Sobre cafés

Exemplar de espécime de coffee shop britânica que não o Café Costa ou o Café Nero

Exemplar de espécime de coffee shop britânica que não o Café Costa ou o Café Nero

 

Em Inglaterra, da primeira vez que bebi um americano, basicamente um grande copo cheio de café que tende a saber à cevada que a minha tia-avó bebia, senti-me duplamente enganada. Não só porque achei que nunca me ia habituar a beber um café que me pareceu ser o equivalente emocional de uma enorme nostalgia do chá, como me pareceu obsceno ter de pagar mais de duas libras para beber um café.

De modo que guardas armados de metralhadoras e gigantescos pastores alemães atravessavam os corredores de Heathrow e eu vim cá para fora beber café de um copo de papel enquanto me lembrava de uma música do John Lee Hooker que inclui a expressão “drinking coffee from a paper cup” imediatamente seguido de um desdenhoso “lord have mercy” (a música faz parte da inenarrável banda sonora da série Homicide, o ensaio de David Simon para o The Wire, também passada em Baltimore). 

 

Há na maior parte das coffee shops inglesas uma diferença de preço consoante se consuma o café dentro ou fora do estabelecimento. Confesso que isto me faz uma enorme confusão, que tem tanto a ver com a suspeita de que há uma certa ofensa à hospitalidade que todo e qualquer espaço vagamente semelhante a um café deveria cultivar, como em termos de pegada ecológica não me parece fazer muito sentido não sair mais caro a um indivíduo beber café de um copo de papel com uma tampa de plástico do que de uma caneca. Por outro lado, percebo que se se vende meio litro de café a um cliente é complicado mantê-lo dentro do estabelecimento pelo tempo que leva a beber. 

A minha segunda tentativa com café americano acarretou melhoras significativas, que na verdade nada tiveram que ver com café. Há em Oxford uma livraria de quatro andares que ocupa um quarteirão, a Blackwell’s. No segundo piso há quase todo um andar dedicado a clássicas, uma versão do paraíso para qualquer classicista. Durante a minha primeira semana na cidade acabei por passar bastante tempo nesta secção. Imediatamente por baixo há um café Nero, que a par com o Costa e com o Starbucks, é uma das grandes cadeias de coffee shops que existem um pouco por toda a Inglaterra. Tenho uma relação ambivalente com coffee shops que vêm às cadeias. É verdade que em Lisboa beber uma bica é bastante igual em todos os lugares, não mais num Starbucks, se se pedir um expresso, do que no Café Luanda, mas é possível beber um café em cidades tão distintas como Londres ou Oxford ou Birmingham ou Manchester com a impressão de que estamos sempre no mesmo lugar. A impressão arrasta com ela outra, a de uma falsa familiaridade. É possível estar em casa em qualquer lugar porque os mesmos rótulos dominam a paisagem. Na verdade, chegando ao Sá Carneiro no Porto, topa-se com um café Costa. Tal como tínhamos topado com um Costa horas antes, em Gatwick. Na minha última viagem, este aeroporto tentava compensar isto de uma maneira vagamente esfíngica, apresentando também um rancho folclórico como atracção turística alternativa (ao Costa, claro).

Café Luanda (em Lisboa), de outra forma não relacionado com nostalgias colonialistas.

Café Luanda (em Lisboa), de outra forma não relacionado com nostalgias colonialistas.

A maior parte das coffee shops em Inglaterra fecham às seis da tarde. Quarteirões de portas fechadas exibindo uma melancolia rigorosa de repartição de finanças em cidade de província. No Inverno esta hora de fecho torna-se particularmente penosa. Não só porque as coffee shops que não vêm às cadeias são bons sítios para ler ou trabalhar, mas porque no meu caso, um dia de trabalho normal começa às 9 da manhã e termina por volta das 18. Mas assim que atingirmos o pino do Inverno é de noite às quatro da tarde. É como visitar uma cidade fantasma. Há estúdios e bibliotecas que se acendem assim que anoitece, sobretudo se caminharmos por certas zonas da cidade, mas assim que chegamos às ruas principais, os cafés, as livrarias e as lojas estão fechados. O pub ao fim do dia é a coisa mais parecida que existe com um café. O pub é uma espécie de limbo, onde não é suposto ir-se para jantar (embora isto varie bastante de pub para pub) e onde não é suposto ir-se beber um copo depois de jantar porque a maioria fecha por volta das dez e meia da noite.

Ao fim de algum tempo a viver numa cidade uma parte da nossa experiência nessa cidade são os sítios onde bebemos café. E esta não é uma parte menor. De manhã nos últimos instantes antes de irmos trabalhar ou ao fim do dia com os amigos, os cafés são uma parte importante da nossa vida e da paisagem das cidades do sul da Europa. Lugares que temos para ir. A expectativa dos minutos antes, ou de saber que naquele dia combinámos um café com alguém algures. Convidar alguém para beber um café em determinado café pode dar de barato uma série de pistas acerca de quem somos. E um sinal de que nos estamos a tornar amigos de alguém é se perguntamos ou se recebemos a pergunta sobre se queremos beber um café mais logo. Nunca se bebe um café com alguém que não nos interessa depois de um longo dia de trabalho. A vida está intimamente ligada às geografias que construímos em torno dos cafés. Imperceptíveis, discretas, elas estão tão ligadas à nossa rotina, como à nossa vida emocional. Daí a Ruy Belo lhe ter dado para escrever “e fui feliz em cafés de província onde me vi sentar”.

Ruy Belo sentado, alegadamente depois de ter bebido café.

Ruy Belo sentado, alegadamente depois de ter bebido café.