Quatro Poemas de Samuel Beckett, traduzidos do francês pelo autor

Tradução de Hugo Pinto Santos

1. Dieppe

torna derradeira maré vaza
morto seixo
a volta logo os passos
rumo à vila sob a luz

 

2.

o meu curso é na areia fluida
entre seixo e duna
chuva de verão chove-me na vida
em mim vida que me segue me foge
até ao cabo até ao rabo

a minha paz ali está na névoa a recuar
onde eu possa não mais dar estes passos longos em limiares fugidios
e viva o espaço de tempo de uma porta
que se abre e se fecha

3.

que faria eu sem este mundo sem rosto sem curar de nada
onde ser não dura mais que um instante onde cada instante
verte no vazio a ignorância de ter sido
sem esta vaga onde por fim
corpo e sombra juntos se engolfam
que faria eu sem este silêncio onde murmúrios morrem
ofegando fremindo rumo ao auxílio rumo ao amor
sem este céu que se eleva
acima do pó da sua gravilha


que faria eu que fiz ontem e antes
espreitando da minha escotilha buscando outrem
vagando como eu na corrente alheio a toda a vida
num espaço convulso
por entre as vozes afásicas
que se aglomeram no meu covil

 

4.

Queria que o meu amor morresse
e chovesse sobre as campas e
sobre mim cruzando as ruas de
luto pelo primeiro o derradeiro amor

 

Four Poems by Samuel Beckett

1. Dieppe

again the last ebb
the dead shingle
the turning then the steps
toward the lighted town

2.

my way is in the sand flowing
between the shingle and the dune
the summer rain rains on my life
on me my life harrying fleeing
to its beginning to its end

my peace is there in the receding mist
when I may cease from treading these long shifting thresholds
and live the space of a door
that opens and shuts

3.

what would I do without this world faceless incurious
where to be lasts but an instant where every instant
spills in the void the ignorance of having been
without this wave where in the end
body and shadow together are engulfed
what would I do without this silence where the murmurs die
the pantings the frenzies toward succour towards love
without this sky that soars
above its ballast dust

what would I do what I did yesterday and the day before
peering out of my deadlight looking for another
wandering like me eddying far from all the living
in a convulsive space
among the voices voiceless
that throng my hiddenness

4.

I would like my love to die
and the rain to be falling on the graveyard
and on me walking the streets
mourning the first and last to love me

Ésquilo, Coéforas, 585-630

Coro das Coéforas na  Oresteia encenada por Peter Hall (National Theater, 1981)

Coro das Coéforas na  Oresteia encenada por Peter Hall (National Theater, 1981)

estr. 1

Coro (cantando:)

A terra cria muitos seres
     temíveis, causa de medo e dor,
e os braços do mar
de monstros hostis
estão repletos; entre o céu e a terra as tochas[1]
no alto ferem
as criaturas aladas e as que caminham sobre a terra: elas podem
falar do ressentimento ventoso das tempestades.[2]

 

ant. 1
Mas do espírito excessivamente audaz
     do homem quem pode falar
ou das paixões da mente ousada
da mulher, capazes de tudo ousar,
parceiras nas desgraças dos mortais?
Os laços que unem o casal
a perversa paixão que domina a fêmea[3] desfaz,
tanto entre as feras como entre os homens.

 

estr. 2

Ficará a sabê-lo aquele cuja inteligência
     não voa longe
ao conhecer o desígnio que a destruidora do filho,
     a miserável filha de Téstias[4]
     
formou,
mulher que premeditadamente ateou o fogo,
     
incendiando o tição cor de sangue
da mesma idade do filho, desde que ele saiu
     
do ventre materno e chorou,
medindo a vida deste pela sua
até ao dia marcado pelo destino.

 

ant. 2

Uma outra há nos mitos para se detestar,[5]
     
uma donzela
manchada de sangue, a que tomou o partido dos inimigos
     
e matou o próprio pai,
     
persuadida
por um colar cretense
em ouro forjado, dádiva de Minos,
privando Niso do cabelo
imortal, quando ele, desprevenido,
no sono – cadela sem coração! – exalava um sopro.
E Hermes alcançou-o.[6]

 

estr. 3

Uma vez que recordei feitos
desapiedados, não distinto é o casamento odioso
     e abominável para a casa[7]
e os desígnios e maquinações de uma mulher
contra um homem que brandiu armas,
†homem respeitado até pelos inimigos†.
Honro o lar onde a lareira não é acendida pela paixão
e a lança da mulher não ousa.

 

Edição utilizada: M. L. West, Aeschylus, Choephoroe, Teubner, 1991.

[1] Provavelmente meteoros ou cometas.

[2] Esta estrofe está pejada de problemas textuais e o texto traduzido é bastante incerto.

[3] Expressão ambígua. O adjectivo θηλυκτρατής (thêlyktratês), que só ocorre neste passo em toda a literatura grega e que se traduziu por «que domina a fêmea», pode também significar «de uma fêmea dominadora» ou «pela qual a fêmea domina».

[4] Alteia, mãe de Meleagro, quando este nasceu ela foi informada de que o filho morreria quando o tição que então ardia na lareira fosse totalmente consumido pelo fogo. Ela tirou o tição da lareira e guardou-o numa caixa, mas mais tarde devolveu-o ao fogo, quando Meleagro matou os irmãos numa disputa.

[5] Cila, filha de Niso, rei de Mégara. Quando a sua cidade foi sitiada por Minos, rei de Creta, ela cortou a madeixa de cabelo que conferia imortalidade ao pai e sem o qual ele não podia viver, a troco de um colar de ouro, causando assim a sua morte.

[6] Hermes guiava as almas dos que morriam até ao Hades.

[7] O casamento de Clitemnestra com Egisto.

Imagem de Natividade

Geoffrey Hill

Tradução de Hugo Pinto Santos, 

para Tatiana Faia

 

Salvo do mar, aglomerado de detritos marinhos,
Vigas, quilhas, feridas de coral,
Rostos remotos, óleos efémeros,
Jorrados no mar alto do mundo,

Um rei-menino mudo
Alcança o seu posto; detém-se,
Incólume, entre lábeis serpentes; garras
De animais que a carne amacia. No congresso

Da privação torpe e banal,
O artista parece prestar culto
capitular; confirma a intimidade
Dos galardões; crê nos seus próprios olhos.

Acima do prodígio, toda a mente,
Densa, anjos, asas desnaturadas em riste,
Regelam num gesto
que lembra os mortos.

poema originalmente publicado em For the Unfallen (1959)

Read More

4.

Saint-John PerseAmers, Strophe 1-4

Tradução: João Moita

Daí vinhas, riso das águas, até às dependências do latifundiário.

Ao longe o aguaceiro atravessado de lírios e de foices luminosas abria para si a caridade das planícies; os porcos selvagens remexiam a terra com máscaras de ouro; os velhos assaltavam à bengalada os pomares; e por cima dos vales azuis povoados de latidos, o corno breve do vigieiro reunia-se ao anoitecer à vasta concha do peixeiro… Os homens tinham um verdelhão amarelo numa gaiola de vime verde.

Ah! que um mais amplo movimento das coisas na sua margem, de todas as coisas na sua margem e como vindo de outras mãos, nos alheasse por fim da antiga Maga: a Terra e as suas bolotas fulvas, a pesada trança de Circe e as sardas da tarde em marcha nos abrunhos domésticos!

Uma hora ávida ruborizava-se nas lavandas marítimas. Os astros despertavam na cor das hortelãs do deserto. E o Sol do pastor, no seu declínio, sob os apupos das abelhas, belo como um encolerizado nas ruínas dos templos, descia aos estaleiros em direcção aos tanques da querenagem.

Lá se avinhavam, entre os homens de trabalho e os ferreiros do mar, os estrangeiros vencedores de enigmas da estrada. Lá se excitava, antes do anoitecer, o odor a vulva das marés baixas. Os fogos de asílido enrubesciam nos seus cabazes de ferro. O cego descobria o caranguejo dos sepulcros. E a lua no covil das pitonisas negras

Embevecia-se com amargas flautas e com clamores de estanho: «Tormento dos homens, fogo da noite! Cem deuses mudos sobre suas mesas de pedra! Mas o mar para sempre atrás das vossas mesas de família, e todo o seu perfume de alga da mulher, menos insonso que o pão dos sacerdotes… Teu coração de homem, ó transeunte, acampará esta noite com as gentes do porto, como um caldeirão de chamas rubras sobre a proa estrangeira.»

Advertência ao Mestre de astros e de navegação.

Read More

Jo Shapcott, Da Mutabilidade

Tradução de Hugo Pinto Santos

Demasiadas das melhores células do meu corpo
estão irritadas, encrespadas, sensíveis
a este frio de Primavera. Estamos em dois mil e quatro,
e eu não conheço uma única pessoa que não se sinta pequena
por entre os números. Devastadoramente pequena.

Olha para baixo destes dias e vê
que os teus pés desconfiam do passeio e as tuas análises ao sangue
põem uma expressão carregada no rosto do médico.
Olha para cima e, pelo canto do olho,
encontras eclipses, folhas de ouro, cometas, anjos, candelabros,
junta-te a eles, se quiseres, aprende astrofísica, ou 
música folk, sacrifícios humanos, a mortalidade,
aprende a voar, a pescar, o sexo com pouquíssimo contacto.
Só não te dês ao trabalho de procurar um destino que não seja o céu.

Jo Shapcott, Of Mutability, Faber and Faber, 2010

 

Read More