As Aventuras do Senhor Lourenço (§24 levar nas orelhas)

(cont.)

– Estás contente? – Perguntou Manuela, mais bela do que nunca, uma pele que só podia ter sido oferecida por Afrodite (em troca de quê?), ao vê-lo cabisbaixo junto à máquina automática do café.

– Não, claro que não. Mas isso importa pouco.

– Sim, sempre quiseste isto, gostas de te amar em mártir, é a maneira que encontraste para esconder os teus fracassos.

– Creio que não, ninguém, nem os masoquistas, gostam de sofrer. A finalidade nunca é o sofrimento, ele pode ser necessário como meio, jamais como fim.

– Não enroles, estou farta de conversa fiada. Pelo que consegui compreender de ti, julgo que és um tremendo anormal. E olha que te amava a sério. No início andei contigo pelo heroísmo, talvez influenciada pelo olhar que as colegas te lançavam. Disse para comigo que tinhas de ser meu, não te ia deixar à estúpida da Joaquina mamalhuda, ou à parvinha seminua do teu grupo, sempre cheia de citações entre os decotes teenager. Depois, consegui ver em ti qualidades que nem sonhas ter, posso não ser muito inteligente, mas tenho uma boa intuição ética (olha o que aprendi contigo, “intuição ética”). Tu és uma boa pessoa, pelo menos és muito melhor do que pensas, darias um óptimo pai, um óptimo avô.

– Não conheces ainda o fogo negro que arde em mim. – Disse Lourenço sem olhar para ela.

– Lá estás tu a forçar a página da desgraça.

– Não, Manuela, recebi isto ainda no útero, e manteve-se indomesticável, faz o que bem lhe apetece.

Faltava dizer ao Lourenço, mas Manuela não tinha nem as palavras nem as ideias certas, que a vida é acrobacia, que por isso se está sempre em risco de cair, atraído pela inata gravidade trágica, sim nós nascemos para a tragédia, é por isso que os primeiros gestos de cultura elaborada de qualquer comunidade, dos semitas ao gregos, passando pelos ingleses isabelinos, procuram reproduzir essa parcela da nossa essência, as primeiras linhas de cultura são sempre sobre o trágico. Ambivalente, Lourenço personificou esse rasgo contra a monotonia do bem e do conforto, mas, simultaneamente, nunca quis ultrapassar os limites, aventurar-se na imensidão, experimentar o abismo. Pelo contrário, Lourenço especializou-se em retiradas.

[bom, não me tomem por um narrador omnisciente, retrato o Lourenço tal como o imagino. Por mais que queiramos, não temos acesso a nenhuma consciência para lá da nossa. Além disso, as palavras que escrevo aqui não são imediatamente portadoras de vida. Por exemplo: tudo o que de magnífico e vital escreveu Hugo von Hofmannsthal se pode sequer aproximar de em Julho de 1929 ter morrido de um ataque cardíaco quando se dirigia para o enterro do seu filho Franz, que se suicidara com um tiro de pistola]

À parte de mim, do Joaquim e da Manuela, todos os professores da escola deixaram de falar com o Lourenço. Alguns ficaram-se pelo silêncio (aquele que dói), mas a maioria adornou o afastamento com impropérios lançados à socapa, facadas linguísticas que não permitiam resposta. Isto não chocava o Lourenço, só confirmava a sua melancolia. Ainda tentou uma resposta interior com um sintagma que viu escrito nas costas de uma cadeira de sala de aulas: “Lambe-me o cu”. Mas depressa se cansou desta táctica pífia, sem confrontar directamente os interlocutores permanece-se no solilóquio autofágico. Para completar a perseguição, lá veio a ordem da Direcção para que fosse ter “com eles” a meio de uma manhã de Exames Nacionais. Depois de entrar, fecharam a porta (mau sinal). A Directora, aquela mesma que tinha engolido o seu esperma, cornucópia inesgotável de humores contraditórios e vestuário “arrojado”, tomou a palavra, a bem dizer mais ninguém falou.

– Afinal, Lourenço, tudo não passou de um grande equívoco, não foi?

– Como assim? – Atreveu-se a perguntar Lourenço.

– Não percebeste a pergunta, queres um desenho? Tu és tanto herói como eu uma amazona.

Lourenço lembrou-se do cheiro intenso da sua vagina húmida, de como o tinha chupado, de ter tido vontade de vomitar quando lhe encostou a cabeça à barriga. Uma angústia muito superior a esta chamada de atenção moral.

– Lourenço, criaste muita perturbação aqui na escola, fomos e somos o centro das atenções, isso não é bom para o clima pedagógico.

– Porquê? – Ah, Lourenço, não se deve pedir explicações às tiradas retóricas.

– Porquê? Ainda perguntas porquê?

– Claro, não percebo a acusação. – Ainda mais Lourenço? Não sabes ficar calado, foste à Direcção para levares nas orelhas, não para um confronto de perspectivas.

– Não percebes?! – gritou a Directora. E continuou, és parvo o quê? Todos os dias a aturar jornalistas, os pais a caem-nos em cima, os colegas desconcertados...

– Não sou parvo, ou pelo menos não tanto quanto isso. Não vejo é razões para este histerismo, nem para o anterior, aliás. Eu só quero que me deixem em paz, percebes, deixem-me em paz! Tu, os colegas e os jornalistas. Deixem-me em paz!  – Virou costas e foi-se embora. E este talvez tenha sido o primeiro verdadeiro acto heróico à escala do Lourenço.

No dia seguinte foi à praia, como sempre a São João da Caparica, e curvou-se, como de costume, perante a beleza de ondas fortes (pouco habituais naquela zona), capazes de limpar todo o desassossego que o consumia. Ficou apenas a vontade de continuar a acelerar o processo, pedindo a algo mais vasto do que ele (uma divindade qualquer) que o apoiasse. A sua distância crónica em relação ao mundo estava mais do que nunca num ponto sem retorno. Mas os deuses são incapazes de assombro, por defeito mais do que por virtude.