"Tira-me este ecrã da frente e"

Tira-me este ecrã da frente e
traz-me um
lápis e um papel para
traçar um risco e depois
parar
pairar
como as avós nos seus sofás
um dia inteiro
em loop
a primeira letra do nome de um amor    
vindo à baila 
a pé coxinho e já
não se lembra
só que fazia calor
ou então muito frio, depende
da geografia de que queres saber
aqui só está mesmo o naperon 
pousado ele também

pois sentada é justamente uma boa posição
para não enlouquecer
olhos em frente, passos em redor
o doutor do outro lado do ringue
ou um filme de maxilar anquilosante
uma estaca aqui plantada sou
esgrima, sono,
lago ou fogo de artifício
tudo pode ser

no fim do dia
mãos vazias
a não ser pelas cascas de batata
salvadoras no seu descascar
os pulsos rodam, a lâmina desliza
o produto do motor é rapidamente concretizado
manuseável, precioso por um segundo
pronto para a varinha mágica que o
desfará
já está, agora limpar e
fechar a gaveta
fumar um cigarro que nunca acontece
porque ontem deu na televisão uma
emissão sobre o fetiche
a atribuição do desejo a um objecto
como se fosse um recurso estilístico
dos dias e das mãos
não é batata mas ocupa
e teatraliza o espelho
o mesmo do cabelo que cresce
cresce
e sai da moldura
ocupa a sala envolvendo os habitantes
que não estão

antes:
quantas áfricas, navios
plantações de geada
chícharos, café
exóticos congos e jindungos
o terço na mão e o costume de
papelote português debaixo
da saia e nas patas dos
frangos muito chiques
quantos cinemas arejados do
modernismo tropical
e suspensórios bem penteados,
uma madeixa loira por conhecer
quantos retornos, primeiros de maios
páginas forrando o chão de paris
e cabines telefónicas semanais
quantos quilómetros e termómetros
terra revolta, luz
para que eu chegasse a esta cadeira
que é feminina
que é casual
que é o anti-tempo
que é a mãe sentadamente completa
e o congeminar de um nomadismo
paradoxal erguendo-se na bacia
que a genética me legou, com
mais ou menos ginga, inusitada,
dançante porém raíz

pois sentada é talvez uma boa posição
para enlouquecer
zoom in, zoom out
laboriosos píxeis
ou a supressão das horas que
se virmos bem é tudo o que sabemos ter
ou não sabemos
fingimos, como eu que tendo
a espacializar o tempo e a culpa
situando-me entre um pretexto e um
muro de pedra cheio de musgo
por isso não me encosto
faço figas a que a sorte
me conceda meio de
fazer jus
à fabulosa fusão biológica e
consuetudinária que aqui se deu
parece ficção isto de viver
enceno pois o necessário para
ordenar: papéis de esquisso
contas por pagar
o pai a avisar
e memórias, essas empilham-se
no lava-louças e outras vezes
não, eclipsam-se
e planos, esses pairam até me
apanharem numa esquina
e me agarrarem com
ganas de atenção
atenção às horas
não te atrases
ou pelo menos abre os olhos,
bebe um copo

é a ordem possível, digo
saltando entre as colinas de
tralha em espera
ou sentada
escavando túneis de sentido
ligando os pontos

"Em teoria subo"

Em teoria subo
a escada
deixo-te lá fora
dou início à roda limpa
dos afazeres que
centram

em concreto
alongo-me entre os
mangueirais da casa já conhecendo
os atalhos mínimos
para a sobrevivência
na natureza doméstica
o do abandono do corpo
e da supremacia das
imagens
acolhidas, projectadas

as mulheres têm
realmente uma
imaginação maior
comentou aquele amigo
quando lhe falei de
uma dissolução radial
com o cenário

não se trata disso
acho que é um caminho
estuário
de que
preciso, tacteante
antes de os ossos do pé
fincarem o chão

Autores convidados em Julho

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Inês Morão Dias 

Nasceu em Coimbra, em 1988.

É mestre em Arquitectura pela Universidade de Coimbra. Entre 2008 e 2012 escreveu regularmente e foi editora da publicação de teoria e cultura arquitectónica Revista Nu.

Viveu em Coimbra, Paris e Genebra, onde iniciou e desenvolveu o seu trabalho como arquitecta. Continua a mesma actividade no Porto, onde mora actualmente.

Tem vindo, desde uma data difícil de precisar, a escrever poemas em vários cadernos. Começa agora a dar-lhes novo lugar.

Rosa Maria Martelo

Rosa Maria Martelo é ensaísta, professora de Literatura Portuguesa e de Estudos Interartísticos na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e investigadora do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa. Estuda poéticas modernas e contemporâneas e interessam-lhe as relações de intermedialidade, particularmente os diálogos da poesia com as artes visuais e audiovisuais. Publicou os seguintes livros de poesia: A Porta de Duchamp (2009), Matéria (2014) e Siringe (2017). Entre os livros de ensaios mais recentes contam-se A Forma Informe – Leituras de Poesia (2010), O Cinema da Poesia (2012, 2ª ed., 2017) e Os Nomes da Obra – Herberto Helder ou o Poema Contínuo (2016). Co-dirige a revista Elyra (www.elyra.org).