A ordem

 Voula Papaioannou, Retrato de Rapariga, Atenas 1945

Voula Papaioannou, Retrato de Rapariga, Atenas 1945

 

‘I am far from being a master,’ he says. ‘There is a crack running through me.
What can one do with a cracked bell? A cracked bell cannot be mended.’ 

J. M. Coetzee, The Master of Petersburg

 

No calor húmido e obscuro a mulher vê-se despromovida a uma silhueta com uma precisão de gestos. Mas a precisão é só mais um acidente no anonimato dos gestos quotidianos. Uma coisa que com a prática, como um reflexo, acabou por cair no seu lugar. No intervalo estreito com o prédio ao lado, fumos misturam-se com fumos e cheiros com cheiros. A partir de uma dada temperatura o limite do corpo muda. Começa a diluir-se lentamente. Às vezes a vizinha grita para o lado de cá. Elas não se entendem, as mulheres, ouvem-se mal na surdez abafada de preparar a comida (pelo ritual lembrar-se de si, como foi antes, a distância entre isto e aquilo), mas riem-se com boa vontade e fingem que se percebem. Ele na sala descruza as pernas, pousa o jornal no braço do sofá, senta-se no chão. De que se está ela a rir? Para lá das cortinas de pano naquela porta o mundo não é inteiramente legível.
A geografia da casa, com as suas leis discretas, separa-os a cada dia. A cada dia, um pouco mais de distância soma-se ao espaço seguinte. Tranquilamente arrumado no seu papel, ele acende um cigarro, estica-se para o cinzeiro pousado na mesinha. Há um barulho qualquer vindo de dentro. Há sempre uma zona inteira de sons que ele não entende inteiramente. Ela volta do trabalho e sons acendem-se e apagam-se. Às vezes um estrondo. Um som mais forte. Como uma queixa. Este barulho miudinho, negócios domésticos. Agora como um barulho de chuva a cair.
Uma força de água a martelar na pedra. Coisas fora do controlo da sua própria força, uma zona de medo. Um corpo insinuou-se pelo torço, no beco ele vê só uma parte, vê o pescoço mas não a cara e sem querer passa raspando-o pelo tronco, a água bate-lhe no capacete como uma pancada e escorre-lhe pelo queixo, ele curva a cabeça à procura de prender a bicicleta com a corrente, as luzes apagam-se, tudo é atirado para sombra, uma luz tímida, intermitente, acende-se ao fundo. Ele não consegue distinguir nada, perceber a geografia da rua, se está perto da saída ou a caminhar de novo para dentro, torna a tropeçar no outro corpo e depois nos próprios sapatos. Alguém o segura contra a parede. Pela cintura. A pressão que é exercida não é entendida de imediato. Ele pensa, não vai acontecer nada.
Como escavar uma impressão ou se estivesse a tentar perceber. Tacteia-lhe a cara, o tronco, o sexo. A mão dele sobe até à altura do rosto. Ele está a desaparecer depressa, como o seu próprio limite, ainda agora. Ia seguir o seu caminho mas vai diluir-se. As mãos agarram-lhe os braços com violência, fazem peso. A outra cara é paralela à dele. Ele pensa, o mal. Mas não é bem isso. Uma cara, os olhos piscam no escuro, na intermitência as pupilas dilatam-se. É tão humano como ele. Puxa-a de volta com todo o peso, fazendo-a baixar os braços. Tacteia-lhe desajeitadamente o nariz, como um cego, procura a curva da orelha. Pressiona-a com força e é atirado de volta, com uma força quase igual.
Por um instante, a quantidade necessária de igualdade concentra-se nas poças de água. Os olhos perscrutam o escuro como uma cara à procura do rigor da sua expressão normal. Se um deles chegar a falar a situação desaparece. A normalidade entra por esse outro nível de escuridão e o que agora está a acontecer no seu lugar será substituído, atirado de novo para dentro do escuro, como roupa suja para um cesto junto à máquina de lavar, na cozinha.