pele de cervo

estalam os olhos escuros,
no incrível escuro sozinhos,
onde rasgam a bala o caminho.
é bela a estrada da neve no azul de metal.
céu, céu, e quantas estrelas o sabem?
pele de cervo, suas patas se agitam
ao sentir a tensão
na paisagem.
                      pressente inocente animal
faca de mão trinchadora, o segredo
dos homens armados. as faixas de sangue
pintam o branco, a mente uma página em branco
no horror de mesas metálicas,
no frio solitário das facas.
                     pele de cervo, tremor sob os músculos,
ruído nenhum escondido no vale,
o seu último sopro em cena,
crianças se escondem minúsculo.
céu, céu e estrelas brilhando,
                     brilho de pontas, cinco brilhando,
doze se contam no céu aureolado,
e cheira a churrasco o seu riso.
quem compra, a que preço de sonho,
o maior pesadelo? correm perdidas no medo,
pressente inocente animal.
pele de cervo, o que foge
e nunca reage: o céu, no escuro sozinho,
tímidas patas no estranho caminho.
céu, céu e as estrelas, distâncias astrais,
                     a mesa do frio,
neve e orvalho, bocas de sangue no azul.
crianças se curvam minúsculo, nuas
órbitas abrem, e o banho.
                     pele de cervo: o escravo, o estranho.

O homem que se dizia doutor

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 Leitão apresentava-se em público como “Doutor”. Doutor Nada, como o alcunhava quem o conhecia de outras paragens. O Doutor Nada, clarão de sofisticação, intrigava quem o avistasse à distância. Entufado, a deslizar o polegar pela vistosa gravata, a mesma gravata usada em todos os eventos sociais, cumprimentava este e aquele, insistia em desembuchar doutor, doutor, como se tivesse inventado a palavra. “Onde trabalha?”, inquiria um desvalido, deslumbrado com tanta luz. O Doutor Nada dissertava que desempenhava funções como professor universitário, que tinha contrato com meia-dúzia de departamentos académicos, e aditava, perdido de paixão pelo que afirmava, que ao longo das décadas vinha sendo convidado para as mais elegantes festas, que com cada vez maior entusiasmo vinha sendo aplaudido por onde passava, inclusive no supermercado, que deus era justo e misericordioso e que, caso desfrutasse de pachorra e saúde, aceitaria de bom grado representar-se a si mesmo em cerimónia a ter lugar, em meados do ano vindouro, numa freguesia recôndita lá para os lados do Sol Poente. Conquanto se dissesse professor de literatura, de filosofia e de línguas em geral, ignorava os nomes maiores da escrita. Se lhe perguntassem por Borges, a primeira imagem mental que o assaltaria era a de um jogador de sueca encafuado em tasca de província. Já o nome Séneca lhe recordava aquele camponês que se casara com a prima direita, a Regina. Quanto ao seu conhecimento linguístico - a sua especialidade -, hesitava entre confessar se era o francês ou o alemão ou o inglês o idioma que mais dominava, se bem que ainda ninguém o tivesse ouvido brilhar em qualquer língua, incluindo a sua nativa, o português. 

Tolhido pela desventuras da subsistência, Geraldo tinha-se em pouca conta, e nunca exibia o título de doutoramento que tantas dioptrias lhe roubara. Em certames sociais, encolhia-se num canto, evitava o convívio, mais do que três apertos de mão e remexia os bolsos à procura de aspirina. Azedo, revoltado contra a imbecilidade, Geraldo cruzara-se um par de vezes com a ilustre figura do Doutor, e em nenhuma delas ficara agradavelmente impressionado. Logo na noite em que o conhecera, Geraldo, tipo desprovido de sentido de humor, que levava tudo a peito, mesmo aquilo que não lhe dizia respeito, ficara com a sensação de estar na presença de um farsante que, ao se gabar de ser doutor em letras, ofendia quem tinha passado pela duríssima penitência de converter anos de investigação num documento legível. Doutoramento significava trabalho árduo. Geraldo ainda se condoía com a memória das semanas enterrado em arquivos, a levantar dados, a carregar fotocópias, a exasperar com a falta de qualidade de tudo o que escrevia e com as fracas perspectivas para o seu futuro académico, que mais lhe soava a uma continuação de um menu composto por latas de atum misturadas no arroz branco. Topara que o Doutor se fazia de mouco, que somente se mostrava afável na hora de bajular e dos artificiais abraços. Não lhe perguntassem pela dissertação ou pela sua especialização académica, pois não só não respondia como, impaciente, a bufar como se tivesse levado patada nas nádegas, evaporava para outro lado. E porque o doutor se esquivava a comentários sobre o seu currículo, Geraldo assumiu que aquele símio chamado Leitão era doutor apenas na aparência, no vestir, no gesticular, nos silêncios estudados que lhe mascaravam a estultícia.

A gravata a sufocar o pescoço do Doutor Nada era metáfora para a necessidade de calar, de não deixar cair a máscara. Separado da gravata ou a palrar, o Doutor revelava a sua verdadeira natureza, pendia para o banal, desengolia brejeirices. “Foi em 1998 que senti o peso da fama”, professorou um dia, rodeado de admiradores que lhe perdoavam o bafo de vinho. “Estacionei a viatura, como de costume entrei na universidade por uma porta lateral e, sem saber porquê, era ovacionado, as mulheres puxavam-me o casaco, desguedelhavam-me, apalpavam-me, pediam autógrafos, atiravam-me cuecas à cara.” Perdido entre os ouvintes, Geraldo ardia de raiva, sentia o impulso de disparar um soco em direcção ao saliente maxilar do Doutor, fugir dali a correr para uma biblioteca e ler, perder-se dentro de um livro, apagar aquela selvajaria, civilizar-se redescobrindo as linhas de um Quixote. Em vez de realizar os desejos, ali permaneceu a morder as unhas, a retorcer-se, a sorrir palidamente, a aguardar pela queda do inimigo - já não havia outra definição para o Doutor. Emborcada a quinta taça de vinho, lá lhe apareceu a coragem para encostar o fanfarrão à parede, exigir-lhe ideias filosóficas, conhecimentos sobre Leibniz, Kant ou Camões, mas o Doutor, habituado a bailar, a desviar-se da chuva, sorriu, mostrou-lhe uma esfíngica cara que aparentava sagacidade, e por aí se ficou, e tal atitude ainda mais encrespou Geraldo. Nessa noite, Geraldo, decidido a fazer justiça pelas próprias mãos,  não pregou olho. Queixar-se na polícia, cometer assassinato, passar o sacripanta a ferro com o carro para o amedrontar, em mil hipotéticas situações cogitou, mas à solução definitiva apenas chegaria na manhã seguinte, ao cruzar-se com o Doutor na estação do metro. Pensou Geraldo que bastaria um leve empurrão para que o Doutor fosse esmagado pelo metal, e convicto de que o mataria aguardou cinco eternos minutos, até que o comboio surgiu a rasgar o escuro. Na hora de cometer o crime, quem caiu para debaixo do comboio foi o próprio Geraldo.

Jogar ténis com Caravaggio

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Quem passear pelas salas do Museu Capodimonte em Nápoles não tem muito por onde escapar a uma cacofonia de arte sacra nas galerias principais. Alguma dela, há que reconhecê-lo, talvez não merecesse ter sobrevivido ao teste do tempo, quanto mais adornar as paredes de um museu. Antes de se entusiasmar demasiado com a possibilidade de um encontro com tesouros injustamente esquecidos, admita abertamente a possibilidade de que certas coisas foram e são esquecidas por boas razões. Este argumento continua a ser válido mesmo se acolhermos sem polémica um outro: de que há um valor histórico na arte, que alguns quadros desinteressantes testemunham pelo menos esse valor: a passagem do tempo que deu lugar a formas mais interessantes, a expressões mais desafiantes dos mesmos temas.

Tomados nos seus contextos, a presença destes quadros nestas salas é relevante para esclarecer o que em determinada época terá escapado às suas convenções, para nos deixar apreciar melhor a arte que excede o seu tempo. Acresce a isto que há pequenas jóias a serem descobertas no trabalho de poetas muito menores. Por exemplo, a beleza dos anjos que se abraçam nas Sete obras de Misericórdia de Caravaggio, o quadro monumental alojado desde sempre na igreja do Pio Monte della Misericordia, no quarteirão velho de Nápoles, a beleza desses anjos é muito mais evidente depois de oitenta pintores de sacristia martelarem em nós a culpa que o fiel deve sentir pelo sacrifício do Cristo em sucessivamente desinspiradas representações da crucificação, ou da descida da cruz, ou da positivamente anacrónica representação de respeitáveis cardeais metidos a martelo na cena da crucificação. As sete obras... é um dos três quartos da parte final da vida de Caravaggio, produzidos nesta venerável cidade depois de ele ter fugido de Roma por ter assassinado um homem (depois de uma altercação durante um jogo de ténis)[1].

O melhor que alguns quadros mais banais fazem por nós é darem-nos a noção de que todo o sentimento de apocalipse eminente de sucessivas gerações expostas a uma crise económica e política que se prolongou durante séculos acaba por trazer à superfície algo de bem mais valioso, algo que tem a sua expressão mais acabada em obras como este quadro de Caravaggio. 

Há um sentido do teatral que não se confunde em Caravaggio com um sentido do espectáculo, ou com o sublinhar repetitivo - sem possibilidade de equívocos - de uma mensagem monótona de implicações morais e rituais óbvias. Os fundos invariavelmente negros dos quadros de Caravaggio, o chiaroscuro que coloca as figuras humanas em relevo enfatiza expressões, movimentos, isola a beleza, a fealdade, o terror, ou a ternura de certos momentos. O modo como uma perna ou um braço é flectido devolve certeza, angústia, desconforto, dor, sensualidade, divertimento. Nas Sete Obras de Misericórdia dois anjos entrelaçam-se ao alto para sustentar a Virgem e o Menino, mas nós vemos apenas a sua queda eminente, a sua forma de precipitação que instaura o desequilíbrio, sublinha o caos em que actos de misericórdia afinal se desenrolam. Quase que não parece haver uma reconciliação possível entre tudo o que este quadro tenta representar. Uma unidade. O que é expressividade? O olhar sobre determinada coisa que pudesse corrigir uma falha? Emendar, ao comunicar-se, o golpe fundo e angustiante de uma queda a toda a velocidade em direcção ao nada? Nós hoje não chamaríamos a isso misericórdia, mas sabemos que a luz recairia ainda sobre as costas nuas da figura no canto inferior esquerdo, sobre a qual é lançado um manto. Não o que é a expressividade, então. Mas antes a expressividade das figuras neste quadro de Caravaggio encontra a falha no olhar do observador, o eco de qualquer coisa que fazia falta. Se a arte contém algo que salva é algo de temporário e intrinsecamente utilitário, é o que este quadro parece sugerir. A bondade enquanto conceito abstracto, enquanto alegoria, são afinal alguns gestos praticados continuamente.

O caos de Caravaggio depende do nosso silêncio. O que acontece entre o momento de olhar e entender é algo no mesmo comprimento de onda de lançar um fósforo à escuridão. Antes de este se extinguir, a profundidade do que acontece ilumina um continente, mas não dura, o mundo continua lá fora. Não dura mas fica connosco, estas linhas rabiscadas à pressa tentam afinal dar conta da vertigem dessa viagem. O que é ao certo isso? Uma imagem ficar muito tempo connosco? Acender-se inesperadamente muitos anos depois, noutro contexto, o seu rasto luminoso unindo um ponto no passado a outro no presente, dando-nos a ilusão, sem neutralidade nenhuma afinal, de que há alguma coerência para esta coisa que sou eu. Enquanto levantamos a cabeça, antes de sairmos de Pio Monte della Misericordia, lembramo-nos de uns versos de Geoffrey Hill que podiam acompanhar este quadro: Consensual angel spinning this word’s thread/ he descends/ and light-sensitive darkness/ follows him down (de Psalms of Assize).


[1] “Only certain details of the circumstances surrounding the bloody quarrel can be reconstructed from criminal records. It involved four opponents on both sides and appears to have erupted during a pallacorda match, a ball game not unlike tennis. But this simply turned into an occasion to settle outstanding scores... Not insignificant was the fact that the artist and his adversary had both wooed the courtesan Fillide Melandroni.” Sebastian Schutze, Caravaggio. The Complete Works. (Taschen, 2015, 166).

Adam Zagajewski, "Vocês são os meus irmãos mudos" 

Tradução de João Ferrão e Anna Kuśmierczyk

Vocês são os meus irmãos mudos, 
os mortos. 
Jamais vos esquecerei. 

Em velhas cartas encontro traços da vossa escrita, 
que trepam até ao topo da página
como um caracol a subir o muro de um hospital psiquiátrico. 

Os vossos telefones e moradas acampam continuamente
nos meus cadernos, esperam, dormitam. 

Ontem estive em Paris, vi centenas de turistas
cansados e gelados. Pensei, são como
vocês, não podem encontrar um lugar, circulam inquietos. 

E todavia, pareceria que isto é tão fácil, viver. 
Basta um punhado de terra, um navio, um ninho, uma prisão, 
um pequeno fôlego, algumas gotas de sangue e saudade. 

Vocês são os meus mestres, 
os mortos. 
Não se esqueçam de mim. 

Nota de leitura (10)

Apollo

Contemplo teu rosto
como um astronauta

que pisou a lua
e por uma noite

de Agosto, sentado
no umbral da casa

(trinta anos depois
dos únicos, poucos,

verdadeiros dias
da vida que teve)

levanta a cabeça
para olhar o céu

e pensa consigo:
Oh, eu estive lá.

José António Almeida
A Mãe de Todas as Histórias
Lisboa: Averno, 2008, p. 49

A universalidade que aqui tenho vindo a discutir e defender em relação à forma poética (porque uma coisa é a forma poética e outra a Poesia), sei que é frágil e facilmente rebatida. No entanto, volto a ela com o poema acima reproduzido. Para mim é um dos mais belos poemas de amor escritos nos últimos vinte anos. Mas também é certo que não li todos os poemas de amor que se escreveram nos últimos vinte anos.
E será um poema de amor aqui e em qualquer parte deste nosso mundo. O homoerotismo presente só o é devido ao título que o poeta escolheu para o poema. Se retirarmos o título ao poema, temos, sem qualquer sombra de dúvida, um poema de amor. E quando aqui falamos de amor, falamos de Amor. Porque só a falta de Amor é contra-natura. Tudo o resto, que alguns possam vir alegar, é retórica populista e demagógica.