«O Peregrino» e «Aviso» de Nicanor Parra

tradução de Bruno Ministro

O PEREGRINO

Atenção, senhoras e senhores, um momento de atenção:
Virai por um instante a cabeça para este lado da república,
Esquecei por uma noite os vossos assuntos pessoais,
O prazer e a dor podem ficar à porta:
Ouve-se uma voz deste lado da república.

Atenção, senhoras e senhores! Um momento de atenção!
Uma alma que esteve engarrafada durante anos
Numa espécie de abismo sexual e intelectual
Alimentando-se escassamente pelo nariz
Deseja fazer-se ouvir por vós.
Desejo que me informe sobre alguns assuntos,
Necessito um pouco de luz, o jardim cobre-se de moscas,
Encontro-me num desastroso estado mental,
Raciocino à minha maneira;
Enquanto digo estas coisas vejo uma bicicleta apoiada num muro,
Vejo uma ponte
E um automóvel que desaparece entre os edifícios.

Vocês penteiam-se, é certo, vocês andam a pé pelos jardins,
Debaixo da pele vocês têm outra pele,
Vocês possuem um sétimo sentido
Que vos permite entrar e sair automaticamente.
Mas eu sou um criança que chama a sua mãe de trás das rochas,
Sou um peregrino que faz saltar as pedras à altura do seu nariz,
Uma árvore que suplica que a cubram de folhas.

De Poemas y Antipoemas (1954)

 

 

AVISO

É proibido rezar, espirrar
Cuspir, elogiar, ajoelhar-se
Venerar, uivar, escarrar.

Neste recinto é proibido dormir
Inocular, falar, excomungar
Harmonizar, fugir, interceptar.

É estritamente proibido correr.

É proibido fumar e fornicar.

 

De Versos de Salón (1962)

 

[ver perfil de Bruno Ministro]

Michael Symmons Roberts, Pelame

Tradução de Hugo Pinto Santos

Encontrei o pelame do mundo
pregado a uma galeria de imagens
no cubículo de um hotel reles.

É, então, por isso que os rios secam até à crosta,
por isso a erva chora a cada madrugada,
por isso o vento é cru,

a terra, uma ferida aberta,
e aqui se pendura a sua dor,
como um troféu, atrofiado para lá

de qualquer taxidermia, resumido a um tapete de lareira.
Quem o tosquiou?
Não há registo no livro de hóspedes.

Ninguém pagou, limitaram-se a embainhar a lâmina
e seguir, deixando atrás a cama
intocada, a televisão que se satisfazia a si mesma.

Talvez não houvesse faca nenhuma.
Talvez o mundo abandone a cada ano
um abrigo para que outro cresça no seu lugar.

A pele era espessa como a de uma rena,
e tão negra que emitia reflexos de azul.
Experimentei-a, é claro, mas não.


Michael Symmons Roberts, Corpus, Jonathan Cape, 2004

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César Vallejo, XIII

tradução de João Moita

Penso no teu sexo.
Simplificado o coração, penso no teu sexo,
ante a madura virilha do dia.
Apalpo o rebento da dita, está no ponto.
E morre um sentimento antigo
de degenerado siso.

Penso no teu sexo, sulco mais prolífico
e harmonioso que o ventre da sombra,
ainda que a morte conceba e germine
do próprio Deus.
Oh consciência,
penso, sim, no bruto livre
que goza onde quer, onde pode.

Oh escândalo de mel dos crepúsculos.
Oh estrondo mudo.

Odumodnortse!

 

César Vallejo, Trilce, 1922.

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Ulla Hahn, Poema

                                                                                                                              [Tradução de Juliana Brina]

É difícil explicar que um poema
não possui objeto como um navio
os recipientes desse uma estação as flores dela
Indivisível como um número primo
Ele foge do tempo como você
e acaba
quando você deixa de escrever deixa
de ler quando você não se
lembra mais do que você acabou de ser
há apenas um instante
durante um momento durante uma palavra
rampa do cais flama poeira cometa
que assobia para um bando
de pequenos pássaros cantando longe
sobre nós      tudo afastado     nada tangível
nem mesmo preto no branco
No máximo uma caixa de pintura para crianças
espirrando água     presa
nessa Terra      anfitriã
sob a língua a confiança
calma e cega     Tocada
com seringas     dura como uma
brisa como         quando se toca um chapéu
Agora e acabou       Oh
você teme o fim do medo sem fim
que tudo se acabe até que se acabe tudo
enquanto escrevermos
enquanto lermos
não pode existir nenhum Todo      desde que você escreva
desde que você leia os outros apenas
morreram para você quando você o lê
quando você é completamente lido
acomodado sob um céu
desenfreado frutos caídos maçãs de setembro
o cru e o cozido
o vazio o silenciado o excesso
mãos e pés com sapatos e sem
homem e mulher com saudades
e sem sopa com cerveja       Aqui
e agora         diga o que você quiser o que
você quer      mais do que tudo     de volta e
para sempre            Nada acaba
quando você deixa de
ser        não é?            Inexistir não existe
no poema não existe e não existe na vida
Pegue das brasas a madeira       A ninguém
agradam as cinzas        Dê premissas a nomes
Dê nomes      Pequenos abrigos fundados sobre
o abismo           Toda a música vinda
do silêncio no ouvido de Beethoven

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Michael Symmons Roberts, «Mapear o Genoma»

Tradução de Hugo Pinto Santos

O geneticista no lugar do condutor desce o gene, 
código introduzido, digamos, um descapotável, 
e fica-se à espera de curvas, 

verdadeiros testes aos pneus em apertadas 
passagens de montanha, mas em vez disso 
sempre em frente, na auto-estrada, como na pista, 

espiral desensarilhada como uma paisagem,  
um ponto de fuga. Mantém em baixo 
o pé. É um deserto finito. 

Vais depressa de mais para o ler, 
a ordem dos rochedos, os cactos, 
ervas na berma, uma névoa para ti.  

A cada hora passas pela barraca 
que passa por motel aqui:  
aprumados quartos difusos onde a televisão se liga 

para fazer companhia, o dono mede às passadas 
o parque de estacionamento deserto. E depois 
de cada motel esbarra-se numa tempestade de areia 

espessa como o nevoeiro, mas agonia. 
Restam algures despojos 
da noss evolução, genes da forma 

de voar rumo ao sul, pressentir a tormenta, 
caçar pela noite, como couraçar 
a pele numa pelagem rija, em escamas. 

São milhas de um código morto. 
Todo o deserto o tem. 
A tua missão é descobrir 

porque ainda se detém o coração humano 
quando os mergulhadores fendem as águas, 
porque nadam ainda sereias nos nossos sonhos.

Michael Symmons Roberts, Corpus, Jonathan Cape, 2004

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