Mais depressa

Andar não era suficientemente rápido, por isso corremos, correr não era suficientemente rápido, por isso galopámos. Galopar não era suficientemente rápido, por isso velejámos, velejar não era suficientemente rápido por isso rolámos felizes por longos carris de metal. Os longos carris de metal não eram suficientemente rápidos, por isso conduzimos. Conduzir não era suficientemente rápido, por isso voámos. Voar não é suficientemente rápido, não para nós. Queremos lá chegar depressa. Chegar onde? A qualquer sitio onde não estejamos. Costumam dizer que uma alma humana só pode ir tão rápido quanto um homem pode andar. Nesse caso, onde estão as almas todas? Deixadas para trás. Vagueiam aqui e ali, lentamente, luzes sombrias, tremeluzentes, de noite nos pântanos, à nossa procura, mas não são suficientemente rápidas, não para nós, estamos muito à frente delas, nunca nos apanharão. É por isso que nós podemos ir tão depressa? As nossas almas não nos pesam.

Margaret Atwood

 

 

As setas não se atiram ao céu

As setas não se atiram ao céu.
Caem. Não porque Deus esteja nelas,
mas porque os sons têm forma.           

            Talvez por isso haja harmónicos,
            em partes definidas.
            Em partes demasiado definidas. 

Mas(?) entendo a tua alma,
tem a forma de uma sombra
que pausa em medidas. 

            Percebo a nossa tragédia.
            Os sons morrem. Nós não.
            (Nem nunca será difícil dizê-lo)

As Aventuras do Senhor Lourenço (§17 o perigo do amor)

(cont.)

Lourenço leu na Literary Hub que “The risk of passionate love is this: it makes everything outside its immediate, glowing orbit look dull and distant by comparison. What we love dims the rest of the universe, whether we love a person, a drug, or an idea.” E lembrou-se que também o velho Freud dizia que nunca estamos tão mal protegidos contra o sofrimento como quando amamos, nunca tão irremediavelmente infelizes como depois de perdermos a pessoa amada e o seu amor.

Sabe-se que Freud leu e gostou de Schopenhauer, também conhecemos as diatribes deste filósofo solitário e mal-humorado contra o amor, que para ele não passava de uma astúcia biológica para manter a espécie viva, a paixão devendo conduzir à procriação. Mas entretanto inventaram-se métodos contraceptivos bastante eficientes, a milhas dos antigos preservativos de tripa de porco. E o sexo passou quase a ser um fim em si mesmo, com aquele valor intrínseco de que tanto gostam os filósofos metafísicos. Hoje fazemos amor pelo prazer fisiológico que isso provoca, excepto nas variações perversas ou no sexo aconselhado pelas estatísticas de medias cor-de-rosa.

Bem sei que a realidade é mais complexa, o social e as pulsões primitivas continuam a determinar uma fatia grande dos nossos comportamentos sexuais. Até a retórica consumista entrou ao barulho. Um dia destes, um amigo veio dizer-me, cheio de orgulho, que estava “acima da média na cama”. À primeira, não percebi, “na cama?”, perguntei. “Sim, respondeu-me, no número de vezes que como a Diana”. Bom, parece que isso é positivo, sinal de virilidade, de boa condição física, mas também prova de que é possível aguentar a monogamia entediante. E a Diana, será que tem a mesma ideia? Ou faz o frete de mulher disposta a satisfazer as necessidades do marido?

Lourenço queria muito discutir os perigos do amor com a Manuela, mas ela não tinha lido sequer Madame Bovary, poderia ele confiar no senso comum que desenvolvera enquanto dondoca profissional. Não cheguei a dizê-lo, mas Manuela era também rica, bela e rica, verdadeiramente rica (o mono do marido que a abandonou ganhou a medalha do gajo mais parvo da década). Uma pessoa assim não precisa de desenvolver ou articular seja o que for, pelo contrário, é melhor manter-se na suprema ignorância da lógica e da política, do comércio mundial e da mecânica quântica, das alterações climáticas e do TTIP, será muito mais feliz e ousada dessa maneira.

– Meu amor, meu amor, meu amorzinho, luz da minha vida. – Disse Manuela a Lourenço, logo às 7 da manhã, depois de desligar o despertador.

– Bom dia. – Respondeu Lourenço, como quem cumpre as regras básicas de civilidade.

– Meu amor, hoje vamos almoçar ao eleven, não te esqueças.

– Pois é, tem mesmo de ser?

– Sim, claro, vá lá não custa nada, os meus pais gostam de estar connosco.

– Manuela, por que razão dás aulas, podias ir para uma empresa do teu pai...

– Adoro a escola, adoro os alunos, adoro-te a ti!

– Não há nada que te desagrade, às vezes vejo-te triste, outras muito chateada com os alunos ou os colegas.

– Tem de ser, mas no geral sou feliz.

– Mesmo quando eles não querem aprender.

– Mas eles querem sempre aprender, às vezes só não é aquilo que queres ensinar.

– Que tenho de ensinar!

– Sim, mas também que queres ensinar!

– Dá-me um beijo, faz amor comigo, Manuela.

E Manuela fez, naquele dia sem se importar de não conseguir lubrificar bem logo de manhã, das suas zonas erógenas estarem tão adormecidas que nem um príncipe encantado as conseguiria despertar, de ver com olhos menos turvos o corpo desengraçado do Lourenço, de achar que os pêlos nas costas deviam ser arrancados um a um.

Apesar deste idílio amoroso, Lourenço começava a sentir-se deprimido. Ainda era um herói nacional, os meios de comunicação seguiam os seus passos, à espera que dissesse alguma coisa, claro, mas sobretudo de fotografarem a Manuela. A intensidade esvanecia-se. Isto devia agradar-lhe, ele detestava o circo mediático, mas o esvaziar o balão da fama alimenta sempre um sentimento de perda, até naqueles que não querem ser famosos. Na altura era, aliás, um pouco o país inteiro que decaía animicamente. Vivia-se uma crise financeira grave, sem solução para lá da queda num qualquer abismo proposto pelo programa do “não pagamos!”. Mas até esta opção, na sua irracionalidade intempestiva, parecia melhor do que a asfixia lenta da realpolitik. A isto somava-se a percepção quase nítida de que em Portugal se podia começar por ser um crápula e acabar como ministro, mas também o contrário, começar como ministro e acabar em crápula. Os optimistas achavam que tudo passaria quando os conceitos e a moral deixassem de ser incertos. Os pessimistas, pelo contrário, onde se incluía Lourenço, acreditavam que essa incerteza e a falta de motivação endémica para fazer as coisas bem feitas, nunca permitiriam que Portugal fosse um sítio decente para se viver. Acrescente-se a estas razões, mas sem tanto grau de convicção, que Lourenço continuava a ser, por baixo da capa do respeito e da admiração, alguém pouco desejado na escola. A sua mediania parecia evitar-lhe a embirração dos colegas, as escolas concentram geralmente a animosidade em quem, por uma ou outra razão, se destaca. Nisto, por exemplo, o Joaquim e a Manuela estavam muito mais a jeito, devido, respectivamente, à erudição (Joaquim não acreditava na inteligência, para ele tudo se jogava na quantidade de conhecimentos que se tinha, por isso costumava dizer que “a escassez de história era um pecado capital”) e à beleza fora de normas. Mas quem julgar que a racionalidade emotiva reina na sala de professores, está muito enganado. 

Manifesto para um bom hedonismo

Prolongando Nietzsche, que só acreditava num deus que soubesse dançar, ou se ria de todos quantos nunca se tinham rido de si próprios, Gilles Deleuze e Michel Foucault retomaram, cada um à sua maneira a mundivisão epicurista, que é mais vasta e antiga do que o gerado em torno de Epicuro, recusando uma vida centrada no negativo. É verdade que Deleuze criticou o conceito central de “prazer” em Foucault,[1] preferindo-lhe o de “desejo” (produtivo, afastando-o da tradicional “falta”) mas, como veremos na citação que faço infra, não estava, no que aqui mais importa, longe da visão foucaldiana, e nietzscheana, da importância do positivo, do prazer e do afirmativo. Na verdade, se Foucault não suporta o termo “desejo” é porque não consegue dissociá-lo da ideia de falta, alimentada por uma tradição que liga Platão a Sartre, passando pela psicanálise. Mas este sentido não está presente no “desejo” deleuziano.

Foucault (cujo subtítulo do volume dois da História da Sexualidade é “L’Usage des plaisirs” [o uso dos prazeres]) põe em perspectiva o conceito de “prazer” remontando genealogicamente ao termo aphrodisia da Grécia Antiga, de onde provém, com deslizes, o nosso “afrodisíaco”. Os aphrodisias eram impulsos para o prazer dados ao excesso, por isso a ética (ethos) preocupava-se menos em estabelecer permissões e interdições (especialidade da moral cristã) do que em controlar esses impulsos (é aqui que encaixa a moral do “justo meio”, da temperança aristotélica). Incontrolados, os aphrodisias podiam tornar o homem escravo dos prazeres, e a perda da autonomia era um dos principais receios gregos. Assim, a ética grega, prolongando-se em parte da romana, não definiu qualquer obediência a um código ou sistema de leis com validade geral ou universal, insistindo antes no desenvolvimento de estratégias de autolimitação dos aphrodisias, ensinando o domínio de si, combate proporcional à excessiva vontade de prazer (inspirando uma longa tradição ocidental, que vai de Santo Agostinho a Freud, passando por Kant). Tudo isto será substituído quase na origem, na confissão religiosa cristã, pelo deciframento de si, procura das imperfeições teológicas que confirmem o postulado de Pecado Original e justifiquem castigos correctivos (nunca totalmente eficientes, como sabemos, continuamos pecaminosos). Culminando no paroxismo pudico vitoriano.[2]

À importância inquestionável de Foucault na reabilitação do conceito filosófico de “prazer” e a abertura para éticas menos normativas e preconceituosas em relação a prazeres socialmente quase indesejáveis (sobretudo os ligados à sexualidade e ao consumo de psicotrópicos), devemos juntar Deleuze, que questionou sempre todos os códigos que nos prendem a possíveis redutores, que nos inoculam um pessimismo estéril e uma vontade de vingança. Neste caso, traduzo um excerto exemplar de Dialogues avec Claire Parnet, 1977.

Vivemos num mundo bastante desagradável, onde não só as pessoas, mas o poder estabelecido têm interesses em transmitir-nos afectos tristes. A tristeza, os afectos tristes são todos aqueles que diminuem o nosso poder de agir. Os poderes estabelecidos precisam da nossa tristeza para nos escravizarem. O tirano, o padre, os ladrões de almas têm de convencer-nos que a vida é dura e pesada. O poder tem menos necessidade de nos reprimir do que de nos angustiar ou, como diz Virilio, de administrar e organizar os nossos pequenos terrores íntimos. A longa queixa universal sobre a vida ... Podemos dizer "dancemos!", mas não estamos muito alegres. Podemos dizer "como é lamentável a morte!", mas teríamos de ter vivido para haver algo a perder. Os doentes, da alma e do corpo, não nos deixarão em paz, vampiros, enquanto não nos transmitirem as suas neuroses e ansiedades, a sua amada castração, o ressentimento contra a vida, o contágio imundo. Tudo é questão de sangue. Não é fácil ser um homem livre: fugir da peste, organizar encontros, aumentar o poder de agir, afectar-se de alegria, multiplicar os afectos que expressem um máximo de afirmação. Fazendo do corpo uma potência que não se reduz ao organismo, fazer do pensar uma potência que não se reduz à consciência.”

 

[1] Para quem quiser aprofundar, cf. carta de Deleuze a Foucault sobre esta divergência: “Désir et plaisir”, Magazine Littéraire n° 325, Outubro 1994; republicado em  Gilles Deleuze, Deux régimes des fous, 2003.

[2] Foucault contesta contudo, que, por exemplo, os prazeres ligados à atividade sexual tenham ficado isentos de qualquer interdito na Grécia Clássica. Nas aulas do Collège de France de 1980/81 (laboratório do livro sobre os uso dos prazeres) defende, pelo contrário, que antes do cristianismo já havia muitas reservas sobre a sexualidade livre, embora longe da dogmática cristã da carne e da concupiscência. (Cf. Subjectivité et vérité)

respondendo à hipótese do vazio

se nunca mais repleto o mundo
— dentro em nós, apenas— canta
em cada esquina, cada luz solar, 
inundação no riso, brilho em pele, 
prestes mesmo ao nada exorbitante, 
espelho de conflitos puro, raro
de reflexo, rente de célula a célula  
não mais que grito em cacos, dê 
um passo atrás saindo à sombra
e eis o sol: se agora queima a cútis, 
ou por mera aurora ainda avaro, 
fique. desça a cortina dos olhos, 
a fricção gentil de mão a mão. tão sós, 
nos cumpre sempre descobrir o sol.