Primavera Fria - Haikus


Como o amor 
as nuvens —
certeza de precipitação. 

Que sabem as flores 
do vento 
de tempestade? 

Enquanto se espera 
pelo verão 
secam as flores. 

Num canto escuro 
secam as batatas —
batateiras em flor. 

Cheira a madeira 
ferro e terra —
meu esperma imberbe. 

Vazio o regador 
espera 
os dias secos. 

Cresce apenas o silêncio 
e o vazio dos pipos —
aldeia. 

O verde cheiro 
da infância —
chove. 

Torre de Dona Chama, Abril 2019

Seis Juncos


1.

Na relva o gato
descansa
os anos futuros.

Embalado pelo vento
balança vazio
o baloiço enferrujado.

Dois garotos
na água - 
eu nenhum.

Um mosquito
pica-me - 
obrigado amigo.

Esta mesa onde escrevo
tive-a já
em sonhos.

Logo a água esquece
os barcos
que passaram.

Nunca me deixou ficar
a água que
pelo corpo passou.

Tanta carne
familiar
onde não entrei.

Uma mesa à janela
virada para o mar - 
um tesouro.

Este céu que vejo
o mesmo 
onde adormecemos longe.

Quase se revela
a Lua
e já seca o esperma.

A pequena bandeira
tão estrangeira
como as outras.

Indiferentes os mosquitos
voam por entre
as gotas de chuva.

Tantas voltas
para se acabar
na mesma escuridão.

Kaskinen, Agosto 2018

2.

A caminho da montanha
sempre 
o verde.

Não esperes a borboleta
enquanto a vaca
pasta.

Pela estrada fora
sempre
enquanto há pernas.

Ignorando as nuvens
as vacas
pastam.

Desconhecendo distâncias
o abraço eterno
das montanhas.

Debaixo da macieira
a sombra vazia
espera.

Sob a macieira
espera
a sombra.

Cheira a estrume - 
primeira
felicidade.

Cheira a estrume
a infância
tão verde.

Música de incontáveis
chocalhos
na montanha.

Mil aldeias
pequeninas - 
tocam os sinos.

Que jovem
a eternidade
dos homens.

No pequeno ribeiro
corre a vida
toda.

Esta partida
para lado nenhum -
vida.

Sem a memória
dos olhos
as pedras mudas.

Suíça, Agosto 2018

3.

O mar apaga
os corações
desenhados na areia.

Escritas na areia
as promessas de amor
que o mar apaga.

O azul que não coube
nos teus olhos - 
o mar.

Quando pequeno
as cidades
como as ondas.

Grão de areia
um aborrecimento
como o tempo.

Este grão de areia
toda a minha
vida.

Numa mão cheia
de areia
toda a humanidade.

Também o pôr do sol
um punhado
de areia.

Moledo/Vila Praia de Âncora, Agosto 2018

4.

Voam as libélulas
a hipocrisia
afoga-se no vinho.

Nesta casa pequena
podia haver
mais um copo.

Sempre difícil partir
quando se chega
tão pouco.

Não tentes apagar
o que não podes
esquecer.

O poeta escreve
na máquina - 
estão a fazer pipocas.

Canta um galo
e regresso
verdadeiramente.

Ainda os lagares
tão vazios
e as moscas desesperadas.

Ao Sol da manhã
não precisa de açúcar
o café.

O deslumbramento 
dos tolos 
fascina-me.

Quem cortará
o presunto - 
vespa no dedo.

Aberta a melancia
sobre a mesa - 
quem a esqueceu?

Longe, tudo
sempre - 
a vontade.

Pastam as mulas
o Sol
que a terra guarda.

Tantas portas
se abriram 
pela fome.

Enquanto parto
três juncos
o rio passa.

A vespa pica
até as mãos
mais inocentes.

Em frente ao rio
de joelhos
nasce um haiku.

Passa o rio
com ele
nós também.

Quantas vezes
só o exosqueleto
parte.

Cidões, Agosto 2018

5.

Só a fome
não esquece
os amigos.

Sempre do mesmo tamanho
aos olhos
de uma mãe.

Cantam os grilos - 
quantos anos
perdidos.

Noite de Lua Cheia -
tudo o perdido
o que somos.

Houvesse silêncio
para escutar
os grilos.

Basta o luar
para iluminar
este caminho.

Não temas
o esquecimento
pouca a máquina.

Não percas tempo
comigo - 
ouve os grilos.

Nos grilos
a voz
da eternidade.

Sê constante
como o luar
e os grilos.

No canto dum grilo
não cabe
o orgulho.

Resiste-se a tudo
menos
à má vontade.

Chove sobre
a terra quente -
renascer.

Cai a chuva
sobre a terra quente -
pescoço de mulher.

A tua pele dourada
gotas de chuva
sobre terra quente.

Na língua a tua pele
dourada -
chuva de verão.

Mijar à chuva
acrescentar nada
ao resto.

No rumor da brisa
nos pinheiros
a infância ainda.

Alguém racha lenha
na canícula - 
inverno tão longe.

A minha fé
pelas rochas
toscas.

Na pedra intocada
pelo homem
a minha devoção.

Torre de Dona Chama, Agosto 2018

6.

Que familiar cheiro
o daquele corpo
estranho.

Mais um ano
acabado - 
fim de verão

Turku, Agosto 2018

Depois de Bashô

1.

Cobras esventradas
na estrada ― chegou
o Verão

 

2.

A voz de Kerouac
o gato e uma bola de papel:
a casa menos vazia

 

3.

Trinta alunos a olhar
pela janela
o Outono lá fora

 

4.

O gato
tapa o focinho —
Inverno

 

5.

O prédio
em silêncio: hora de ponta
nos subúrbios

 

6.

No chão da cozinha:
a Lua — prato
donde come o gato

 

7.

Relógio:
água a pingar da
torneira

 

8.

Roupa no estendal
da cozinha —
chuva lá fora

 

9.

Na cadeira
o gato observa
cavalos a relinchar

 

10.

Cabeça entre
as mãos — teste
de Matemática

 

11.

Análise sintáctica:
sujeito nulo —
poeta

 

12.

O meu
Monte Fuji: Fraga
da Cruz

 

13.

Durante as aulas
alunos pelos corredores —
Psiiiiiiiiiiiiu!

 

14.

Da sala sete
o pinheiro do pátio
parece um bonsai

Agosto

I – Torre de Dona Chama

O gato abandonado
atravessa o restolho
do fim da tarde.

A passarada canta
ao anoitecer –
são os vizinhos que restam.

O tractor regressa –
leva a fome
que contra o calor lutou.

Noite quente de Verão –
as rãs acordam
do seu sono molhado.

Os dedos soltam a corda –
naquele instante
nasce um poema.

Já no ar leva traçado
o seu lugar no alvo –
a flecha.

O rio passa
quer a cigarra
cante ou cale.

O Sol põe-se,
as cobras procuram
a companhia das sombras.

Pinheiro ao Sol –
do fundo do vale
olha-se a distância.

No cimo da fraga
acumulam-se
as fezes do gineto.

Quantas folhas caíram hoje,
não interessa –
o rio leva-as todas.

Reflectido no rio
o poeta vê-se mais nítido
que no poema.

Portas fechadas –
o Sol ainda beija
com a língua afiada.

Por cima da fraga dura
passa leve
a borboleta.

Debaixo do carrasco
eu também
onde as folhas caíram.

No crepúsculo do Verão
os grilos acendem
a noite.

[1]No carro do padre
cagaram
as pombas.

É quando o Sol
se põe que os juncos
mais crescem.

no mantra da noite quente
balança o passado
e o presente.

As pedras ainda quentes –
há anos que ela
partiu.

Os escorpiões em álcool
ainda duram –
quantos amores esquecidos.

O açúcar seca no fundo
da chávena –
o hálito a café permanece.

Noites quentes
de ausência –
confabulação.

A Lua segue
as gotas púbicas
na carne quente.

Caem-lhe dos bolsos
gordas larvas –
ninguém irá comer.

A macieira solitária
no lameiro verde
tem a sombra mais bela.

A brutalidade passeia
vestida de incêndio
na canícula.

Contra o rigor da natureza
e a crueldade do homem –
desabrocha a flor.

Quanto menos se tem
menos se
cala.

Ignoram as moscas
que o vidro frio
as espera na janela.

Ainda hoje procuro
o Sebastião Alba
longe do cemitério.

Não há cegueira
que trave
a visão da mão.

Escreve-se melhor
à sombra
dos teus beijos.

 

II- Figueira da Foz

Só as ondas
insistem
no regresso.

Estamos à distância
de um sorriso
ou de uma palavra?

Não é a partida
da andorinha
que traz o Outono.

Eles procuram ser
os sonhos
uns dos outros.

 

III- Porto

Acende-se um cigarro
e sopra-se
no fumo.

À beira do rio
outra vez
como nunca antes.

Entre séculos de fome
esperam inquietos
os fartos.

A loucura alimenta-se
de gritos
e solidão.

Nem o espelho
me reconhece
a desilusão.

A cerveja aquece –
mais rápido
a saudade aparece.

A gota de Porto
caiu-me na pele –
o teu suor.

Os turistas
na minha terra
como eu.

Instala-se o cansaço
como um
pôr-do-sol na montanha.

Um porto entre
cigarros –
o sabor da tua língua.

O rio corre
quer haja lágrimas
quer não.

Dói o luar
Desta noite –
Quebra-se um prato.

Babel –
é aqui que me sinto
em casa.

Agosto 2016


[1] Versão do haiku de Yosa Buson: “Sobre a imagem santa/defecou/uma andorinha”