Charles Bukowski, «Lança os dados»

Tradução de João Coles

se vais tentar, vai até ao
fim.
caso contrário, nem sequer comeces.

se vais tentar, vai até ao
fim.
Isto poderá significar perder namoradas,
esposas, parentes, empregos e
talvez o juízo.

vai até ao fim.
poderá significar não comer durante 3 ou 4 dias.
poderá significar enregelar num
banco de parque.
poderá significar cadeia,
poderá significar escárnio,
zombaria,
isolamento.
o isolamento é um dom,
tudo o resto é um teste à tua
resistência, do
quanto queres mesmo
fazer isso.
e tu fá-lo-ás
mal-grado a rejeição e as piores probabilidades
e será melhor do que
qualquer outra coisa
que possas imaginar.

se vais tentar,
vai até ao fim.
não há outra sensação como
esta.
e estarás a sós com os deuses
e as noites inflamar-se-ão com
o fogo.

fá-lo, fá-lo, fá-lo,
fá-lo.

até ao fim
até ao fim.

guiarás a vida directamente ao
riso perfeito. é
a única luta justa
que existe.

in The Singer, 1999


Roll the dice

if you’re going to try, go all the
way.
otherwise, don’t even start.

if you’re going to try, go all the
way.
this could mean losing girlfriends,
wives, relatives, jobs and
maybe your mind.

go all the way.
it could mean not eating for 3 or 4 days.
it could mean freezing on a
park bench.
it could mean jail,
it could mean derision,
mockery,
isolation.
isolation is the gift,
all the others are a test of your
endurance, of
how much you really want to
do it.
and you’ll do it
despite rejection and the worst odds
and it will be better than
anything else
you can imagine.

if you’re going to try,
go all the way.
there is no other feeling like
that.
you will be alone with the gods
and the nights will flame with
fire.

do it, do it, do it.
do it.

all the way
all the way.

you will ride life straight to
perfect laughter, it's
the only good fight
there is.

Charles Bukowski, "O triturar"

tradução de João Coles

de mais
de menos

demasiado gordo
demasiado magro
ou ninguém.

riso ou
lágrimas

os que odeiam
os que amam

estranhos com rostos como
a superfície de
pioneses

exércitos que percorrem
estradas de sangue
brandindo garrafas de vinho
baionetando e fodendo
virgens.

um velhote num quarto reles
com uma fotografia da M. Monroe.

há uma tão grande solidão neste mundo
que a podemos vislumbrar no movimento lerdo
dos ponteiros de um relógio

pessoas cansadas
mutiladas
seja por amor ou por falta de amor.

as pessoas não conseguem ser boas umas com as outras
cara a cara.

os ricos não são bons com os ricos

os pobres não são bons com os pobres.

nós temos medo.

o nosso sistema educativo diz-nos
que todos podemos ser
manda-chuvas vencedores.

não nos falou
da miséria
nem dos suicídios.

nem do terror de uma pessoa
contorcendo-se num lugar
sozinha

sem que lhe toquem
sem que lhe falem

regando uma planta.

as pessoas não são boas umas com as outras
as pessoas não são boas umas com as outras
as pessoas não são boas umas com as outras
as pessoas não são boas umas com as outras

presumo que nunca serão,
não lhes peço que sejam,

mas por vezes penso sobre
isso.

os rosários vão balançar
as nuvens vão nebular
e o assassino degolará a criança
como se trincasse o cone de um gelado.

de mais
de menos

demasiado gordo
demasiado magro
ou ninguém

mais são os que odeiam do que aqueles que amam.

as pessoas não são boas umas com as outras.
se porventura fossem
as nossas mortes não seriam tão tristes.

entretanto olho para raparigas jovens
caules
flores de oportunidade.

tem de haver uma maneira.

haverá decerto uma maneira que ainda não
pensámos.

quem pôs este cérebro dentro de mim?

ele chora
ele exige
ele diz que há esperança.

não dirá
“não.”

in Love is a Dog From Hell - 1977


The Crunch

too much
too little

too fat
too thin
or nobody.

laughter or
tears

haters
lovers

strangers with faces like
the backs of
thumb tacks

armies running through
streets of blood
waving wine bottles
bayoneting and fucking
virgins.

an old guy in a cheap room
with a photograph of M. Monroe.

there is a loneliness in this world so great
that you can see it in the slow movement of
the hands of a clock

people so tired
mutilated
either by love or no love.

people just are not good to each other
one on one.

the rich are not good to the rich

the poor are not good to the poor.

we are afraid.

our educational system tells us
that we can all be
big-ass winners.

it hasn't told us
about the gutters
or the suicides.

or the terror of one person
aching in one place
alone

untouched
unspoken to

watering a plant.

people are not good to each other.
people are not good to each other.
people are not good to each other.

I suppose they never will be.
I don't ask them to be.

but sometimes I think about
it.

the beads will swing
the clouds will cloud
and the killer will behead the child
like taking a bite out of an ice cream cone.

too much
too little

too fat
too thin
or nobody

more haters than lovers.

people are not good to each other.
perhaps if they were
our deaths would not be so sad.

meanwhile I look at young girls
stems
flowers of chance.

there must be a way.

surely there must be a way that we have not yet
thought of.

who put this brain inside of me?

it cries
it demands
it says that there is a chance.

it will not say
"no."

Charles Bukowski, «Oh sim», «A genialidade da multidão»

Tradução de João Coles

Oh sim

há coisas piores do que
estar sozinho
mas normalmente levamos décadas
a darmo-nos conta disso
e na maioria das vezes
quando nos damos conta
é tarde de mais
e não há nada pior
do que
tarde de mais.

De Love is a Dog From Hell


Oh yes

there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late.


A genialidade da multidão

 

há perfídia, ódio, violência e absurdidade suficientes no ser humano
médio para fornecer qualquer exército em qualquer dia

e os melhores em assassinatos são os que lhe pregam contra
e os melhores no ódio são os que pregam o amor
e os melhores na guerra finalmente são os que pregam a paz

aqueles que pregam deus precisam de deus
aqueles que pregam pela paz não têm paz
aqueles que pregam pela paz não têm amor

cuidado com os pregadores
cuidado com os sabichões
cuidado com aqueles que estão sempre a ler livros
cuidado com aqueles que ou detestam a pobreza
ou têm orgulho nela
cuidado com aqueles de fáceis louvores
pois precisam do louvor de volta
cuidado com aqueles de rápida censura
têm medo daquilo que desconhecem
cuidado com aqueles que procuram sempre a multidão
não são nada sozinhos
cuidado com o homem banal, com a mulher banal
cuidado com o seu amor, o seu amor é banal
procura a banalidade

mas há genialidade no seu ódio
há genialidade suficiente no seu ódio para te matar
para matar qualquer pessoa
não querendo a solidão
não entendendo a solidão
eles tentarão destruir qualquer coisa
que seja diferente da sua
não sendo capaz de criar arte
eles não entenderão a arte
vão encarar o seu fracasso enquanto criadores
como um mero fracasso do mundo
não sendo capazes de amar plenamente
vão julgar o teu amor incompleto
e depois odiar-te-ão
e depois o seu ódio será perfeito

como um diamante reluzente
como uma faca
como uma montanha
como um tigre
como cicuta

a sua mais refinada arte

De The Roominghouse Madrigals: Early Selected Poems 1946-1966


The Genius of the Crowd

there is enough treachery, hatred violence absurdity in the average
human being to supply any given army on any given day

and the best at murder are those who preach against it
and the best at hate are those who preach love
and the best at war finally are those who preach peace

those who preach god, need god
those who preach peace do not have peace
those who preach peace do not have love

beware the preachers
beware the knowers
beware those who are always reading books
beware those who either detest poverty
or are proud of it
beware those quick to praise
for they need praise in return
beware those who are quick to censor
they are afraid of what they do not know
beware those who seek constant crowds for
they are nothing alone
beware the average man the average woman
beware their love, their love is average
seeks average

but there is genius in their hatred
there is enough genius in their hatred to kill you
to kill anybody
not wanting solitude
not understanding solitude
they will attempt to destroy anything
that differs from their own
not being able to create art
they will not understand art
they will consider their failure as creators
only as a failure of the world
not being able to love fully
they will believe your love incomplete
and then they will hate you
and their hatred will be perfect

like a shining diamond
like a knife
like a mountain
like a tiger
like hemlock

their finest art


Charles Bukowski, «Dinosauria, nós»

Tradução de João Coles

Nascemos assim
Nisto
Enquanto as caras de giz sorriem
Enquanto a Sr.ª Morte ri
Enquanto os elevadores se avariam
Enquanto as paisagens políticas se dissolvem
Enquanto o caixeiro do supermercado mostra o seu diploma
Enquanto o peixe sujo de petróleo cospe a presa oleosa
Enquanto o sol está mascarado

Nós
Nascemos assim
Nisto
Nestas guerras cuidadosamente loucas
Neste espectáculo de janelas de fábricas partidas de vazio
Em bares onde as pessoas já não falam umas com as outras
Em rixas de rua que acabam em tiroteios e navalhadas

Nascemos nisto
Em hospitais que são tão caros que é mais barato morrer
Entre advogados que cobram tanto que é mais barato confessar-se culpado
Num país onde as cadeias estão cheias e os manicómios fechados
Num lugar onde as massas elevam cretinos a heróis ricos
Nascemos nisto
Passeando e sobrevivendo nisto
Morrendo por causa disto
Silenciados por causa disto
Castrados
Debochados
Deserdados
Por causa disto
Enganados por isto
Explorados por isto
Mijados em cima por isto
Enlouquecidos e adoecidos por isto
Feitos violentos
Desumanizados
Graças a isto

O coração escureceu
Os dedos procuram a garganta
A pistola
A faca
A bomba
Os dedos procuram alcançar um deus indiferente

Os dedos procuram a garrafa
O comprimido
O pó

Nascemos nesta mortalidade pesarosa
Nascemos num governo endividado em 60 anos
Que em breve será incapaz de pagar os juros dessa dívida
E os bancos hão-de arder
O dinheiro será inútil
Haverá assassínio aberto e impune nas ruas
Serão pistolas e turbas errantes
A terra será inútil
A comida será um retorno decrescente
O poder nuclear será tomado pela multidão
Explosões assolarão continuamente a Terra
Homens-robô radioactivos perseguir-se-ão uns aos outros
Os ricos e os escolhidos olharão do alto de plataformas espaciais

O inferno de Dante será encarado como um recreio para crianças
Não se verá mais o sol e parecerá sempre de noite
As árvores morrerão
Toda a vegetação morrerá
Homens radioactivos comerão a carne de homens radioactivos
O mar será envenenado
Os lagos e os rios desaparecerão
A chuva será o novo ouro

Os corpos pútridos de homens e de animais tresandarão no vento escuro

Os poucos e últimos sobreviventes sofrerão de novas e hediondas doenças
E as plataformas espaciais serão destruídas pelo atrito
O desaparecimento gradual de suplementos
O efeito natural da decadência geral

E haverá o mais belo silêncio alguma vez ouvido

Nascido de tudo isto.

O sol ainda ali escondido
À espera do próximo capítulo.


Dinosauria, We

Born like this
Into this
As the chalk faces smile
As Mrs. Death laughs
As the elevators break
As political landscapes dissolve
As the supermarket bag boy holds a college degree
As the oily fish spit out their oily prey
As the sun is masked

We are
Born like this
Into this
Into these carefully mad wars
Into the sight of broken factory windows of emptiness
Into bars where people no longer speak to each other
Into fist fights that end as shootings and knifings

Born into this
Into hospitals which are so expensive that it's cheaper to die
Into lawyers who charge so much it's cheaper to plead guilty
Into a country where the jails are full and the madhouses closed
Into a place where the masses elevate fools into rich heroes
Born into this
Walking and living through this
Dying because of this
Muted because of this
Castrated
Debauched
Disinherited
Because of this
Fooled by this
Used by this
Pissed on by this
Made crazy and sick by this
Made violent
Made inhuman
By this

The heart is blackened
The fingers reach for the throat
The gun
The knife
The bomb
The fingers reach toward an unresponsive god

The fingers reach for the bottle
The pill
The powder

We are born into this sorrowful deadliness
We are born into a government 60 years in debt
That soon will be unable to even pay the interest on that debt
And the banks will burn
Money will be useless
There will be open and unpunished murder in the streets
It will be guns and roving mobs
Land will be useless
Food will become a diminishing return
Nuclear power will be taken over by the many
Explosions will continually shake the earth
Radiated robot men will stalk each other
The rich and the chosen will watch from space platforms

Dante's Inferno will be made to look like a children's playground
The sun will not be seen and it will always be night
Trees will die
All vegetation will die
Radiated men will eat the flesh of radiated men
The sea will be poisoned
The lakes and rivers will vanish
Rain will be the new gold

The rotting bodies of men and animals will stink in the dark wind

The last few survivors will be overtaken by new and hideous diseases
And the space platforms will be destroyed by attrition
The petering out of supplies
The natural effect of general decay

And there will be the most beautiful silence never heard

Born out of that.

The sun still hidden there
Awaiting the next chapter


Quatro poemas de Anne Sexton

Selecção e tradução de Maria Sousa

De ALL MY PRETTY ONES (1962) 

Jovem 

Há mil portas atrás
quando eu era uma miúda solitária
numa casa grande com quatro
garagens e era verão
desde sempre, 
da noite deitada na relva, 
com os trevos a enrugarem-se por cima de mim
as estrelas sábias deitadas sobre mim, 
a janela da minha mãe um funil
de calor amarelo a escorrer
a janela do meu pai, meia fechada, 
um olho onde adormecidos passavam, 
e as tábuas da casa
eram macias e brancas como a cera
e provavelmente um milhão de folhas
velejavam nos seus caules estranhos
enquanto os grilos faziam tiquetaque em uníssono
e eu, no meu corpo recém estreado, 
que ainda não era o de uma mulher, 
dizia às estrelas as minhas perguntas
e pensava que Deus poderia mesmo ver
o calor e a luz pintada, 
cotovelos, joelhos, sonhos, boa noite. 

Donas de Casa

Algumas mulheres casam-se com casas. 
É outro tipo de pele, tem um coração, 
uma boca, um fígado e movimento de entranhas. 
As paredes são permanentes e cor-de-rosa. 
Vejam como ela está ajoelhada o dia todo, 
lavando-se fielmente de alto a baixo
Os homens entram à força, atraídos como Jonas
para as suas mães carnudas. 
Uma mulher é a sua própria mãe
e isso é o mais importante. 

De LIVE OR DIE (1966) 

 

Para o ano dos loucos
uma oração

Ó Maria, frágil mãe, 
ouve-me, ouve-me agora
embora eu desconheça as tuas palavras. 
O rosário negro com o seu Cristo de prata
permanece por benzer na minha mão
porque eu sou a descrente. 
Cada conta redonda e dura entre
os meus dedos, 
um pequeno anjo preto. 
Ó Maria concede-me esta graça, 
esta passagem, 
embora eu seja feia, 
submersa no meu próprio passado
e na minha própria loucura. 
Embora haja cadeiras
eu estendo-me no chão. 
Apenas as minhas mãos estão vivas, 
a tocar contas, 
palavra a palavra, eu tropeço. 
Uma iniciada, sinto a tua boca tocar a minha. 

Conto contas como ondas, 
a baterem sobre mim, 
estou doente com o seus números, 
doente, doente, no calor do verão
e a janela por cima de mim
é a minha única ouvinte, o meu ser estranho
ela é uma larga recebedora, uma mitigadora. 

A dadora de respiração
ela murmura, 
exalando o seu largo pulmão como um peixe enorme. 

Cada vez mais perto
vem a hora da minha morte, 
enquanto eu rearranjo a minha cara, volta a crescer, 
cresce por desenvolver e com o cabelo liso. 
Tudo isto é morte. 
Na memória há um beco estreito chamado morte
E eu movo-me nele
como se fosse água . 
O meu corpo não tem utilidade. 
Jaz, enrolado como um cão na carpete. 
Desistiu. 
Não há palavras aqui senão as meio aprendidas, 
o Avé Maria e o cheia de graça. 
Agora entrei no ano sem palavras. 
Anoto a entrada estranha e a voltagem certa. 
Sem palavras elas existem. 
sem palavras podemos tocar no pão
e ser-nos-á entregue pão
sem som. 

Ó Maria, terna médica
vem com pós e ervas
Porque eu estou no centro. 
É muito pequeno e o ar é cinzento
como numa casa de máquinas. 
Dão-me vinho como dão leite a uma criança. 
É apresentado num copo delicado com um bojo redondo e uma borda fina. 
O vinho tem cor de breu, bafiento e secreto. 
O copo ergue-se sozinho em direcção à minha boca
E eu reparo nisto e percebo isto
Apenas porque aconteceu. 
Tenho este medo de tossir
mas não falo, 
um medo de chuva, do cavaleiro
que cavalga para a minha boca. 
O copo inclina-se sozinho
E eu estou em chamas. 
Vejo dois finos fios a
queimarem-me o queixo. 
Fui cortada em dois. 

Ó Maria, abre as tuas pálpebras. 
Estou no domínio do silêncio, 
o reino dos loucos e dos adormecidos. 
Há sangue aqui
E eu comi-o
Ó mãe do ventre
vim apenas pelo sangue? 
Ó pequena mãe, 
estou na minha própria mente. 
Estou trancada na casa errada. 

De THE DEATH NOTEBOOKS (1974) 

Roupas

Veste uma camisa limpa antes de morrer, disseram alguns russos. 
Por favor, nada com baba, nódoas de ovo, sangue
suor, esperma. 
Queres-me limpa, Deus, 
por isso vou tentar obedecer. 

O chapéu com que me casei, 
servirá? 
Branco, largo com um pequeno bouquet de flores falsas. 
É antiquado, com tanto estilo como um percevejo, 
mas fica bem morrer em algo nostálgico. 

E vou levar
a minha bata de pintar
lavada vezes sem conta, claro
manchada com cada cozinha amarela que pintei. 
Deus, não te importas que eu leve todas as minhas cozinhas? 
Elas contêm o riso da família e a sopa. 

Como soutien
(precisamos de o mencionar?) 
O preto acolchoado que irritava o meu amante
quando eu o despia. 
Dizia “para onde foi tudo?” 

E levarei
a saia de grávida do meu nono mês
uma janela para a barriga do amor
que deixou cada bebé sair como uma maçã, 
as águas a rebentar no restaurante, 
fazendo uma casa barulhenta onde eu gostaria de morrer. 

Como roupa interior escolherei algodão branco, 
as cuecas da minha infância, 
pois era uma máxima da minha mãe
que as meninas boas apenas usavam algodão branco. 
Se a minha mãe tivesse vivido para o ver
teria posto um cartaz de “Procura-se” nos correios
para as pretas, vermelhas, azuis que eu usei. 
No entanto, seria perfeitamente agradável para mim
morrer como uma boa menina
a cheirar a Clorox e a Duz. 
Tendo dezasseis-anos-nas-cuecas
morreria cheia de perguntas.