Peter Reading, Sem Título

tradução de Hugo Pinto Santos

autocarro 53 aproxima-se do término;
velho inglês, asseado e sartório,
enfarpelado num tweed Manx, cinzento de uma operação bem aparada:

Demasiadas coisas erradas, uma sugestão de Gibbon,
escolaridade e pão e roupa e maneiras,
o declínio da era, tristezas de Elgar;
demasiadas coisas erradas, coração podre e insónia,
úlcera e hipertiroidismo,
é concebível no espaço de uma vida o fim do mundo,
voo de pardal breve pelo pálio do festim.

 

Peter Reading, Evagatory, Chatto & Windus, 1992

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Saint-John Perse, «Amers», Estrofe-III-2

Saint-John Perse, Amers, Estrofe-III-2

Tradução: João Moita

«Mas erguemos ainda os braços em honra do Mar. Na axila açafroada toda a especiaria e o sal da terra! – alto relevo da carne, modelado como uma virilha, e ainda essa oferenda da argila humana de onde irrompe a face inacabada de deus. 
«No hemiciclo da Cidade, onde o mar é o palco, o arco tensoda multidão ainda nos sustém na sua corda. E tu que danças a dança da multidão, elevada fala dos nossos pais, ó Mar tribal na tua charneca, serás tu para nós mar sem resposta e sonho mais longínquo que o sonho da Sarmácia?
«A roda do drama gira na mó das Águas, esmagando a violeta negra e o heléboro nos sulcos ensanguentados da tarde. Cada vaga ergue para nós a sua máscara de acólito. E nós, erguendo os nossos braços ilustres, e voltando-nos ainda para o Mar, na nossa axila alimentando os focinhos ensanguentados da tarde,
«Por entre a multidão, em direcção ao Mar, nós nos movemos em multidão, com esse amplo movimento que emprestam à ondulação as nossas amplas ancas de camponesas – ah! mais telúricas que a plebe e que o trigo dos Reis!
«E também os nossos tornozelos estão pintados de açafrão, de múrice as nossas mãos em honra do Mar!» 

Sophie Hannah, O Bom Perdedor

Tradução de Hugo Pinto Santos

Retratei a tentação como um prazer.
Agora ele pode abster-se ou fraquejar.
O seu é um modo superior de perder
E o meu, uma espécie inferior de ganhar.
O sacrifício, e aquela restrição
Que aceita passarão por este debate intactos,
Pois o seu é um modo superior de ficção
E o meu uma espécie inferior dos factos.
Mostrei a faceta mais encantadora
E ele a menos, mas o jogo estranha, pois
Eu sou um tipo superior de criatura
E ele um tipo inferior de deus.
E se ele romper tudo comigo, abrupto
Dele é o livro cuja folha vou arrancar,
Pois o dele é um modo superior de luto
E o nosso um tão inferior tipo de pesar.


Sophie Hannah, Hotels like Houses, Carcanet Press, 1996

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Sean O’Brien, O Parque junto à Linha Férrea

Tradução de Hugo Pinto Santos

Onde havíamos nós de nos encontrar senão neste parque em tão mau estado
Onde as cercas estão a menos e os ramos das árvores negros?
Pastoral da indústria, nosso circuito
De relva debaixo de cinza, água há tanto tempo parada
E pores de sol sem qualquer importância que se acendem
Por cima da feira meio desmantelada. O nosso lugar
De entrementes, viadutos abandonados
E flores modernas, docas e arbustos,
Rafeiros perdidos, o cantar de aves arranhando a fuligem
Do século passado. Onde havíamos nós de estar
Senão aqui, minha rapariga industrial? Em que outro lugar
Senão nesta cidade aquém da conservação?
Ganho um anel para ti na carreira de tiro
Pela vigésima vez, mas tu escolheste
Um inverosímil peixe amarelo num saco
Que seguras de lado enquanto te beijo.
Sentados na sala de espera às escuras
Junto à lareira de ferro fundido,
Com o derradeiro calor que o tijolo permite,
Não totalmente convencidos de que não haverá mais comboios,
No fim do Verão que nunca começou
Até que o perdemos, e nem podemos crer
Que nos vamos embora. Mal dizemos uma palavra, e já partimos.
Acendes um fósforo para me mostrares o mapa de porcelana
Dos caminhos-de-ferro que seguiam diante de nós.
Carvão e política, décadas invisíveis
De chuva, amor doméstico, fábricas em decadência
Que fecharam numa guerra e depois noutra,
Esbatem-se até se tornarem aquilo que somos: dois jovens
Delicados incapazes, os nossos bilhetes comprados
Com muito tempo de avanço, não passaremos fome, nem morreremos
Excepto da escolha. Não podíamos ter escolhido
Viver este funeral, último Agosto legado
A ninguém pelos mortos, nossos fantasmas.

Sean O’Brien, The Indoor Park, Bloodaxe Books, 1983

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