[em cada novo esboço]

em cada novo esboço

um promontório.

saltamos lado a lado

o mesmo estirador comprido

os mesmos postais do Pompidou

gastos os vazios de Chillida

lápis e catálogos e revistas

que ignoram os nossos olhos baços

em cada novo desenho

um matrimónio.

a minha vida nua

os beijos da tua

como crepitar de fogueiras

raros poemas ameríndios e promessas

o verbo já encarnado

chegaste.

contigo trouxeste a simetria

de dois pelicanos sobre o peito

a alegria de duas ou três

camisas de seda floridas

raras golas amarelas

que ano após ano

me deixam sempre a dúvida:

- o verão não morre em setembro?

Eduardo Chilida - Homenagem a Braque, 1990..jpg

Eduardo Chillida - “Homenagem a Braque”, 1990.

Património

Migalhas muitas e folhas e restos
e periscas que inundam passeios
e caminhos. Palavras assim,
ao abandono, perdidas.
Que não inquietam ninguém,
excepto os doentes
que tudo sentem de modo mais vívido.
Tudo tão volátil
como os textos e imagens
que ficam pelos arquivos
digitais ou físicos, ensimesmados
nas metáforas da selva e do circo.
Isso que, para os mais velhos,
é ainda pura monocromia.
De facto, que seria dos museus
sem estes desperdícios?

Obelisco do Alto da Memória, Angra do Heroísmo. (Pormenor).


ecce homo

há um homem
que atravessa a rua
para comprar pão
que se preocupa com as contas
a pagar no final do mês
há um homem a quem darei lugar
na fila do supermercado
por só trazer com ele
frango grelhado
e um pacote de batatas fritas
talvez lhe dê indicações na rua
quando estiver perdido
para um encontro
ou o avise da mochila aberta
numa manhã no metro
em hora de ponta
quem sabe salvo-lhe um filho
se ele não reparar
que a criança
se aproximava demasiado da estrada

há um homem
com quem me cruzarei
a cidade é pequena
e isso é tão certo
não lhe vou saber a idade
ou como queria ele envelhecer
ou se imaginava algum dia
a que velocidade
faria voar um corpo

não lhe conheço a cara
o nome, preferi também não saber
há um homem que respira
que verá o céu limpo que hoje se pôs
fará as suas plantas crescer
se não se esquecer de as regar
e pouco a pouco
ficará mais perto do chão

sabemos pouco:
há um homem
ele respira
esse homem vivo
que matou alguém que amamos

é este o homem
que fez de nós
árvores perenes da cor da ira,
venham todas as estações
dilúvios bíblicos anos férteis
passem gerações de filhos
casas demolidas antigamente habitadas
esqueçam-se detalhes
de velhas histórias de amor
morram animais dóceis
por mais amados
depois de décadas silenciosos
num recanto doméstico

enquanto um de nós for vivo
seremos sempre estilhaços
de um aperto agudo:
a perpétua busca de alguém
que sem saber
nunca voltaria a casa.

Pousaste em mim (vox propria)

Pousaste em mim (vox propria)

Pousaste em mim. Não te reconheci a letra

navegavas há muito sem que te fingisse

e as velas tinham já desfeito o navio

porque pousaste em mim navegava

ou pensava que andar à deriva é o mesmo

desfizeste-me o rumo antes que viesse

uma tempestade mesmo que pequena

mesmo que imensa mesmo que pousasse

como todas as tempestades repousam em ti

lentas como relâmpagos ou imensas

como a lentidão de uma pétala

ou curtas como o fim de uma estrela

ainda hoje não sei porque pousaste

ou porque não pousaram todas as ruas

todas as rugas do teu rosto ainda hoje

não sei porque morri antes de ti antes que

viesse o sol ou outra estrela anã

desaparecer de mim e me desse um descanso

em que repousasses em mim com prazer

como quando pousas a mão direita

sobre mim e sinto na pele o calor

de uma estrela extinta ou a estrada

em que estava quando ousaste deixar

que a minha mão se desse à tua

com a lentidão de um desejo com pena

com pena tua de te veres sozinha

de repente sem que eu te perguntasse

quando se extingue uma estrela porque me amas

e todos os dias variavas dentro de mim

uma pergunta cabisbaixa antiga remota

porque esperas porque não me tomas

porque não resulta este espaço de sombras

numa escuridão digna de infinito

e de tudo aquilo que os cientistas ainda

ainda não sabem o que é mas repousaste

repousaste na sombra de todas as árvores

mesmo que a sombra nelas não se abrigasse

de toda a chuva que caía de um céu

sem nuvens como todos os relâmpagos

que caem sem que haja luz ou vento

ou sequer os teus lábios que os empurram

com o desastre de todas as estrelas

e as desfazem como o pó delas mesmas

como se o palco as pudesse pousar

sobre os teus lábios que navegam

sem âncora que os possam aportar

nos meus já te disse preciso de tempo

preciso de muitas mais tempestades mesmo

mesmo que surjam muitas depois de ti

muitas depois de mim muito depois de

muito depois de me teres dado a mão

e me teres suplicado nada te peço

a não ser que me libertes e abras a janela

e me digas meu amor vai para a janela

e vê que lá nada pousa ou melhor fica

fica um pouco e logo se abala sabes

sempre disseste abalar como se de facto

o verbo existisse assim tão comovido

que as persianas se fechassem e o porto

se contornasse com sombras de estrela

se é que a escuridão tem estrelas

que apenas não as deixa cair naquilo

que ninguém sabe o que é e à falta de melhor

o vão chamando deus ah como quando

como quando quase te vens e gritas de repente

meu deus e os corpos depois repousam

demasiado rápido porque toda a lentidão

tem estrelas ou não fosse tudo isso inexplicável

eles dizem ainda mas eu digo ainda mais

agora tenho a certeza desta página

deste verso desta linha de ti que agora

me tentas ler com a experiência de um leitor

que repousa os olhos sobre o infinito e descobre

que nenhuma letra interessa senão a tua.