"JUÍZO FINAL" e outros poemas
/“Os mortos saem da terra com as suas taras
bem vincadas”
- Max Jacob
Brueghel - “O triunfo da morte”, 1562, (pormenor).
«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
“Os mortos saem da terra com as suas taras
bem vincadas”
- Max Jacob
Brueghel - “O triunfo da morte”, 1562, (pormenor).
1
Agora trancado em casa
De mãos
Bem lavadas Você
Poderá tocar os contornos
Da apatia no teu rosto
2
Para vestir corretamente a
Máscara Você
Deverá permanecer em estado
De pluma
Lembra-te urgente
De teu estado
De pluma atrás Você
Das outras máscaras Você
Um espelho salpicado
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Pensas
Quem?
Pensa quem ninguém irá estercar a larga
Jardineira das prerrogativas Você
Isso Você aquilo
Diriam
Isso é
Tudo pensa
Diriam?
Quem? Uma
Maldade de pássaros desinfetados?
Vo Cê
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Talvez a febre talvez o
Silêncio seja a granja suscetível talvez
O latido na rua seja
Um grito de prazer talvez
Você
A honestidade de um raio de
Sol acelerando a poeira
Na
Folha do
Antúrio talvez a
Véspera seja a pena a
Poeira a
Debilidade é ganhar
Votos
A véspera é
A pena
5
Agora Você trancado em
Casa
De mãos bem lavadas
Você
Tu
Umas plumas
De ti
Tocando convívio
Com outras de
Ti
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A sombra da mobília entrega
Maquetes
Das garantias da cidade
Você
Esteja você à cintilação das tuas
Fianças
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A sorte assim
Passada feito
Filme que passa à tela
Da morte
Você
Uma ereção à sorte alguma
Suave neurose nenhuma
Febre à sorte
40 graus medidos
A
Mesma
Sorte
8
Apaziguamento então passa
A ser
Nuvem drástica nuvem
Presencial extremada apaixonada
Distante carecida de
Reformas carecida
De
Higiene Você se
Entrega
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Pensa
Ainda pensas
Sobre as
Prerrogativas nas jardineiras pensa
Quem um sorriso de
Vergonha um gesto anônimo
Uma semente ocasional as tintas do
Que pensas
Você
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Suceder então
De mãos bem lavadas como
Um
Paciente trancado da cura dos outros sucede aos
Pulmões rebuscados
Sucede
Que
Ainda a jardineira esteja talvez
Você a
Ereção talvez a véspera
Seja talvez
Suceder
Comeu pois Perséfone as seis sementes
porque percebeu que ao ter sido colhida pela morte
seria para sempre flor da morte naquele palácio de xisto
Ela que dantes colhia gerânios, se lambuzava em mel
ferrava-se toda a ela e às irmãs, sansânica em cabelo
tirava-lhes dos rabos nus a rir os espigões
És tão bonita e tão tontinha, respondiam-lhe elas
já não a vêem há duas semanas e nem um telefonema
não deve andar a comer nada, e se definha
Viu Perséfone a coroa da morte e comeu pois as seis sementes
porque já não se imagina na luz fúlvida a ser rainha
Agora sim, coroados de negro negros os lindos olhos
colhe vida aos mortos, colhe da morte os vivos
ama sôfrega as flúvias cinzentas do marido
(e este outra ninfa à entrada dos xistos, junto às heras)
E uma a uma as seis sementes deglutidas
puseram os olhos mais que negros negros de Perséfone
a quererem mais que cegar, olhar para dentro
TWOMBLY FALA SOBRE LEONARDO *
“Não saberão, os Homens, que é mais difícil
copiar um sorriso do que um corpo; um
Twombly do que um Rubens?”
- Raúl Milhafre
Quando subi as escadas da
National Gallery e olhei para
a minha esquerda todas as
paredes do museu ruíram.
Aos pés de Maria do Amor
da Doçura eu era outra vez
menino e não sabia quem era.
Hoje sei o que sou. Sou uma leve
pedra aos pés de São João Uma
lágrima romana nos olhos de Leda
Uma vincada linha Uma curva
num ovo de cisne. E mais do que
tudo uma mancha de sangue nas
costas de um efebo adormecido.
E. P. TWOMBLY JR COPIANDO PICASSO
“Desire is not simple or Safe”
Joshua Rivkin
Este cabelo loiro enrolando-se
sedoso no interior fino deste
lápis diz carinhosamente que sim.
Os teus olhos Thérèse inocentes
perscrutam o meu templo Absoluto
um templo recuperado de Apolo
no meio do ardente deserto.
E é aqui que tu dizes vinda
do alto “Dá-me a tua chave
da vitória” enquanto cai sobre
mim o ouro e a pena de Zeus -a que
anuncia o passado transposto.
Tão pequeninos olhos cinzelavam a
minúcia do desenho e estendiam
a captação impossível da emoção.
Quando dois astros se cruzam
numa explosão galáctica para
que serve um raio num papel?
PANDATERIA
“I’m totally unprepared so i must
compose as i singing”
- Peter Ustinov as Nero
Aquela mulher que fui já não mora aqui!
As minhas sandálias gastou-as a terra e
já não tenho outra esperança senão
aquela que sei que virá: um afiado e
seco gume de uma espada entrando
no meu macio e esguio pescoço. Não
não mais evito o meu triste destino.
Com o lenço ensanguentado da minha
pobre mãe vítima dos homens e do
poder eu Octavia dou-me por fim
vencida. Mas antes que o frio metal
me fure a garganta quero no meu
triste leito de espera praguejar
mil pragas àquele que em tempos
foi meu marido: “Que a força quente
do fogo sob a sua lira seja o raio
inevitavelmente certeiro sobre
os seus virados trinta Anos!”
TOCHA
Desespero
Arrependimento
Ternura
é tudo e é pouco o que sinto por ti.
Todo o bem que poderia ter existido
não existe. E é o não ter acontecido
que nos prende essa possibilidade
paralela daquilo que nunca aconteceu
ou acontecerá. E dada a distância da
abertura do arco solar das plantas do
meu jardim de flores a escolha foi a certa.
É na ternura deste Fim de poema que
todo e qualquer elo
entre a minha memória e a tua pele
se esgota e se apaga.
Para com ele
fazer a
tocha
do
fogo
que
se
apagou.
*Poema de “O Nardo” (2020)
Cy Twombly - “Pétalas do Fogo” (pormenor), 1989.
CORRENTES PARA A ESCRITA
Miguel ao chegar ao céu depois
de um voo a alta velocidade
pousou a espada e sentou-se no
sofá confortável do céu dizendo
para consigo que não mais iria usar
o seu poder de paródia para atacar
qualquer ser humano idiota. Não mais
iria usar a sua língua afiada porque
estava cansado de tanto pau torto.
Bastava-lhe as aulas de boxe com
Satanás às quintas-feiras. Queria ser
um anjo normal só amor paz e poesia.
Sentado no sofá com a barriga caindo
sobre a velha fivela do cinturão antigo
ligou a televisão e deu de caras e ouvidos
com mais um belo discurso sobre as altas
e inigualáveis qualidades da arte da escrita.
Essa arte eloquente de uma minoria de
senhoras e senhores na casa dos 70 e 71.
Da velocidade e dispersão todos temos
um pouco de culpa eu próprio vou do Céu
ao Inferno num segundo e tanto estou
em Jerusalém como no cu de Judas. Mas
sobre isso não há nada a fazer. Já lhe
disseram que chegamos ao ano 2020?
E como o melhor fica para o fim a pérola
foi lançada: o exercício das minorias só
deveria existir com carimbo azul cobalto.
Se Bertold Brecht estivesse na plateia
e soubesse português ficaria espantado
com tão grande petulância fascista.
Sem bigote era vê-la de mão erguida
apelando à reunião das tropas de elite
pois o inimigo estava em todos os
lados e era urgente (não o amor e a
partilha) mas a imposição da ORDEM.
No fim da palestra muito aborrecida
distribuíram-se correntes a todos os
participantes. Os mais sensatos não
aceitaram a oferta. Os idiotas Sim.
Cheira-me que Deus daqui a dias
dar-me -á mais um custoso trabalho
o de enterrar na terra suja mais um
terrível e imponente ditador de elite.
DANIEL FARIA NA FLUP
I
“Lembro-me sim como fosse hoje
ele sentado ali naquele canto com
aqueles olhos brilhantes
tinha sobre si uma espécie de aura
como se um serafim o estivesse a
guiar a sua mente”
dizia a Dr. Ana nas suas
aulas de Sintaxe.
“Era um miúdo tímido
às vezes participava na aula
notava-se uma candura nas suas
palavras como se estivessem já
imbuídas de Deus
Sempre disse que ia muito longe
tão longe como chegar a Deus
divinalmente”
dizia a Dr. Paula nas
suas aulas de Semântica.
“Notava-se uma sensibilidade outra
era um miúdo especial sempre vi nele
um especial dom para a escrita
eu fui a primeira a descobrir a sua
poesia que como bem sabemos
nos traz alegria ao lê-la”
dizia a Dr. Ilda nas suas aulas
de Noções do
sagrado
II
Sexta-feira 3 de Março. Não vejo
a hora das aulas terminarem
passo nos corredores e ninguém me vê
é como se andasse perdido pelos caminhos
do inferno com esses azulejos feios e essas
grades que mais parecem dentes afiados
de um dragão ou de uma cobra qualquer.
Cansado sento-me no banco do jardim
o mais isolado e peço a Deus a força
que hoje me falta. Talvez consiga ouvir
as minhas preces e me tire deste
antro de hipocrisia snobismo e outras
tão deselegantes palavras que sujam
o verdeiro espírito das letras.
Que me tires Deus deste inferno
onde já estou morto
onde ninguém me olha
nos olhos como vivo
mas sim como
um mero
número
de uma estatística
qualquer neste país
que dia para dia
desaprende e
ignora as
letras.
Assinado
Daniel
DECADÊNCIA & ATCHIM
Tiro atrás de tiro!
E nem a capinha da Jasmim
com bordada pintura inglesa
consegue trazer-lhe a juventude
de outrora. Pobre e perdida
criatura a Jasmim
entre então majestosas vozes.
Um espelho perfeito
do lago das rãs
de Aristófanes
Livros, filmes, ideias.