Notas sobre Friedrich Nietzsche (o caminhante inactual)

Nietzsche por Edvard Munch

Nietzsche por Edvard Munch

Quem pensou o mais profundo, ama o mais vivo.” (Hölderlin, Sócrates e Alcibíades)

Há um toque metafísico no “inactual” de Nietzsche (conceito que ganhou lastro com a publicação das quatro Inactuais, Unzeitgemäße Betrachtungen, 1873-1876), ou no mínimo uma recusa em permanecer refém do tempo capturado pelas ninharias do dia-a-dia (ser inactual é pôr em perspectiva o presente, confrontando-o com passado e o futuro, agarrando um qualquer tipo de eternidade). Mas, leitores de actualidades, onde podemos encontrar hoje protecção contra o dilúvio de informações tóxicas despejadas sobre o mundo (e não são apenas as fake news)?

Separar-se do ruído de massas histriónico para higienizar a mente (logoterapia), quem consegue pensar sacudido por rajadas de discursos irrelevantes, axiologicamente igualitários, onde o bom se perde na amálgama quantitativa que nivela e atrofia? O meu reino por uma comunicação viral, fama efémera, sem o tom iconoclasta que lhe imprimiu Andy Warhol. Liturgia para massas. Nietzsche criticou o igualitarismo rousseauniano, ainda por cima falso (julgava-se meio-génio), por ter destruído as boas hierarquias: valores, gostos, pensamentos... ficaram dispostos horizontalmente, dinamitando o vislumbre de uma civilização adequada aos “espíritos livres”, cheia de embriaguez trágica, contendo sempre mais vida do que morte. Uma cosmologia fisiológica. Uma teodiceia do corpo e da Terra. Um fatalismo não ataráxico e resignado, amor fati dionisíaco e alegre. É por isso que o solitário de Sils-Maria preferia Voltaire, a quem dedicou Humano, Demasiado Humano (1878-1880), a Rousseau (apesar de se encontrarem no gosto pela solidão, única condição de exaltação pessoal, e nas caminhadas vitais). Voltaire tinha uma nobreza de espírito (“noblesse d’esprit”), um estilo refinado, gosto linguístico, mas também bom humor (para Nietzsche mais importante do que se pensa) e recusava visceralmente as crenças religiosas, reino das boas consciência estupidificadas.

O estilo aforístico nietzschiano revolta-se contra o pensamento pesado e longo, fastidioso, empenhado em fabricar demonstrações tão completas que o leitor, ainda a meio do texto, sente que já pode morrer. Pelo contrário, ele exige um leitor activo e inventor. Reafirmar este tipo de pensamento parece uma pequena nota de rodapé na história da filosofia. Mas, na verdade, a mim afigura-se-me mais como um milagre dionisíaco, encontrar um pensamento simultaneamente tão lúcido, preciso, rico, intenso, veloz e irónico... é uma bênção rara, raríssima. E depois, mesmo quando tudo lhe parece irremediável, combate o niilismo que preenche cada bolsa de ar do Ocidente (ele próprio se considera niilista), hoje e sempre, pelo menos desde que Sócrates justapôs a verdade e o bem, secundado depois pela devoção quase erótica do cristianismo pelos mais fracos (que finalmente, pelo número, se tornaram os mais fortes: “É preciso amar sempre os fortes contra os fracos”, “Anti-Darwin”, Fragmento Póstumo, 1888). Nietzsche nunca se cansou de compor hinos à vida, sem cariz metafísico, à vontade de viver, que é sempre auto-superação, de cada um dos impulsos orgânicos. Contra a ascese cristã, escreveu milhares de páginas sobre uma espécie de religião da vida onde se louva sem reservas a Terra. Zaratustra é o profeta de outro homem e de outro tempo, o sobre-homem e o eterno retorno, que vão habitar o novo mundo sem Deus, isto é, sem qualquer cântico que chame permanentemente o Além e disponha uma tábua de valores que impõe uma consciência triste. É a vitória da vida (como vontade de potência, não há nele nem metafísica, já o disse, nem um biologismo redutor, tanto mais que Prometeu, Édipo ou Antígona venceram, afirmaram-se pelo aniquilamento exemplar, a vontade de potência sobreviveu à morte biológica, e continua a arrepiar-nos sempre que os lemos ou vemos representados, bastando para isso proteger-se do “dilúvio” que referi acima).

Como pôde, repito, acontecer este milagre? Hipótese: porque Nietzsche deixou a Universidade, porque era um bom filólogo e porque tinha um pensamento temerário, intrépido e lúcido. Haveria, pois, de denunciar os próprios limites da razão (sem o semi-deus ex machina kantiano), percebendo desde muito cedo que só conseguia pensar bem enquanto caminhava, decretando que o corpo passaria a ser a “grande razão” (sem hipertrofia racional, defendendo continuamente um processo diferente de produzir verdades pelo jogo dos instintos, o logos nietzschiano nunca apaga o enigmático), ele foi o pensador mais cintilante do século xix, um fluxo de raios contra o torpor crítico. Descobrindo como o niilismo percorre, depois de Sócrates, toda a história da humanidade, que há outros valores além dos velhos e viciados bem e mal, compaixão, humildade... e que o homem vai desaparecer para que nasça o sobre-homem, solitário (por isso é inconcebível colocar Nietzsche no fascismo de massas nazi) e legislador, não um fazedor de leis para os outros, mas um ser reservado que se vai compondo a si mesmo, ciente das linhas de fuga que não o deixam petrificar, mantendo vivo o trabalho de se tornar aquilo que é (o célebre “torna-te aquilo que és”).

Nietzsche nunca quis, e esta é uma das críticas mais frequentes, prolongar as queixas dos oprimidos (Guy Debord: “ceux qui sont toujours prêts à prolonger la plainte des opprimés”). Detestava, sem remissão, os predicadores da morte, que medram no reino da vitimização. Instigadores da escravatura voluntária (“antes querer o nada, do que nada querer”, Para a Genealogia da Moral, III), a vida vivida como desvanecimento. Por isso, a questão irremissível que se levanta quando se lê Nietzsche com alguma lentidão (a boa lentidão filológica, ruminar paciente) é acerca do nosso estilo de vida. Nietzsche não saiu dessa interrogação durante, pelo menos, os últimos anos da década de 80, tudo o que pensou e escreveu nesse tempo prendeu-se com a pergunta “que faço eu da minha vida?” Ecce Homo, autobiografia evangélica (um evangelho pagão, “é preciso renaturalizar o homem!”, diz o autor frequentemente), celebração de si mesmo, concluído imediatamente antes de cair na loucura, é um auto-elogio sincero (não enuncia sobranceria ou confusão mental), um “valeu a pena viver esta vida!” Tanto que, enquanto mestre do tempo do eterno retorno, “quero vê-la retornar infinitamente”. Relembremos que nos últimos dez anos de vida mental activa, Nietzsche caminha quase todos os dias, várias horas, ora nos Alpes, ora em Turim, ora nos montes por detrás de Nice, ora... Nietzsche é um caminhante obsessivo (“a minha única forma de existência possível – fazer caminhadas”, carta a Peter Gast, 1879). É isso que lhe permite escrever as grandes obras da década de 80 (Gaia Ciência, Zaratustra, Para Além Bem e Mal, Anticristo, Crepúsculo dos Ídolos, Ecce Homo, e um sem número de notas que, com toda a certeza, dariam lugar a mais um livro, não, noutros termos, à montagem pérfida que a irmã fez de A Vontade de Potência, mas a um onde a arte viesse conjurar todo o niilismo mortífero, fechando assim o círculo que iniciou em O Nascimento da Tragédia, 1872). Outra forma de propor uma teodiceia dionisíaca, encenada a partir das velhas tragédias gregas (Ésquilo e Sófocles), conjugando o vital e o sublime. Escreve enquanto caminha, escreve a toda a hora, em qualquer lugar, mas sobretudo quando lança uma perna atrás da outra, músculos retesados, porque “só os pensamentos que temos enquanto caminhamos valem alguma coisa” (Crepúsculo dos Ídolos, 1888). Escreve linhas extraordinárias e ninguém percebe, a indiferença é quase total, “alguns nascem póstumos”. Está tudo ocupado a produzir moraleira, tricotando o bem e o mal para os últimos homens (a acreditar em George Steiner, George Orwell quis chamar a 1984 O Último Homem na Europa). Enquanto ele revela o fundamental para termos uma vida que valha a pena, uma vida terrena, agarrada à Terra, mas sem raízes, para podermos exercer um nomadismo vital, para, como o “grego dionisíaco, querermos a verdade da natureza em toda a sua pujança.” (Nascimento da Tragédia). Para nos esquivarmos das setas envenenadas (com o pior dos venenos: o anodismo) que caiem sobre o presente.

Exactamente uma hora menos dez pássaros

Ao segundo passa e se conta à boca fechada, sempre pela direita enquanto não houver outra distracção. Se sai desta localidade em linha recta, por carril. Se fundem paralelos, logo desaparecem do fim para o princípio de alguns veículos próximos de um silo estacionado na paisagem abandonada. Encostas barbeadas com a raiva do pulso que não sossega, até ver sangue por si escrito numa disposição seca. A sombra que faz uma arquitectura de passagem inferior à localidade, outra, apontamentos de usos e costumes publicitados na badana dos caminhos. Matéria descendente, o banco estreito se desagua ao lado de um tubo de queda gravítica. A solidão dobrada pela calandra pessoalíssima de cada uma das pessoas que, assim, se procuram pelo engano das lentes. O rosto dissimulado pela tampa de uma caixa de visita, impresso na profundidade de uma criança. Perturbação, azáfama de contornos. Construções em quartel. Complexo de bombeiro, uma piscina abandonada pela memória líquida. Volume preenchido, ao centro. Alto rendimento. O nome do atleta descalço por conveniência ao terreno que pisa. O corpo uma zona industrial desmantelada, a parte que pertence ao mar foge para um ponto longe. Reunião imóvel de sacos bem fechados, dentro se leva dessa cortiça expandida pelas lágrimas abandonadas para fora de vidros em movimento. Cobertura especificamente inclinada para fora, como está construída. Uma passageira em pessoa eleva-se, imperturbada pelo gesto próprio da resignação. Outra cobertura, sim. Se lhe enrugam telhas pela testa, em um lugar de cota prévia à catástrofe. Altimétrica, a maior parte de uma cor e o conceito de massa rotunda de pele em redemoinho. Pé-de-vento, estrada inclinada nuns graffiti brancos de habitação plural. Passagem, outra, inferior. A imagem de Cristo, urbano em oposição a uma colina. Incivilizado depósito de água, em altura, indicado por placas à margem da via rápida. Uma linha vermelha. Paragem. A alma em movimento se dissipa pela excepção de um homem que descansa o corpo da paisagem do lado esquerdo, as tatuagens o seu telhado exposto aos pássaros, elementos flectidos à vista. O declive que o envolve, abraçado por árvores nuas. O sentimento é um pigmento imóvel. Matéria para arder, volver. Direita sombra artificial, luzes de presença pelo túnel do qual se diz alguns metros. Objectiva paisagem inteira de luz, que inunda o fim em frente. Cidade. Castelo, grua, Panteão, draga, contentor, rebocador. O país mesmo da cidade e da localidade, é piscina artificial em tons de azul esbatido. Quase não é azul, ao lado de uns braços de rio. Tem uma estrutura simples que não o suporta inclinado, por cemitérios impermeáveis. O cacilheiro vesgo a fugir para fora do olho que vê isto. Águas-furtadas. Casario rasteiro, onde morreram drogados no pouco espaço que os separava das paredes e nasceram poucas árvores. Muros de suporte no lugar de tudo danificado. Aqueduto livre das águas. Pilares toscos betonados contra o terreno, incompreendidos agora à vista de todos. Prédio engolido pelo exército silencioso da vegetação. Parque de estacionamento. Pessoas sentadas a olhar des-Norte, um sentido possível pelo carril. Mão no peito, óculos-escuros, palmadas nas costas. Reunião informal, uma manifestação de insensibilidade ordeira. Mão no braço, outro. Menina, menino. Crianças na Linha 7. Semáforo. Parque de manobras. Torres gémeas. Plataforma. A carruagem, visivelmente, em decomposição estanca o movimento do sangue pelas mãos, pelos braços. Escorre do outro lado ao vidro, me suja. Não é meu, desço escadas em carne viva. Vou, já venho. Alguém fala pelos aparelhos. Não ouço. Subo escadas, por baixo das escadas. Escadas rolantes. Não quis vir por aí, chego bem a tempo de um pássaro na berma do suicídio. Se esqueceu eles das asas, ou é aventura programada. Matematicamente se exercita de zeros, pela largura do fosso calçado por um número de carril. Vaso comunicante. Aviso. O chão estremece num lamento dilatante. Óleo quente. Portas se abrem. A respiração aspirada por um barulho de motor. Procissão de malas fechadas. O diálogo que se solta por alguém que se apanha do ar. Uma freira passa do lado dentro ao pássaro, um bando chega. A voz no altifalante, voo raso pela linha de cota zero do cais. Faróis acesos de dia, no rosto da locomotiva. Pulsações digitais, números na cor do sangue. A mala no braço pendurado da mulher. Informação: chávena de café em branco no fundo azul, dois cavalos dois campónios verdes claro em fundo mais escuro de verde. Roldanas metálicas. Quatro pássaros de súbito, o da frente com comida pelo bico. Extremidades de âncora na poça, barulhos de motor em corpo suspenso. Pássaro que se não demora. A senhora que se aproxima do senhor. Indica com o dedo, visível a direcção. Fim. Mão na cintura. O senhor olha para mim. A senhora também, e usa óculos. Aviso sonoro. É uma voz de senhora. Alguém fala pelos aparelhos. Está afastada. Não ouço. Barulho de motor próximo. À pele, avança por mim. Um rapaz com o cabelo rapado nas laterais da cabeça. Mão no bolso. Alguma barba. O sol por cu apertado, tarde de verão, vestido com a timidez de uns calções. Brancos. Barulhos de motor. Pretos. Gestão e manutenção de edifícios. Pest Control. As batidas da hora cardíaca em sopros. Dois pontos. Alguém fala pelos aparelhos, veste um pólo verde. Desaparece íngreme pela comunicação vertical entre pisos. Escadas. Outra criança, gorda, descalça os sapatos. Brancos. Usa chapéu com motivos redondos. Brancos. Alguém indeciso. Não ouço. Duas linhas depois um homem. Ambos braços, terminados em mãos que se adivinham infra-estrutura de um plano cortado. Ao acaso, passar repetidas vezes as unhas pelo rosto antes de este ser tapado pela mortalha transtornada de chapa e fixações. Rasgos, brânquias de respiração. Portas que se abrem. Uma conversa, um aviso sonoro. Um homem prostrado na aresta de um muro, que o protege da comunicação. Outra, vertical. Escadas. Olhos cravados – braille de solas – no chão de pássaros. Desaparece o aviso sonoro. A máquina desaparece. O barulho de motor desaparece. Silêncio que não existe. De um homem e mulher. Tarde é recente, duas setas obrigam o número a ficar quieto na posição dezasseis vírgula vinte metros. O eme é no fim. Casas decimais. O drogado estanca a estátua fendida do corpo pelo início das escadas. Comunicação vertical. Olha a via rápida do outro lado da fachada envidraçada, agarrado a um copo de papel fumegante. Ouço-lhe os grãos. Usa um casaco preso pela cintura, calça ténis. Brancos. Uma figura a tempo de um pássaro simultâneo a outro aviso sonoro, a uma máquina, a um barulho de motor. Transforma-se a paisagem, passam os veículos desta hora pela estrada em frente. A hora, mesma. Eu mesmo só já aqui, para a contar da esquerda para a direita. Rectângulos pontuais no revestimento da superfície construída. Hortas pobres de gémeos, passagem ínfima de esqueletos. Bainhas de cana, barreiras de insonorização que separam o barulho do motor – um mundo – das vozes da rádio que se transmite, sonâmbula dispersão, pelos homens em viaturas. Miniaturas de braço ao peito em gesso, com percursos a cumprir. Neste dia a uma hora. Moradas horrendas, mandadas construir à distância de um fio de telefone enrolado se sabe lá quantas voltas num pescoço em si mesmo transfronteiriço, entre o peito habitado pela dor e os olhos que não olham. Flores inomináveis às cores, passagens de um homem só. Picadeiro. SOS. Gabiões preenchidos com o lastro de profundidade límpida de um curso ou reserva de água. Um avião se alastra pelo sossegado instante de nuvens pictóricas, irreais, copiadas do céu artificial de um artista inexpressivo. Se leva o todo consigo, setas na mesma direcção do mistério. Coberturas inclinadamente industriais, com o passado degradado em cargas de pátina escorregadia e restos da refeição dos pássaros que se não contam. Postos de transformação. Linhas de alta tensão. Rotundas de pele. Estrela de inertes. Carros-bomba. Painéis solares. Juncos afastados do seu leito de cheia, composições concorrentes de linhas distintas. Urbano sentido suburbano, visto de outro ponto. Um metro, se tanto. Manilhas pelo terreno abandonado à boca do túnel. Pontos plantados de luz, afastados à mesma distância pelo alçado onde se fixam. O rio pela esquerda. Padrão de velas que se descobre na margem oposta. O barco e a ponte no cruzamento de pontos distintos em altimetria, salvo seja. O hospital das doenças tropicais, à distância de um braço mordido por um cão estrangeiro.  Águas estagnadas. A entrada curva na cidade de lado, alfazema circunscrita à casa do guarda da estação do meio, onde as chuvas não param. Largos pingos de gente tempestuosa, outras coberturas, invertidas, compactadas por camadas férteis de veias. Vida de que se depende gota a gota, asas cerâmicas no papel amarrotado de um rosto, de quem o vê por óculos. Obliteradores dos dedos ou a eles relativos, contam-se escombros implantados no final de um ponto. De embarque. A parte sobrante, outro segundo. Um tempo tolerado pelo estômago, refeição como as outras, esquecidas velocidades pela via do tracto tracejado, espaço sim espaço não pelos dez pássaros. Não contam nada, os pássaros, menos a um título.

João Bosco da Silva, Roncos

João Bosco da Silva, Roncos
poesia

Enfermaria 6, março de 2017, 18 páginas

Os poemas desta publicação integram o livro Teoria da Perdição Unificada, de João Bosco da Silva, a ser publicado em breve pela Enfermaria 6

[Ler e descarregar o livro]


Da ausência dos passos na areia

para o Filipe Marques, com admiração e amizade

 

I. 

no alto do estio
a flor abre-se ao apelo
da voz, no topo do insondável. 
visitará de novo a onda
o seu navio, no casco golpeará 
o poema dos marinheiros. 

 

II. 

a ilha de Pharos é um promontório
sagrado, na nossa casa onde deus dorme. 
seguirei os passos do frio rumo
às estrelas pendentes no dorso
de alguém triunfando sobre a eternidade. 
e de noite o meu coração
é recortado no interior de uma vala
desocupada. 

 

III. 

colossal, as colunas
deitam fumo nas horas
declinantes da madrugada. 
um suspiro poderia
retê-las, dar-lhes força -  
silenciá-las. 

deita-te de ti para mim
diz a ousadia do primeiro
verbo, a chama
textual. 
também os pássaros sabem
o nosso futuro, a separação
de mim para ti

IV. 

e a maré pensará voltar
nos braços dos cabelos e da nudez. 
a morte é uma suspeita
que apalpa o tempo, 
desfazendo-o. 

só nós, os inclementes, saboreamos
a terra, 
o terremoto do poeta a casa especial
um messias perdido na voragem
dos sulcos
da sua vinha.  

- o sangue embalsamado – 

V. 

é o tempo contínuo
que liquida
as suas escolhas. 
fomos expulsos, dizias. 
fomos traídos, 
eu sei. 
a idade mais longe poupar-nos-á. 
um silêncio desperta
nos ramos e na pedra. 

VI. 

abrimos a morte com as mãos  
da noite. 
as sete palavras já foram anunciadas? 
a carne palpita desde o alto? 
cheiro a giesta quando sou homem

navego nos lírios na ausência
de deus, 
uma palavra sólida.

Dezembro de 2016

O veneno do nacionalismo

George Steiner

George Steiner

Nunca percebi (dentro da inteligibilidade que envolve o nosso tempo) a palavra (ou frase) de ordem que coloca a “soberania nacional” como o desígnio máximo de uma comunidade, sinto sempre que há um oportunismo revivalista invocando o Leviathan hobbesiano ou a Vontade Geral rousseauniana (correspondendo vagamente à direita e à esquerda políticas, respectivamente), que como sabemos são conceitos, ou signos mais difusos, que acabaram por aquartelar-se numa performatividade dramatúrgica em vez de traçarem com a clareza possível os elementos que configuram o sentido de pertença a uma população que originalmente parecia atomizada pelo vírus do egoísmo.

Sei bem que é uma frase para cartazes, que se insinuam em cada rotunda com uma evidência inquestionável, poupa reflexão e alimenta a pequena veia nacionalista. Mas é também reaccionária e perigosamente beligerante, lógica tribal e ódio/medo do estrangeiro (o conhecido contra o estranho e o medo de perder recursos, no celebrado “vêm roubar-nos os empregos!”).

Como manifesto anti-nacionalista, aconselho este texto de George Steiner, escrito na longínqua década de 70 do século xx (provando que a actualidade revisita o passado mais vezes do que se pensa), um ensaio do The New Yorker traduzido para português pela Gradiva (George Steiner, The New Yorker, trad. Joana Pedroso Correira e Miguel Serras Pereira, 2010).

O nacionalismo é o veneno da história do nosso tempo. Nada é mais brutalmente absurdo do que a tendência por parte dos seres humanos de se atirarem às chamas ou de se matarem uns aos outros em nome da nacionalidade ou movidos pelo sortilégio pueril de uma bandeira. A cidadania é um pacto bilateral que está, ou deveria estar, sempre sujeito a um exame crítico, sendo, se necessário, revogável. Não há cidade humana pela qual valha a pena incorrer-se numa grande injustiça ou numa grande mentira. A morte de Sócrates pesa mais do que a sobrevivência de Atenas. Nada enobrece tanto a história de França como a vontade que levou franceses a raiarem a queda colectiva no abismo, a enfraquecerem radicalmente os laços da nacionalidade (como sucedeu, na realidade), por ocasião do caso Dreyfus. […] A pátria de cada um de nós é a parcela de espaço comum e corrente – pode ser um quarto de hotel ou um banco no parque mais próximo – que a cerrada vigilância e perseguição dos modernos regimes burocráticos ocidentais ou orientais ainda consentem ao nosso trabalho. As árvores têm raízes, mas os seres humanos têm pernas que lhes permitem partir depois de em consciência terem dito ‘não’. (p. 53)