Negrilho

 

Quando o negrilho estava vivo, éramos jovens,
Aquela sombra era eterna, junho era verde e fresco,
Havia esperança nas manhãs, a vida parecia um longo início,
Como te posso explicar agora na canícula
Que ali houve uma sombra, uma companhia silenciosa,
Mas tão presente, um negrilho que entretanto secou,
Como a juventude e o futuro, e todos os amores.

 

Turku

 

07.03.2021

Esperando o Café  

Enquanto espero que a água suba e o café desça,
Releio “Lament for Bukowski”, já não é manhã,
A noite passei-a a dialogar com uma encefalopatia hepática
E uma parede, ambas queriam comprar cigarros
Às três da manhã, numa cidade fechada,
Bens essenciais, subitamente a água sobe e quando cai
No nível superior já é café, o Bukowski continua
No seu caixão “dead as hell”, também o Al Purdy,
Não me lembro do que era antes de cair,
Talvez nunca tenha sido puro, a vida também isto,
Um lamento crescente, um poema que nasce de outra dor. 

08.03.2021
Turku

 

Yosano Akiko, "Dores de Parto"

Hoje estou doente,
doente no meu corpo,
de olhos abertos, emudecida,
estou deitada na cama de parto.

Porque é que eu,
tão acostumada à proximidade da morte,
da dor, do sangue, do grito,
agora tremo incontrolavelmente de temor?

Um jovem e agradável médico tentou reconfortar-me,
e falou sobre a alegria de dar à luz.
Uma vez que eu sei mais do que ele sobre esta matéria,
de que me serve o seu tagarelar?

Conhecimento não é realidade.
A experiência pertence ao passado
Que se calem então os que carecem de urgência
Que os observadores se contentem com observar. 

Eu estou sozinha,
perfeitamente, inteiramente, absolutamente entregue a mim mesma,
mordendo os meus lábios, segurando o meu corpo rígido,
servindo um fado inexorável. 

Existe apenas uma verdade.
Darei à luz uma criança,
a verdade movendo-se do meu interior para fora.
Nem bom nem mau; real, sem que haja nisto falsidade.

Com as primeiras dores de parto,
subitamente o sol empalidece.
O mundo indiferente fica estranhamente calmo.
Eu estou sozinha.
É sozinha que eu sou.

Cantiga Oitava

O apego vai ser melhor
que a solidão
quase canta assim
e assim carrega o Benjamim
e a gente vai atrás
vai atrás e acredita
a gente pisa nas mais lentas
e baixinhas sílabas
e com elas monta a mensagem
quer ficar nesses emblemas
para guardar e pelos meses
capazes de transportar
naquela rima que fica 
e desenha a cambalhota
da passagem
uma qualquer
e então sim
estilos da malta à janela
fica um bocadinho melhor
na solidão

de Cantigas da Malta à Janela [inédito, 2021]