Dante e coelhos: Cassandra Jordão lê a Divina Comédia

 Dante, avistado aqui a relaxar no cenário da composição da Comédia.

Dante, avistado aqui a relaxar no cenário da composição da Comédia.

Após muita insistência da nossa assistente estagiária (no último mês entendemos por bem promover Cassandra Jordão de estagiária a assistente estagiária, após tensas negociações em que a jornalista ameaçou trocar o estágio que lhe oferecemos por um estágio no Correio da Manhã – acordámos pagar-lhe uma módica soma mensal destinada a “ajudas de custo”, um pecúlio que a referida estagiária gastará provavelmente em tatuagens, uma vez que aos 27 anos de idade mantém residência em casa dos pais), resolvemos conceder-lhe uma coluna mensal. Trata-se de um espaço dedicado à crítica literária, em que grandes clássicos e obras menores serão alvo da caneta implacável da nossa jornalista de serviço. Aqui fica a primeira escolha, a Divina Comédia de Dante Alighieri.

            NB: A escolha do título para esta primeira coluna é da exclusiva responsabilidade da sua autora. Após acesa discussão com o departamento editorial da Enfermaria 6, a autora justifica a sua opção no espírito Warholiano de praticar a sua arte, a arte do crítico, justamente na intercepção entre arte e quotidiano.

 

Dante Alighieri

Classificação: 3 (três) *** (estrelas)

 

A Divina Comédia de Dante Alighieri é uma obra que, 696 anos após a sua publicação, se continua a ler simultaneamente como uma pedrada num charco e um murro no estômago. Perde apenas por não ser um segredo muito bem guardado. Algumas limitações têm no entanto de ser apontadas ao génio florentino, e sendo que nenhum dos críticos meus antepassados, e quiçá contemporâneos, parece ter apreciado as devidas limitações da obra, é minha tarefa aqui considerar este clássico intemporal a partir de uma perspectiva que me coloca numa posição muito particular, a do crítico que sabe estar a escrever para leitores que leem livros e crítica apenas com um interesse em obter conselhos de escrita criativa.

Deste ponto de vista, a primeira falha (na lógica de vocabulário autoritário, perdão, autorizado, de que disponho enquanto crítica, o termo não é outro) a apontar é a de que se trata de uma obra demasiado longa, que teria ganhado bastante com uma mão editorial mais pesada. Uma pessoa podia perguntar-se se era mesmo necessário incluir o Purgatório. É certo que toda uma secção de cenas imortais na história da literatura do Ocidente desapareceria, mas a leitura seria muito mais rápida, a obra ganharia ritmo sem aquela longa pausa no meio, e resultaria bem menos maçuda.

Outra nota negativa é que o adjectivo abunda, e nem sempre é necessário. Por outro lado, perguntamo-nos se seria preciso nomear tanto contemporâneo, para nada dizer da opção de gosto duvidoso do autor florentino em colocar gente bastante respeitável (cardeais, papas, governantes, poetas) em círculos menos respeitáveis da geografia do poema. Que Nicolau III, que à data da composição do texto já se encontrava morto, pudesse ser encontrado no círculo dos condenados por venderem favores divinos, tudo certo, agora dar um cameo a Bonifácio VIII no Inferno no ano de 1300 (o papa só morre em 1303) é um imperdoável erro de cronologia, que claramente só pode ser interpretado não através do ângulo da proverbial animosidade de Dante contra o papa, uma explicação que críticos anteriores entenderam como legítima, mas inevitavelmente como indício de um trabalho de pesquisa pouco minucioso da parte do génio de Florença.

Outro apontamento menos positivo acerca da nossa experiência de leitura deste clássico vai para a tradução. Não tendo lido o original, temos no entanto de apontar o facto de que encontrámos várias vírgulas fora do lugar. Ora, toda a gente sabe que o mais importante num texto é o ritmo, e o ritmo que se quer hoje em dia é o da rápida batida techno. Estamos em crer que esta tradução teria muito a ganhar com mais vírgulas. A obra imortal de Dante de facto peca por demasiado longa, e lenta em certas partes. O leitor tem o direito de se perguntar: era mesmo necessário dar a Ugolino della Gherardesca aquele discurso tão longo que, como tantos outros (longos) encontros do poeta nos diferentes círculos só atrapalham o enredo principal (chegar ao Paraíso, encontrar a miúda) e quebram o ritmo da narrativa?

Voltando à tradução. Com o rigor que nos é característico, googlámos excertos do texto original de Dante, e, comparando um excerto encontrado ao calhas na Wikipedia com um excerto da tradução, descobrimos três vírgulas fora do lugar. Isto permite-nos afirmar com a segurança que a autoridade da crítica nos confere que a tradução do consagrado poeta australiano, Clive James, há décadas estudante de Dante, é de péssima qualidade.

Má nota também para o princípio da obra: para leitores menos atentos, Dante começa pelo meio, e nós preferíamos saber o que se passa logo desde o princípio. O pseudo-golpe de angst existencial de Dante não é suficiente para convencer o leitor. Afirmar que se encontrava no meio do caminho da vida na verdade diz-nos muito pouco acerca da vida deste irrequieto autor florentino até ao momento de começar a escrever a épica, e tivemos de emparelhar a leitura da Comédia com a leitura da Vita Nuova, obra de juventude, povoada de alusões a outros poetas amigos de Dante – note-se que são até mencionados uns quantos que tornam depois a aparecer mais tarde na Comédia e é bastante difícil entender de onde eles vieram e como é que Dante estava relacionado com eles sem ter lido a Vita Nuova, para nada dizer do que acontece ao nosso entendimento da parte mais hot da Comédia, o romance com Beatriz, sem ter lido este outro livrinho. Para uma obra já tão longa, esperar ainda que o leitor tenha de ler a obra anterior para perceber melhor o que se está a passar é simplesmente um mau golpe de marketing. Nos tempos que correm, a Wikipedia pode bem matar estes dois coelhos de uma cajadada só. É uma nota que gostaria de deixar à consideração dos departamentos de marketing das editoras que se dedicam a publicar Dante.

Por outro lado, tanta repetição de personagens de obra para obra é ilustrativa das limitações da inexistência de um equivalente da revista Caras ou Lux na Florença de finais do séc. XIII/ princípios do séc. XIV, não deixando aos poetas muito mais escolha do que ocuparem-se de matéria que de outro modo, perguntamo-nos nós, poderia ter povoado a cultura pop da época e não a grande poesia. E não nos alongaremos aqui sobre a paixão de Dante pela relação entre poesia e crónica social ter levado à inclusão de personagens com nomes de duvidoso gosto poético: Barbarrossa; Bonagiunta; Buonconte; Buonanotte. Para mencionar apenas personagens na letra B.

Falando de Dante e matar coelhos de uma cajadada só, outro aspecto em que a obra perde pontos é justamente na questão do romance com Beatriz. À parte alguns encontros fugazes em Florença, este romance como linha do enredo resulta pouco convincente. Beatriz é uma mulher que Dante vê ao longe não mais do que uma mão cheia de vezes, se tanto, para mais casada com outra pessoa. O próprio Dante, tanto quanto apurámos, era, também ele, casado com outra pessoa.

Desta forma, é obrigação do crítico, tanto quanto do avisado leitor, perguntar-se se a obsessão do autor deve ser entendida como mais uma peça do enquadramento filosófico de inspiração tomista que, quer Dante levar-nos a crer, é o da Comédia, do amor enquanto máxima aventura espiritual, ou, para leitores mais avisados, os mesmos que, estamos em crer, apreciariam uma Comédia mais curta, um stalker a atirar para o creepy.

Com um texto que gera tantas dúvidas, três estrelas parece-nos uma nota adequada. Não mais, Musa. Não mais.