Promessa de futuro

 Paul Klee,  Kömedie  (pormenor), 1921

Paul Klee, Kömedie (pormenor), 1921

Nos comboios lisboetas fala-se pouco, a não ser quando estudantes em grupo abafam com tagarelice o futuro que não vislumbram. Mas sexta-feira um par de utentes conversava sem constrangimentos especiais sobre o estado da nação.

A páginas tantas (expressão da infância), a mais faladora disse: “Preciso de um desafio ao nível da minha ambição”. Não sei a que se referia (o resto da conversa fez pouco sentido), mas a frase encantou-me, como se fosse o leitmotiv justo para ao mesmo tempo descrever os “tempos sombrios” em que vivemos e projectar uma promessa de futuro.

Na verdade, falta-nos um desafio que funcione como uma faísca para despertar novas ambições de vida, de vida afirmativa, de vida sem medos. Parece que este país – e nós, todos nós, somos o país –, preso no ciclo de um niilismo podre, só nos pede para cairmos sem nos aleijarmos muito, nem encenarmos um alarido histriónico de civilizações periféricas, almofadados com lamentos e bodes expiatórios evanescentes (que é feito dos ódios teológicos contra o “Capital”, “Judeus”, “América”, “Patronato”, “Ricos”...?). Pedem-nos que sejamos cidadãos ingénuos, mecânicos e fatalistas, não passando nunca a acção de mera reacção. E assim vamos incorporando imensas negatividades como fado de estarmos vivos.

Não sei para onde vamos nem o que nos fará levantar a cabeça e voltar a rir como a “Criança” de Assim Falava Zaratustra. Estamos numa penumbra infinita e numa ambivalência fundamental. Mas às vezes o “que salva” está nos gestos e nas palavras mais banais, basta purificá-los com a generosidade do que se quer alcançar. Não é preciso continuar a comprar as coisas supérfluas que nos habituamos, ou que nos habituaram, a desejar quase acima da própria vida. Só precisamos de adoptar esta crise nas alturas da nossa coragem, coragem da liberdade antes de mais nada, que é maior do que muito do dinheiro que deixámos de ganhar. Mesmo se, como diz Sloterdijk, “O grande número recusará sempre, em nome do pão, a liberdade que lhe é oferecida.” (Crítica da Razão Cínica).

Sejamos insolentemente livres, é este o desafio que me faço e vos faço, tracemos novas linhas de vida sem pedir licença tanto aos profissionais do protesto como à censura da afirmação e da felicidade. Saibamos construir a nossa promessa de futuro.