"Ex-vida", de Pier Paolo Pasolini

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Tradução: João Coles

No meio de um ténue fedor de matadouro
vejo a imagem do meu corpo:
seminu, ignorado, quase morto.
Assim me queria crucificado,
num clarão de delicado pavor,
quando era criança, já autómata do meu amor.
Mas por trás desta névoa de medula
(há quantos anos ou séculos aqui imóvel?)
ó Indivíduo, ó Sósia, descobres que és
feito de mim, do meu calor, e hostil
a uma morte anterior à minha.

Eu venho até ti depois de uma viagem inebriante.
Toquei, em dias de plena luz, as paredes
enegrecidas e a relva húmida de Casarsa.
Com um gesto negligente de guerreiro
ofereci o corpo nu ao tempo fresco
antiquíssimo, lânguido, de Meschio,
de Livenza, do Po... Brinquei na orla
de uma grande planície, nos seus prados
tórridos, sob céus intermináveis,
nas casas rejubiladas no seio de um leque
de mil cheiros afectuosos, subtis.

Entro no teu círculo, amargo, fresco
como minha mãe à tarde ao passar
o limiar da porta, emperlada de erva seca,
e trago comigo um vento de paisagens,
uma soberba leveza, uma cândida
coragem de forasteiro. E tu não exalas
senão silêncio. Ó desconhecido que foras tudo:
o rapaz perdido em casa,
o jovem burguês que acalentava
os falsos amores no seu amado coração,
agora és nada, O NADA, o puro erro.

E assim, ó esfomeado, ó desejo obscuro,
com um olhar de eras pré-humanas,
exprimes a tua vida de maníaco.
A tua mania é a vida do mundo.
De mim só pretendes que corresponda
ao teu louco esforço de te anulares,
ignoras todas as atracções do meu século,
todos os feriados, todas as paixões aprendidas
nos anos de uma vida abrasada de si mesma:
não te interessa saber que, no tempo, a eternidade
se oferece a festas quase eternas.

Ignoras também jogos ainda mais vitais:
confessar os desejos masculinos,
o amor pela minha mãe, que TU amaste,
a luz estagnada nas profundezas da noite
da infância...(Ó derradeiro candor
deste meu exibir! E tu ignora-lo.)
Amei somente quem tu odiavas.
Eternizei a minha sombra de jovem
para dela lamentar, ávido, os afectos
cheios de esperança, os ardores de lírio,
que inflamavam a minha carne de filho.

Por ti, num deserto de serenidade,
desonro o pobre segredo
do meu sexo, e, despreocupado, confesso-o.
Não sei por que milagre, sossegado
e enfim honesto, invoco das minhas neuroses
céus puros, lugares inodoros,
onde – como Matéria ou Morte – morres.
Sim, muitas vezes estás morto, e o rapaz
volta alegremente ao ventre, e o mitómano
à branda forma pleno de entusiasmo,
quando apenas a vida lhe resta.

Mas tu, nos confins do tempo, aqui me esperas,
dentro de mim, onde o ventre e os músculos
se contaminam de um fedor ameno de musgo
ou de excrementos; e enquanto uma escuridão nua
de vão de escada ou de bivaque
se adensa, vejo-te, múmia, autómato,
e vês-me a mim. Ó nostalgia mortal
para quem nunca te conheceu, e que ignorando,
ó puro Ser Vivo, as tuas angústias de orangotango,
perdia-se no próprio jucundo destino,
coração desconhecido num mundo desconhecido.

Terezín

Terezín,
onde um lugar vivo assombra as nossas mãos mortas

 

 

Em Terezín toda a merenda
sabe ao vazio que a memória vigia.
Avançamos sobre as salas e os corredores
frios, e dar a mão aos amigos cumpre a inutilidade
de enroscar as torneiras em fila
esperando água,
receber a imagem recuperada,
pela metade, dos homens que por ali resistiam. 

Imagino o que será
beber água nos campos de trabalho,
ou nos de concentração: a terminologia da violência soa mais-que-perversa,
cultiva-nos um pouco por todos os atentados. Urge-nos.
Como se houvesse distinção quando a sede já não é a forma elementar imperativa
da força humana.
Por baixo de um drama subjaz outra e outra amputação.
Um crente andrajoso, arrastando-se na mão de deus. 

A água embutida no sal conservava a garganta carcomida.
Baratas estariam de acordo: rápido, indolor,
mais do que a água
jorrante de mentira. 

Talvez aqueles homens que vergavam a cabeça para
que lhes pingassem na boca uns quantos pingos
escassos
de água
procurassem a morte pela fenda,
a vitamina fatal dos inocentes. 

A água mata em Terezín, a água mata quando não
mata a sede. 

Se não acreditam que mesmo os mais malévolos
eram, prisioneiros dos campos nazi, a mais pura das formas
minguando,
convido-vos a sair desta casa,
e a bater à porta de alguém para quem a água
ruma sempre a uma forma de vida. 

Em Terezín, fevereiro de 2016,
engasguei de não haver secura bastante para limpar
a história húmida calada dos tijolos bem alinhados,
serpente sem tempo, roendo-nos os pés acolchoados. 

Chegámos a uma vala,
“aqui fuzilavam os prisioneiros”.
Mas não era um campo de morte,
mas não era um campo de concentração.
Eram só uns tiros,
e a água que matava jamais a sede. 

De volta a Praga, no autocarro,
pude detestar o homem checo
que grunhia — achou que não merecêssemos a língua dos homens,
achou-nos dentro demais do nosso fora bárbaro,
e retumbantes no valor de um bilhete de volta.
Talvez tenha entrevisto uma fraqueza na discórdia,
um golpe de estado na melodia estranha.
Comentei isso com os meus colegas.
Falámos.
Matámos alguma sede.
Procurámos respostas e
conseguimos alguma coisa que fez a duração da paz. 

Chegados ao nosso destino,
de volta ao nosso quarto de hotel,
disse que amava quem amava,
e soube que não havia nada mais frágil que essa liberdade
de dizer “odeio-te” para dizer “amo-te”,
compreendendo, ou não, o que a nós
nos não querem jamais confirmar. 

Hoje deixo que Terezín cresça na ponta dos dedos.
Lembro-a crepuscular quando uso o corpo
para acenar ao trilho escolhido.
Penso, sobretudo, que não há máximas na estrada,
apenas vontades antigas.
Que só persiste a liberdade
— ela não é, ela está na corda bamba das mãos bambas —
quando aprendermos que nada há a confirmar.
Que a memória é a velocidade mais ou menos acidental
de um automóvel sem travões.
É na viagem que escrevemos,
em cada paisagem esquecida, 

o torso quebrado que nos calha que nos perscruta que nos obriga
a ter sede.

Perfil de Maria Brás Ferreira aqui.

Depois das Cinco

Chegar a casa e merendar, leite achocolatado, uma sandes de fiambre e queijo,

Não havia intolerâncias, o sol punha-se na janela, lentamente, a eternidade

Além das cortinas que a mãe tricotou, ouviam-se os garotos que esperavam

Os autocarros que os levariam às respectivas aldeias, que mais tarde se acendiam

Nos montes do horizonte escuro, amanhã seria um dia certo, custava a geada,

As primeiras horas de casaco e luvas, mas havia sol nos intervalos,

Estávamos inteiros, ainda longe de nos tornarmos nos homens

Que o destino faria de nós, a geada onde o Sol não chegava, permanecia

Por várias semanas, esperando a primavera, que chegaria sempre,

Mais um dia acabava, caminhava-se para casa antes de cair uma nova geada,

Um subia pelo adro, outro descia pela rua até ao fim do bairro,

Até amanhã, certos como a vida, o sangue jovem e imortal que tínhamos,

Sem imaginar primaveras impossíveis, que não chegariam a todos,

Sem pensar em cemitérios onde erva nova crescerá, porque sempre cresceu.

 

Turku

 

22.01.2021

[O sol crepita no zinco do barracão]

O sol crepita no zinco do barracão.
Os cães espumam encarniçados.
Um vespeiro zumbe na sombra.
Uma foice pende de um prego –

o cabo está rachado,
e a lâmina, romba,
funde-se sob o verdete.
Ulcerado também o prego.

Os ratos urinam pelos cantos.
As batatas apodrecem nas sacas.
O bafio emana das arcas.
Os morcegos oscilam nas vigas.

Decénios de pó acumulado
no chão de terra batida.
Aranhas que disputam as moscas
às osgas e aos morcegos.

Uma brisa salobra desliza
pela frincha do portão,
riçando bolores que foram frutos:
nêsperas, ameixas, pêras, limões.

Ao fundo, no alguidar reluzente,
boia afogada uma ninhada de gatos.
A mãe, ainda jovem, enrodilhada
nos pés da dona, mia, esfaimada.

Seltzer

 

1.

Aqui está o meu quarto, sorrindo como uma floresta

de umbigos                       contudo, em segredo

                                                               tão triste e imundo.

 

2.

respira fundo o suficiente e estamos possessos.

respira novamente e estaremos perdidos.

 

3.

a melhor coisa de hoje

é a ideia do amanhã.

                               faremos um piquenique.

 

4. quem pode argumentar com 6000 andorinhas

voando de uma nuvem única,

                                                               como alegria.

 

5. quando morrermos poderemos ver a Virgem Maria

sentada diante do pai, do filho, e do Espírito Santo

 

agora mesmo contento-me contigo

com o teu soutien desapertado     (sob uma árvore)

no ferryboat da Staten Island.

 

Jim Carroll