Tadeusz Rożewicz, Como é bom

Tradução de Anna Kuśmierczyk e João Ferrão

Como é bom Posso colher
mirtilos na floresta
pensava
não há floresta nem mirtilos

Como é bom Posso deitar-me
à sombra da árvore
pensava as árvores
já não dão sombra. 

Como é bom Estou contigo
o meu coração bate tanto
pensava o homem
não tem coração 

Tadeusz Rożewicz, Penetração

a morte
penetra pela vida
como a luz
por uma teia
pendendo na porta
de um quarto aberto

o moribundo mudava de posição
gritando longamente procurando
uma fuga deitava-se

a morte comia os traços
de sucessivos rostos aplicados
no osso


Tadeusz Rożewicz (1921-2014) foi poeta e dramaturgo polaco. Nasceu em Radomsko, perto de Łódż, filho de uma judia convertida ao Catolicismo. Estudou em Cracóvia e no final dos anos 1940 mudou-se para Gliwice, seguindo mais tarde para Wrocław, onde morreu. Durante a Segunda Guerra Mundial foi soldado da Armia Krajowa (Exército Nacional), o mais importante movimento de resistência polaca. O seu irmão Janusz, também ele um promissor poeta e membro da AK, foi assassinado pela Gestapo em 1944.

A sua poesia é marcada pela experiência do Holocausto e pela responsabilidade de quem lhe sobreviveu. Face ao aforismo de Adorno de que não se pode escrever poesia após o Holocausto, Rożewicz procurou uma poética nova, longe dos artifícios retóricos até então comuns na Literatura Polaca. Os seus poemas caracterizam-se por versos curtos, quase como se fossem esqueletos de poemas, um vocabulário minimalista e a ausência de metáforas. 

Foi também um dramaturgo inovador e bem-sucedido, e as suas peças continuam a ser encenadas nos principais teatros polacos, principalmente Kartoteka (Ficheiro), publicada em 1960. Recebeu em 2007 o Prémio Europeu de Literatura pela sua obra, e foi várias vezes candidato ao Prémio Nobel. 

Tadeusz Rożewicz, Monumentos

Tradução de João Ferrão e Anna Kuśmierczyk

Os nossos monumentos
são ambíguos
têm a forma de um buraco

os nossos monumentos
têm a forma
de uma lágrima

os nossos monumentos
construiu sob a terra
a toupeira
os nossos monumentos
têm a forma do fumo
vão direitos ao céu

1958


Tadeusz Rożewicz (1921-2014) foi poeta e dramaturgo polaco. Nasceu em Radomsko, perto de Łódż, filho de uma judia convertida ao Catolicismo. Estudou em Cracóvia e no final dos anos 1940 mudou-se para Gliwice, seguindo mais tarde para Wrocław, onde morreu. Durante a Segunda Guerra Mundial foi soldado da Armia Krajowa (Exército Nacional), o mais importante movimento de resistência polaca. O seu irmão Janusz, também ele um promissor poeta e membro da AK, foi assassinado pela Gestapo em 1944.

A sua poesia é marcada pela experiência do Holocausto e pela responsabilidade de quem lhe sobreviveu. Face ao aforismo de Adorno de que não se pode escrever poesia após o Holocausto, Rożewicz procurou uma poética nova, longe dos artifícios retóricos até então comuns na Literatura Polaca. Os seus poemas caracterizam-se por versos curtos, quase como se fossem esqueletos de poemas, um vocabulário minimalista e a ausência de metáforas. 

Foi também um dramaturgo inovador e bem-sucedido, e as suas peças continuam a ser encenadas nos principais teatros polacos, principalmente Kartoteka (Ficheiro), publicada em 1960. Recebeu em 2007 o Prémio Europeu de Literatura pela sua obra, e foi várias vezes candidato ao Prémio Nobel. 

Respostas: Miller a Bukowski e Bukowski a Miller

Tradução de João Coles
[Ler a primeira carta de Charles Bukowski a Henry Miller]


[Miller a Bukowski]
22 de Agosto de 1965

Caro amigo,

A única razão pela qual não lhe digo que venha de imediato cá a casa é porque ontem, depois de quase dois anos a protelar o meu próprio trabalho em benefício de outros, decidi que eu estou em primeiro lugar. E assim voltei ao trabalho, a uma peça de acto único já meio acabada – outra peça burlesca! - e não pretendo encontrar-me com ninguém até a levar a bom termo.

O tal amigo que me enviou os (3) exemplares adicionais do seu livro (o qual agora posso fazer chegar a amigos) deve ser o Bob Fink. Se ele ainda não lhe pagou, avise-me. Eu tencionava pagar, como fiz com os três primeiros, mas ele disse-me ao telefone: “já está tudo tratado!” Se ele ainda não pagou o preço total, pretendo acrescentar o remanescente. O livro vale o dobro daquilo que as editoras estão a pedir. Eu disse ao Lyle Stuart que se assegurasse de o pôr à venda na Pickwick's e na Martindale's – aparentemente não pensou nelas. Também lhe pedi mais formulários de encomenda para que os possa enviar a amigos.

Basta disto! Estou tão contente que tenha descoberto Céline. O seu primeiro livro (Viagem [ao fim da noite]) foi publicado quase na mesma altura que o [Trópico de] Câncer. Vivi mesmo ao lado da clínica dele em Clichy, mas era demasiado tímido para o procurar. O segundo livro (Morte a crédito) também é grandioso. Não deixe de o ler. Creio que saiu em edição de bolso (pela New Directions).

Espero que não esteja com as suas bebedeiras de caixão à cova! E sobretudo não enquanto estiver a escrever. É o caminho certo para matar a fonte de inspiração. Beba apenas quando estiver feliz, caso possa. Nunca para afogar as mágoas. E nunca beba sozinho! Perdoe-me por dizer estas coisas – mas porquê dar cabo da sua vida? Existe um ponto de vista, uma atitude perante a vida além daquela de Céline, acredite em mim. Ele acabou tornando-se num homem amargurado – acontece, porém, que ele era uma alma angelical genuína.

Alguma vez tentou escrever prosa? Um dos meus poetas em prosa favoritos é Jean Giono. Alguma vez leu o seu Blue Boy? Creio que significaria alguma coisa para si. Palavra de honra.

Tenho de me deter agora. Desejo-lhe tudo do melhor. Se puder servir de ajuda, diga-me alguma coisa.

Salut!
Henry Miller
 

P.S. Esqueci-me de lhe agradecer pelos desenhos. Eu persevero na pintura sem saber como desenhar. Na escola sempre fui corrido das aulas de arte. É tudo tanta bosta de cavalo feliz, não é?


[Bukowski a Miller]
Finais de Agosto de 1965

não, não sou do género de fazer visitas, e espero que não pense que pretendo impelir-me contra si. estava bêbedo quando escrevi a carta, se é que serve de desculpa. quanto às bebedeiras, se me atolam ou desenroscam a cabeça da minha criatividade, tanto pior então. preciso de algo mais para viver minuto a minuto do que para ser alguma espécie de artista criativo. o que quero dizer com isto é que preciso de alguma coisa que me dê ânimo, senão entorpeço, sou um cobarde, não quero atravessar as soleiras das portas.

livros [Crucifix] pagos, e mesmo a tempo (para mim). tive de fazer uma revisão completa aos travões do meu velho Plymouth. tenho conduzido sem travões. a mulher berrou quando viu o preço. ela acha que sou um idiota. eu sou um idiota. lá vai ela mijar e deixa a porta aberta e olho para as suas grandes pernas, mortas e inanimadas. a seguir liga o rádio. o rádio está sempre ligado. eu cirando pela casa com tampões para os ouvidos na minha cabeça perguntado-me se devia ir à rua comprar uma garrafa de vinho. tal como todos: conta do gás por pagar, conta do telefone por pagar, falésias a cair em cima da minha cabeça... não, não, raramente trabalho com prosa, principalmente porque a rejeição me mataria. toda essa energia desperdiçada. não tenho coragem para escrever um romance por medo de investir metade da minha vida nele para depois acabar sem pernas dentro de uma gaveta. houve uma vez que disse numa revista que aceitaria escrever um romance por um adiantamento de $500, em qualquer momento, em qualquer lugar. não surgiu qualquer comprador, nem surgirá. se lhe pareço ávido por dinheiro, não acredite nisso. é uma questão de energia – de vazamento. eu posso brincar com poemas sem me magoar muito e conseguir na mesma ser rei do meu próprio castelo, se é que me entende. a fedelha está agora a agarrar-se a mim – tem 11 meses e já quer dactilografar. há-de ter a oportunidade, a cabra.

vou tentar deitar a mão ao [Jean] Giono, ou pedir à mulher que trate disso. no entanto, não consigo imaginar alguém a ombrear com Céline. este homem tinha a cabeça cheia de parafusos dourados. merda, ai merda, doem-me os braços e o peito! parto amanhã para Del Mar, de comboio. estas mulheres mantêm-me sob rédea curta nestes 2 quartos minúsculos e preciso de me fazer ao largo por um momento: o céu, a estrada, o cu de um cavalo, árvores mortas, o mar, pernas novas errantes – qualquer coisa, qualquer coisa... os desenhos que lhe mandei são atrozes. uma péssima partida. estou a trabalhar num livro de desenhos que me pediram e estes 2 pu-los de parte. o editor quer muitos desenhos e uns quantos poemas – o que torna a coisa agradável: um pouco de tinta-da-china e muita cerveja e estou nessa.

história de uma banheira

Sylvia Plath
Tradução
de Stefano Calgaro

 

A fotográfica câmara do olho
grava as nuas paredes pintadas, enquanto uma luz elétrica
esfola os nervos de cromo do encanamento; 
tal pobreza assalta o ego; pega
nua no mero quarto atual, 
a estranha no espelho do lavabo
veste um sorriso público, repete nosso nome
mas escrupulosamente reflete o terror usual. 

Quão culpados nós somos quando o teto
não revela rachaduras que podem ser decifradas? Quando
o lavatório sustenta não ter mais chamada santa
que ablução física, e a toalha secamente
nega que as caras ferozes do troll espreitam
em suas dobras explícitas? Ou quando a janela, 
cega de vapor, não admitirá a escuridão
que envolve nossas expectativas em sombra ambígua? 

Vinte anos atrás, a banheira familiar
gerava uma leva de presságios; mas agora
a água da torneira não jorra perigo; cada caranguejo
e polvo – esperneando logo além da vista, 
esperando por alguma pausa acidental
em rito, para atacar – definitivamente se foi; 
o mar autêntico os nega e arrancará 
a carne fantástica até o osso. 

Tomamos o mergulho; sob a água, nossas pernas
vacilam, levemente verdes, estremecendo diferente
da genuína cor de pele; podem nossos sonhos
manchar as linhas intransigentes que desenham
a forma que nos encerra? O fato absoluto
Invade mesmo quando o olho revoltado
está fechado; a banheira existe atrás de nossas costas: 
suas superfícies reluzentes são em branco e verdadeiras. 

Ainda assim, os ridículos flancos nus incitam
a fabricação de algum tecido para cobrir
essa dureza; a precisão não deve seguir à solta: 
cada dia exige criarmos nosso mundo inteiro de novo, 
disfarçando o horror constante em um casaco
de ficções multicores; mascaramos nosso passado
no verde do éden, fingimos que a fruta iluminada do futuro
pode brotar do umbigo deste desperdício presente. 

Nesta banheira em particular, dois joelhos se sobressaem
como icebergs, enquanto mínimos pelos castanhos se arrepiam
nos braços e pernas em uma franja de algas; sabão verde
navega a maré que jorra dos mares
rebentando em praias legendárias; com fé 
nós deveremos embarcar em nosso navio imaginado
e navegar selvagemente entre ilhas sagradas da loucura
até que a morte estilhace as fabulosas estrelas e nos torne reais. 


tale of a tub 

The photographic chamber of the eye
records bare painted walls, while an electric light
lays the chromium nerves of plumbing raw; 
such poverty assaults the ego; caught
naked in the merely actual room, 
the stranger in the lavatory mirror
puts on a public grin, repeats our name
but scrupulously reflects the usual terror. 

Just how guilty are we when the ceiling
reveals no cracks that can be decoded? when washbowl
maintains it has no more holy calling
than physical ablution, and the towel
dryly disclaims that fierce troll faces lurk
in its explicit folds? or when the window, 
blind with steam, will not admit the dark
which shrouds our prospects in ambiguous shadow? 

Twenty years ago, the familiar tub
bred an ample batch of omens; but now
water faucets spawn no danger; each crab
and octopus — scrabbling just beyond the view, 
waiting for some accidental break
in ritual, to strike — is definitely gone; 
the authentic sea denies them and will pluck
fantastic flesh down to the honest bone. 

We take the plunge; under water our limbs
waver, faintly green, shuddering away
from the genuine color of skin; can our dreams
ever blur the intransigent lines which draw
the shape that shuts us in? absolute fact
intrudes even when the revolted eye
is closed; the tub exists behind our back; 
its glittering surfaces are blank and true. 

Yet always the ridiculous nude flanks urge
the fabrication of some cloth to cover
such starkness; accuracy must not stalk at large: 
each day demands we create our whole world over, 
disguising the constant horror in a coat
of many-colored fictions; we mask our past
in the green of Eden, pretend future’s shining fruit
can sprout from the navel of this present waste. 

In this particular tub, two knees jut up
like icebergs, while minute brown hairs rise
on arms and legs in a fringe of kelp; green soap
navigates the tidal slosh of seas
breaking on legendary beaches; in faith
we shall board our imagined ship and wildly sail
among sacred islands of the mad till death
shatters the fabulous stars and makes us real.