A ÚLTIMA FRÁGIL PÁTINA DE REBELIÃO CAIU!

Numa carta escrita a Jonathan Franzen David Foster Wallace escreve: “The last thin patina of rebelliousness has fallen off. I am frightfully and thoroughly conventional.” Esta frase veio-me à memória numa altura em que me ocorreu a possibilidade de que nunca mais voltaria a entreter quaisquer pensamentos que envolvessem apartamentos sobre cafés em Casablanca, com ligações obscuras a Paris, a gabardine e o cigarro de Rick Blaine e as instruções de Ilsa Lund para Sam: tocar a mesma música outra vez. Isto serve para dizer, que, ainda que nestas circunstâncias não me seja possível proferir um here’s looking at you, kid no tom certo, com um sentido de estilo que Humphrey Bogart aprovaria, o que eu reconheço no momento em que as engrenagens das minhas circunstâncias em particular, este fim de tarde, neste ponto em que quatro ruas se encontram, em que as engrenagens complicadas do dia desaceleram e são forçadas a parar, gente que abandona escritórios, bibliotecas oficinas, o estrondo da porta do café nas minhas costas, o ar incomodado do barista, que eu tenha pretensões a ocupar este café depois das 19:00, hora a que ele tão respeitavelmente, tão familiarmente, fecha, tudo isto é uma outra versão ainda de the same old story, para o que aqui serve o meu argumento em particular, o facto de que reconheço agora, consigo ver mais nitidamente, aquele fio de lã que não é frágil e que liga o sentido de quem sou a um sentimento de revolta. A minha revolta é vital. Por exemplo, quando eu descer a rua, e parar para olhar na montra da OxFam onde vai estar uma cópia em segunda mão do primeiro volume do Quarteto de Alexandria, revolta, uma medida de raiva triste menos o ressabiar-me, é o que me há-de ocorrer quando me confrontar com o pensamento de que não tornarei a ler Justine pela primeira vez, e que, quando eu ler Justine pela segunda vez, eu serei diferente, a cidade que me rodeia será diferente, a maneira como se faz tarde, as circunstâncias.

 Lugar onde quatro ruas se encontram.

Lugar onde quatro ruas se encontram.

    Quanto mais tempo passamos vivos, mais revolta é preciso sentir. A sua função é preserva-nos. E aqui podíamos, claro, juntar o caveat de Montaigne sobre a cólera, a irmã da revolta. Ao recordar o que Aristoteles diz sobre o assunto (que a cólera serve a virtude e a coragem como uma arma), Montaigne diz-nos que os que discordam disto tendem a afirmar que a cólera é todo outro género de arma: enquanto normalmente somos nós a manipulá-las, a cólera manobra-nos a nós. Montaigne é ágil, como um gato. Um sentimento de revolta é preciso, actua sobre o luto, a tristeza, a ansiedade, a angústia, a depressão, como uma fina película de ironia com força suficiente para nos separar de nós mesmos na porção necessária, isto é, quando te perguntares o que existe entre ti e a aniquilação pode bem ser o sentimento de revolta que sentes ao reconheceres a inadequação entre estas circunstâncias em particular e, por exemplo, o mundo de Casablanca. O mundo de Casablanca não existe aqui, o tempo e o espaço mental da minha liberdade para revisitar mentalmente duas ou três falas que sei de cor, e no entanto, posso apreciar a ironia de pensar em Casablanca aqui e agora. Isto é revolta. E com isso vem a resistência, apenas a quantidade necessária de resistência para que estar vivo possa seguir o seu curso. E agora que o teu pulso acelerou, e que sei que é inconveniente mostrar fraqueza (tudo isto repousa à superfície), sabes para que serve sentir revolta e é melhor do que Montaigne, manipulador e manipulado. 

    O mundo ainda não deu a volta para fazer tanto sentido quanto em Casablanca, podemos levar vários anos até percorrer toda a distância necessária entre o ponto A e o ponto B, isto é, o tempo e o espaço e tudo o que ainda tens para viver entre ti e a aniquilação, aquilo que estás a ver agora e que golpeia a tua atenção não da maneira como o pequeno esteta de trazer por casa que há em ti tinha antecipado (com a suavidade da descrição de Vergílio ao aportar em Brindisi no princípio de A Morte de Vergílio), mas em sucessivas ondas de dor que fazem um trabalho de machado a partir de dentro, volteando no interior do esterno, no interior do crânio. Agora que reduziste tudo ao essencial tens de reconhecer que o essencial é ainda demasiado: uma questão de coração e cabeça.

  Justine  na montra.

Justine na montra.

    Tony Morrison diz, numa entrevista dada à BBC World Service Book Club, acerca do processo de escrever Beloved, que quando se está a escrever you don’t go over your emotions, you go through them. Nos seus ensaios, Montaigne volta ao tema da cólera, que nem sempre está ligada a um sentido de revolta, e contradiz-se. É preciso conter a nossa revolta, diz o filósofo algures. E de novo, algumas páginas mais tarde, às vezes o melhor é dar espaço às nossas emoções, deixá-las seguir o seu curso. Mas não é disto que eu estou a falar aqui. Eu estou a falar da necessidade de um sentimento íntimo, privado, de revolta, que é preciso cultivar instintivamente, para aprender a resistir à erosão dos dias. Neste sentido, a revolta de que estou a falar nada tem que ver com a incapacidade sofrida pelo respeitável Monsieur de Montaigne de se conter e não castigar fisicamente os criados quando estes falhavam em algum aspecto do seu trabalho. Eu estou falar dessa espécie de revolta que pode ou não ter um pé na cólera, e que serve para preservar as coisas que realmente me importam, o meu amor, a minha criatividade, a habilidade de sentir alguma ternura pelo mundo, sem a qual não é possível experimentar uma certa forma de felicidade. Going through them.