Uma Náusea no Elevador 

Houve tempos em que a mesa da cozinha fazia mais sentido 

E os versos surgiam enquanto na janela em frente o Sol acendia 

Os montes em despedida, preparando-se a geada para abrir a manhã, 

Sabia bem acordar apesar do aparente vazio dos dias, 

Mas esse vazio foi-nos tornando o que hoje traímos, 

Mais um gole, porque estamos perdidos, mais um suspiro, 

Porque a mesa da cozinha longe, e aquelas mãos capazes 

De aceitar tão pouco, hoje estranhas somando nadas 

Como cartas em castelos, estamos perdidos há anos, 

Pouco sentido se encontrou no caminho depois da última 

Gota de inocência ser trocada por mais uma direção errada, 

Tomada com a sede que a carne pede ao fogo a perdição, 

As galinhas eram uma companhia segura enquanto se ouviam 

Ao longe os garotos que esperavam o último autocarro 

Que os levasse às aldeias, deus morria, tudo era certo 

Na novidade que lhes pesava, as palavras pareciam dançar 

Como chamas, as páginas ardiam na fome da alma, 

Hoje todos os mares gelaram, a profundidade é algo impossível, 

Não há mergulho que resolva o cansaço de cada inspiração, 

Levamos a solidão aos olhos, o copo aos lábios, 

As memórias ao esquecimento, porque é melhor assim, 

Esquecer aqueles muros de aldeia e as mãos sem carne 

Que um dia passaram dias inteiros a meter pedra sobre pedra, 

Para que depois o tempo e os herdeiros lhes passem por cima, 

Nada dura tanto como os sonhos, no entanto à noitinha 

Já não se teme nada que a almofada possa revelar, 

Falar com um avô morto no tanque onde te tomaram na boca, 

Numa daquelas noites de verão douradas como a palha, 

Hoje nem as letras novas onde os dedos resignados pousam, 

Fazem qualquer sentido, o Big Sur espera, continuando a afogar 

Estrelas até ao fim dos tempos, a ponte Bixby Creek será mais 

Uma daquelas mulheres que se prometeram na língua dos gatos 

Para outra vida, quando nem esta foi realmente tua, 

Depois das andorinhas em Fevereiro, foi só um somar 

De lábios desencantados e gemidos secos, que é feito do pecado, 

Quando se tem certo o ar poluído da eternidade cega, 

Que diria Torga com dois tordos à cinta, se te visse, 

Com esse ar enjoado, esses olhos de ódio desencantado pela humanidade, 

Nunca fomos postos aqui para durar muito, só durar, 

O resto cabe a cada um iludir-se à medida do nome ou da sorte, 

Temo que isto vá acabar num atraso de uma carta que não terá resposta, 

Se ao menos as portas um dia abertas ainda pudessem 

Abrir-se novamente douradas, se ao menos ainda se encontrasse beleza 

Nas folhas que caíram no outono, além da beleza da morte como única justiça 

E igualdade, este mundo de plástico engolido pelos olhos inocentes 

De todos os que nascemos, todos os que fomos completos, todos, 

A estas horas tenho a alma pintada da mesma cor envelhecida da loucura 

Daquelas paredes do Conde Ferreira, um enjoo em lençóis quentes e vazios, 

Robert Louis Stevenson na mesa de cabeceira e uma náusea no elevador. 

 

Turku 

 

15.01.2020

Chagall - l'âne musicien à saint-paul. 1975.jpg

Chagall - “L'âne musicien à saint-paul”, 1975.

Perder, imitar e prosseguir,
de rancor em rancor,
pelos nós do agora.
O medo tanto, cada vez maior.
É tão fácil perecer,
enquanto o sono, as insónias.
 
De devaneio por fome,
de gula por fantasia, cais de joelhos,
Ah a flor das árvores altas.
As pequenas grandes obras,
a engenharia,
os rastos pegajosos.
 
Os olhos caem-te no lençol
e ficas, nuvens baixas,
pelo arquivo das derrotas.
Chove.
Tantos charcos.
Incógnitas.

Charles Ray - The New Beetle, 2006.jpg

Charles Ray - The New Beetle, 2006.

[em cada novo esboço]

em cada novo esboço

um promontório.

saltamos lado a lado

o mesmo estirador comprido

os mesmos postais do Pompidou

gastos os vazios de Chillida

lápis e catálogos e revistas

que ignoram os nossos olhos baços

em cada novo desenho

um matrimónio.

a minha vida nua

os beijos da tua

como crepitar de fogueiras

raros poemas ameríndios e promessas

o verbo já encarnado

chegaste.

contigo trouxeste a simetria

de dois pelicanos sobre o peito

a alegria de duas ou três

camisas de seda floridas

raras golas amarelas

que ano após ano

me deixam sempre a dúvida:

- o verão não morre em setembro?

Eduardo Chilida - Homenagem a Braque, 1990..jpg

Eduardo Chillida - “Homenagem a Braque”, 1990.

Património

Migalhas muitas e folhas e restos
e periscas que inundam passeios
e caminhos. Palavras assim,
ao abandono, perdidas.
Que não inquietam ninguém,
excepto os doentes
que tudo sentem de modo mais vívido.
Tudo tão volátil
como os textos e imagens
que ficam pelos arquivos
digitais ou físicos, ensimesmados
nas metáforas da selva e do circo.
Isso que, para os mais velhos,
é ainda pura monocromia.
De facto, que seria dos museus
sem estes desperdícios?

Obelisco do Alto da Memória, Angra do Heroísmo. (Pormenor).