiu uma versão
com uma série de melhoramentos
passou a haver cartões
o árbitro aparecia no campo
mas de longe o mais importante
era os guarda-redes agora
conseguirem fazer uma defesa

foi esta a versão que jogámos naquela noite

 

6

a equipa italiana fez de tudo
para conseguir pelo menos o empate
nos minutos finais
bolas longas para um ataque reforçado
o coração como um comboio
quando o boneco
que acreditávamos possuir
o talento e força de Ruud Gullit
remata à entrada da área
mas Grobbelaar
          louvado seja
          ele e os programadores
          que consertaram os guarda-redes
garantiu a vitória
para a equipa de Liverpool

todos os presentes me aplaudiam
e era bem para lá
da minha hora de deitar

não sabia então
que tinha acabado de alcançar
demasiado cedo
o apogeu da minha carreira desportiva

nem que essa noite
em que lhe ganhei um jogo
de Sensible Soccer
seria a última vez
que o víamos


[i] o truque era mandar um balão
de um sítio exacto do meio campo
usando o círculo central como referência
só com um pouco de efeito
de maneira a que a bola
acertasse no poste da baliza
e ficasse no interior da área
se o timing fosse o correcto
o avançado que deu o pontapé de partida
chegava a tempo de ganhar o ressalto
e marcar

[ii] a superioridade do 3-5-2
é ainda hoje consensual
entre os estudiosos