9 IHAS e muitas nuvens.

"There is a land called lost

at peace inside our heads"

- Geoffrey Hill.

"Serenata" - Poema de Antero de Quental
"Canção da Mãe" - Poema de Violante de Cyneiros.
"Oração da Manhã" - Poema de Vitorino Nemésio
"A defesa do Poeta" - Poema de Natália Correia
"Gato Nocturno" - Poema de José Martins Garcia
"Conquista" - Poema de Eduíno de Jesus
"Mercado da Ribeira Grande" - Poema de João Miguel Fernandes Jorge
"O grito de Munch, revisitação II" - Poema de Emanuel Jorge Botelho
"o sol rasga a miragem das algas" - Poema de Leonardo
"Primeira Conjugação - 1" - Poema de Pedro Braga Falcão

Vítor Teves - Ribeira Grande, Norte da ilha de S.Miguel, Açores.


Vox propria (Um homem e um pássaro de barro)

Vox propria (Um homem e um pássaro de barro)
Pedro Braga Falcão

Estava à espera deste momento sabes

há anos ou já há tanto tempo que o tempo

tem ângulos ou um calafrio ou morto

há anos levava tempo demais

posso tratar-te por tu deverei?

tempo demais para te fazer ver aqui fingido

aqui bem fingido como a minha letra que te afaga

e te ilude e te deforma e te escrutina

tinhas ou tens porque para quem escreve é o mesmo

já muito tempo e pegas numa coisa de barro

e finges que é um pássaro ou ao contrário

quem sabe agora que estás escrito bem podiam

ser todas as aves do mundo ou um deus

que decidiu descarnar num voo de elefante

e rebentavas a tarde com o cheiro de um pássaro

de barro ou o seu som tão cheio de água

como outra coisa qualquer tinhas barros nos lábios

e um pássaro que se diria mecânico se voz tivesse

e mesmo junto por cima por dentro ou ao lado

centenas milhares ou mesmo duas ou uma

criança parecia que ouvia um pássaro de barro

e olhava e contava a mesma história dos pais

tenho de ter aquilo por aquilo e a tua mulher

porque tens sempre uma mulher que ainda não morreu

não percebes estás aqui fechado estás aqui no barro

fingido em qualquer recuo da rua em qualquer criança

que te crava o olhar com a mesma força

com a mesma força com que forjaste o teu banco

da tua mulher que puseste junto ao parque no infinito

da queda como se parasses todos os momentos

todos os momentos do barro numa ave entre crianças

entre berros entre birras e as cultivasses com o seu voo

que as aves o seu canto há muito tempo

seriam anos ou dias ou segundos ou o mundo

já há muito tempo eram barro cozido

domesticado reduzido aos teus lábios que o sopravam.

(Olivier Messiaen, Livre d'orgue: No. 4, Chants d'oiseaux)

 

MUSAS

"Metamorfose" - Poema de Luiza Neto Jorge
"Poema" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andersen
"O viajante" - Poema de Rosa Maria Martelo
"Vice-Versa" - Poema de Inês Lourenço
Poema de Rosa Alice Branco
Poema de Elisabete Marques
Poema de Andreia C. Faria
"Café Drama" - Poema de Tatiana Faia
"Incéndio Interior" - Poema de Francisca Camelo
Itinerant Musicians, Roman, Late Republican period, 2nd-1st century B.C. H.jpg

Músicos itinerantes, Mosaico Romano, Séculos II - I d.C.

3

Escrevem, desenham, fotografam
esculpem, filmam, tudo reinventam
e esperam que esses nados vivos
feitos de matéria morta (Wyndham Lewis
assim o disse) vivam para sempre. Mas
não têm conta os poemas desaparecidos
as canções esquecidas, as estátuas
apeadas, histórias desfeitas
pelo fogo e pela água,
casas destruídas
onde as chamas devoraram
o cerne das gavetas;

não têm conta as fotografias destingidas
o celulóide ardido, os dados apagados por engano
nos jogos de fortuna e acaso que nos regem,
às coisas vivas e mortas.

Há nisto menos fracasso
do que seria de esperar. Gostávamos
de ter lido mais Safo, e todavia
tudo parece estar certo, mesmo assim.
Mais leve, pelo menos.

Um minuto de silêncio
por quantos na linha do tempo
se perderam
com todos os seus pertences;
e outro ainda, por até a linha do tempo
perdermos tantas vezes

"Tira-me este ecrã da frente e"

Tira-me este ecrã da frente e
traz-me um
lápis e um papel para
traçar um risco e depois
parar
pairar
como as avós nos seus sofás
um dia inteiro
em loop
a primeira letra do nome de um amor    
vindo à baila 
a pé coxinho e já
não se lembra
só que fazia calor
ou então muito frio, depende
da geografia de que queres saber
aqui só está mesmo o naperon 
pousado ele também

pois sentada é justamente uma boa posição
para não enlouquecer
olhos em frente, passos em redor
o doutor do outro lado do ringue
ou um filme de maxilar anquilosante
uma estaca aqui plantada sou
esgrima, sono,
lago ou fogo de artifício
tudo pode ser

no fim do dia
mãos vazias
a não ser pelas cascas de batata
salvadoras no seu descascar
os pulsos rodam, a lâmina desliza
o produto do motor é rapidamente concretizado
manuseável, precioso por um segundo
pronto para a varinha mágica que o
desfará
já está, agora limpar e
fechar a gaveta
fumar um cigarro que nunca acontece
porque ontem deu na televisão uma
emissão sobre o fetiche
a atribuição do desejo a um objecto
como se fosse um recurso estilístico
dos dias e das mãos
não é batata mas ocupa
e teatraliza o espelho
o mesmo do cabelo que cresce
cresce
e sai da moldura
ocupa a sala envolvendo os habitantes
que não estão

antes:
quantas áfricas, navios
plantações de geada
chícharos, café
exóticos congos e jindungos
o terço na mão e o costume de
papelote português debaixo
da saia e nas patas dos
frangos muito chiques
quantos cinemas arejados do
modernismo tropical
e suspensórios bem penteados,
uma madeixa loira por conhecer
quantos retornos, primeiros de maios
páginas forrando o chão de paris
e cabines telefónicas semanais
quantos quilómetros e termómetros
terra revolta, luz
para que eu chegasse a esta cadeira
que é feminina
que é casual
que é o anti-tempo
que é a mãe sentadamente completa
e o congeminar de um nomadismo
paradoxal erguendo-se na bacia
que a genética me legou, com
mais ou menos ginga, inusitada,
dançante porém raíz

pois sentada é talvez uma boa posição
para enlouquecer
zoom in, zoom out
laboriosos píxeis
ou a supressão das horas que
se virmos bem é tudo o que sabemos ter
ou não sabemos
fingimos, como eu que tendo
a espacializar o tempo e a culpa
situando-me entre um pretexto e um
muro de pedra cheio de musgo
por isso não me encosto
faço figas a que a sorte
me conceda meio de
fazer jus
à fabulosa fusão biológica e
consuetudinária que aqui se deu
parece ficção isto de viver
enceno pois o necessário para
ordenar: papéis de esquisso
contas por pagar
o pai a avisar
e memórias, essas empilham-se
no lava-louças e outras vezes
não, eclipsam-se
e planos, esses pairam até me
apanharem numa esquina
e me agarrarem com
ganas de atenção
atenção às horas
não te atrases
ou pelo menos abre os olhos,
bebe um copo

é a ordem possível, digo
saltando entre as colinas de
tralha em espera
ou sentada
escavando túneis de sentido
ligando os pontos