Mark Leech, Desafectação

Tradução de Hugo Pinto Santos

Lá fora, pulsam táxis,
esferas inchadas batem
janelas encharcadas; o ar quente do bar
expulsa uma canção e põe-na a tocar,
menos poeirenta do que devia.

O tipógrafo faz uma pausa
depois coloca-te nos dentes
de um sorriso de lábios e olhos
antes que a imagem se dissolva
se torne inexpressiva.

Mark Leech, Orbis n.º132 – Primavera, 2005

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Elizabeth Garrett, Comutação

Tradução de Hugo Pinto Santos

Nessa altura, eu era mergulhadora:
em cada membro, o tumulto
e o impulso de um poema — nem o céu
me podia deter. O fresco
no rosto a arder, o ar
sobrecarregado de mistério,
cindido à minha passagem.
A graça, como dor mitigada,
pecado perdoado, chamava
este anjo obscuro até à sua sombra.
Nada há que a mente calcule
e o coração não possa desfazer:
vê — a prodigiosa janela
da água mantém-se intacta.

Elizabeth GarrettA Two Part Invention, Bloodaxe Books, 1999

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Três poemas de Paladas de Alexandria

Paladas de Alexandria
Tradução: 
Hugo Pinto Santos
A partir das traduções de Peter Jay & Tony Harrison

 

A filha do gramático,
tendo-se flexionado com um homem,
deu à luz os seus filhos — masculino,
feminino e neutro. 

Paladas de Alexandria (a partir da tradução de Peter Jay)

*

Os nomes têm declinação, os gramáticos declinam.
Vou vender estes meus malfadados livros,
o meu Píndaro, o meu Calímaco, tudo.
Sou um ‘caso’ perdido. Foi a pobreza que me aconteceu.
Doroteu despediu-me
e diz mal de mim pelas costas.

Ajuda-me, Téon, ou a única coisa entre mim e
A pobreza será um &.

Paladas de Alexandria (a partir da tradução de Tony Harrison)

*

A morte é uma dívida que todos detêm,
e se durarás para lá desta noite, quem sabe.

Aprende, então, a lição, e dá-te por grato
pelo vinho e a companhia e bares abertos toda a noite.

A vida encarreira-se para a cova a largo passo,

por isso bebe e ama, e deixa aos Fados o resto.

 

Paladas de Alexandria (a partir da tradução de Tony Harrison)

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D. J. Enright, VELHO RECENSEADOR

Tradução de Hugo Pinto Santos

Tanto tempo recenseador, conseguia falar
com ar sensato sobre quase tudo,
das belas-letras ao controlo de natalidade,
do Tantra aos toltecas.

Eram as palavras que pensavam, pensou,
e uma palavra levava a outra.
Pensavam em súplicas ao cobrador de impostos,
em poemas e legados e testamentos.

Todo o conhecimento reside nas palavras,
e as palavras residem no dicionário.
Roubar-lhe o Oxford era roubar-lhe a alma.
Dormia com o dicionário de sinónimos debaixo da almofada.

Mas não dormia.
Pensava em palavras como sono, dormitar, sesta,
hibernação, estivação, cabecear, passar pelas brasas.


D. J. Enright

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Enfim esbarrei contra a árvore outra vez

Tamarin Norwood

Tradução: Tatiana Faia
em colaboração com a autora

Enfim esbarrei contra a árvore outra vez
De cabeça.
Nada.
Nada de trepanação. 

Nada perfura, outra vez
assim os glóbulos hão-de continuar obtusos 
e uma massa de tinta sob a superfície
junta-se, pressionada contra a película.
Já estão cheios estes olhos. 

Estamos a mudar de casa demasiado cedo.
Não consigo encaixar tudo.

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