Poemas, Rui Esteves

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I

1- Declaração de intenções: sou amigo (considero-me amigo) de Rui Esteves, tanto mais genuinamente quanto nasceu nas condições pouco propícias de um encontro duplo em mesas de conferências filosóficas. Mas entre Heidegger, Foucault e Nietzsche, emergiu primeiro uma curiosidade pela forma como o outro via e sentia o mundo e depois uma admiração mútua que solda a nossa amizade.

1.1- Nesta circunstância, corre-se o risco do panegírico, do discurso sobre-elogioso que fermentou as virtudes e excisou os defeitos. Sabendo isto, leio o Poemas de Rui Esteves procurando aplicar o que Kant chamava “desinteresse estético”, isto é, cingindo-me ao miolo da obra, às palavras e estilo que a compõem, leio Poemas como se fosse de um poeta anónimo.

2- Sabemos que as obras de arte têm sempre várias entradas, e que os espectadores por vezes possuem poucas chaves hermenêuticas para a complexidade do que avaliam. Outras vezes, apesar do chaveiro ser vasto, apostam numa chave que parece abrir para um caminho fecundo. Espero ter feito assim desta vez, usei um código de leitura que, sobretudo a partir de Martin Heidegger, sabe jogar com uma ontologia poética capaz de resgatar a palavra do ruido e do utilitarismo comunicativos.

II

1- Martin Heidegger dedicou uma parte importante da sua obra ao estudo da linguagem poética, com isso quis justificar a sua tese da “diferença ontológica”. Em resumo, esta diferença separa irredutivelmente ente e ser, contra a metafísica tradicional (que via manifestar-se o ente no ser, e vice-versa), Heidegger defende, pelo contrário, que o ser se esquiva, subtrai, oculta. O ente, as coisas na história (cujo ente “principal” seria o Dasein, o ente humano), pode indiciar uma semi-presença do ser, mas no essencial encobre-o, esquece-o (o célebre “esquecimento do ser” desde o nascimento da metafísica platónica). Apesar disso, é importante lembrar que o ente só existe porque se relaciona com o ser, mesmo se este não está ontologicamente contido naquele. O ser doa existência ao ente estando, todavia, não-presente.

1.1- Ora, como saber então da não-presença do ser? Tanto mais importante quanto conhecer a sua ausência é também conhecer as suas condições de existência. Uma das teses de Heidegger é a de que “a linguagem é a casa do ser”. (Cf. Unterwegs zur Sprache et dans le Brief über den Humanismus). O ser encontra abrigo, uma condição de existência na linguagem, linguagem ontológica, não comunicacional. Por isso, em Holzwege refere que “nada existe onde falta a palavra. Só a palavra confere ser à coisa.”  E a palavra a que Heidegger se refere é a palavra poética, porque só a poesia realiza a diferença ontológica, ficando do lado do ser. A palavra autêntica (substituam este sintagma por “linguagem autêntica”, se quiserem) nasce do próprio silêncio, desse afastamento do ser em relação ao ente, do que está para lá das coisas, sem que, contudo, seja a essência das coisas, como na metafísica clássica. Se há metafísica em Heidegger, ela é negativa, o que transcende os entes lançados na história é o ser esquecido, retraído, ausente. Neste sentido, a poesia não é uma modalidade mais elevada das linguagens do quotidiano, mas um jogo de palavras que emerge do indizível.

III

1- Talvez por isso não haja regras de leitura pré-definidas para a poesia, um poema faz as suas próprias regras de leitura à medida que se lê. Mais, o próprio poeta descobre-se guiado por aquilo que escreve, pelos fragmentos do ser que emerge do seu trabalho, é assim que entendemos o que disse Paul Celan no discurso de agradecimento ao prémio da cidade de Bremen, sublinhando que escrevia poemas para se orientar, saber onde estava e para onde ia, que os poemas lhe davam isso.

1.1- Se há regras (um pouco de dicionário e de gramática), elas também estão sujeitas, são regras que por sua vez são reguladas, numa concatenação rizomática sem fim. Não se trata nunca de um qualquer a priori kantiano. Com Derrida, reconhecemos que o texto poético mais do que polissémico está em permanente disseminação, produz e acolhe sentido, ou melhor, sentidos que se modificam, ausentam, aparecem... O texto poético não representa nem instaura uma qualquer verdade no mundo e nas coisas, dos entes na história. Ele permite o despontar do ser na Terra, que rapidamente se desvanece. Até porque, como escrever René Char, “A poesia é simultaneamente palavra e provocação silenciosa”. (La Parole en archipel).

2- Depois de Platão ter banido a poesia da cidade (tragédias e mitos homéricos, não a poesia como hoje a entendemos), ela parece regressar. No fim da metafísica ocidental (é evidente o seu ocaso), cujo triunfo do logos se sublimou na vontade de potência da técnica, Heidegger mostra, com Hölderlin, a possibilidade da poesia guiar uma filosofia poetizante, abrindo para outra racionalidade. Tanto mais que a filosofia não tem uma língua própria, ela vasculha e parasita vários domínios linguísticos.

2.1- Em alemão distingue-se dichten, escrever poemas, mas também inventar, criar, de Dichtung, poesia. Ora, Heidegger demora-se nesta diferença, recuperando a poiésis grega, que significava, latu sensu, fazer, distinguindo-se de agir. É de dichten que se trata quando se escreve poesia, porque se inventam possibilidades para que o ser possa emergir, sem se demorar, porém. Quando Stendhal dizia que o belo (artístico) era uma promessa de felicidade, tratava-se desta inventividade, oferecer um futuro, viver numa nova instância feliz do mundo. Na poesia, enquanto dichten, as coisas, os entes, encontram a sua verdade porque vislumbram a possibilidade de serem uma abertura para o aparecimento, fugaz, do ser.

IV

1- Ora, o Poemas de Rui Esteves (edição de autor, 2017) é um exercício que prolonga a visão heideggeriana da palavra poética como casa do ser. Quando, como escreve, “O poeta encontrou / uma palavra transparente” foi com certeza buscá-la a um deserto linguístico onde habitam palavras puramente auto-referenciais, palavras que se representam a si mesmas, desenhando assim clareiras onde pode emergir o ser. E quando, talvez por tradição, “as palavras parecem reais” é apenas para “Chegar aos objectos mesmos: / à simplicidade da maçã como maçã / sem sombra.” Isto é, ir às coisas mesmas é uma maneira de fingir praticar a fenomenologia continuando na hermenêutica ontológica, permitindo que o ser se auto-ilumine, já que desde Mallarmé a poesia interrompe o fluxo da história, máxima libertação, como quem pára a língua nela mesma.  

2- Luz e sombra, duas palavras que compõem o livro de Rui Esteves, retomando a floresta e a clareira do pensamento heideggeriano. Um brilho que “logo / torna ao escuro.”, porque o ser não é o não-presente, ele apenas se vislumbra, acontece, não é (sendo, teria um peso esmagador, nenhuma subtileza lhe sobreviveria). Por isso o esquecemos, falta-lhe a espectacularidade do pechisbeque exposto nos escaparates do consumismo, quase tudo oferecido e com uma obsolescência programada refinada. O que mais importa oculta-se para que sentidos autênticos perdurem: “É no lado secreto / da palavra mar / que o mar aparece.” O ser habita esse lado incógnito da palavra mar, não da palavra em si, mas do mar quando é escrito por um poeta. É por isso que “Certas palavras / ajudam a ver.”

2.1- Mas mesmo se há “palavras necessárias”, Rui Esteves diz-nos que é preciso “Fazer do verso / o lugar do silêncio.” Na origem da palavra está, pois, uma ontologia negativa, como pretendia Jacques Derrida. Um ser subterrâneo, emergindo, se estivermos atentos, numa ou noutra fontela, escondidas em pequenas clareiras, que só os caminhantes avisados, e humildes, conhecem.

V

1- O título Poemas revela um gesto tímido de entrada no mundo da poesia. Mas a epígrafe de Novalis (“Estamos sós com tudo o que amamos”) mostra a vibração justa que Rui Esteves produziu ao compor esta obra: uma dialéctica (sei que ele gosta de Hegel) feita de ensimesmamento e abrimento, a solidão é somente a melhor forma de acolher as linhas vitais que percorrem o mundo e nos electrificam. Um vaivém, como os sopros cósmicos ou a respiração anual de um bosque. Uma tensão, quase agónica, entre o silenciar e o revelar, o dizível e o indizível, o visível e o invisível. Tensão que Rui Esteves soube domar, pelos menos o suficiente para originar quase vinte poemas, umas centenas de palavras, e muitos espaços em branco, muitos silêncios, muito não-dito. Tudo equilibrado, da tensão nasceu o equilíbrio, é assim que o leio, sinto que veio ter comigo para me compor estas malfadadas costas de mau jogador de ténis, dizer-me que devo deixar doer o que dói e esquecer, deixar que a noite entre dentro de mim com uma ou outra estrela compassiva.

2- Há tanta poesia dentro de Rui Esteves que outros livros virão, não sabemos onde irá buscar a inspiração, um poeta vê e ouve mais coisas do que um filósofo, vê e ouve sobretudo para lá das coisas, e usa muito menos palavras, pode até tornar-se agrafo a maior parte do ano. Um dia aparece a ideia justa e basta ter papel à mão.

VI

Tudo é silencioso
e a noite
é urgente o silêncio
é urgente ouvir os pássaros
ao longe
escutar as coisas simples
a respiração do mar
os ritmos da manhã
as pequenas rotinas
o trânsito nas cidades
o sol que sobe sobre os campos no verão
é urgente escutar estar atento olhar
assistir com serenidade
aos ciclos à espontaneidade
ordenada da vida.

Charles Bukowski, «se leccionasse escrita criativa, perguntou, o que lhes diria?»

Tradução de João Coles

dir-lhes-ia que tenham uma história de amor
infeliz, hemorroidas, dentes podres
e que bebam zurrapa,
que evitem a ópera e o golfe e o xadrez,
que mudem a cabeceira da cama
de uma ponta à outra
e que logo a seguir tenham
outra história de amor infeliz
e que nunca usem uma fita prateada
para a máquina de escrever, 
que evitem piqueniques em família
ou que sejam fotografados num jardim de
rosas;
leiam Hemingway só uma vez,
saltem Faulkner
ignorem Gogol
cravem os olhos em fotografias da Gertrude Stein
e leiam Sherwood Anderson na cama
ao mesmo tempo que comem bolachas de água e sal Ritz,
reparem que as pessoas que falam
insistentemente sobre libertação sexual
têm mais medo do que vocês.
ouçam E. Power Biggs e ponham a tocar o
órgão na rádio enquanto
enrolam Bull Durnham no escuro
numa cidade alheia
com apenas um dia de sobra de renda
depois de terem desistido
de amigos, parentes e trabalhos.
nunca se considerem superiores e/
ou justos
e nunca tentem ser.
tenham outra história de amor infeliz.
olhem para a mosca sobre a cortina de Verão.
nunca tentem ter sucesso.
não joguem bilhar.
fiquem legitimamente zangados quando
descobrirem que o vosso carro tem um pneu furado.
tomem vitaminas, mas não levantem pesos nem corram.

depois de tudo isto
invertam o procedimento.
tenham uma história de amor feliz.
e o que
talvez aprendam
é que ninguém sabe nada -
nem o Estado, nem os ratos
ou a mangueira do jardim, ou a Estrela Polar.
e se alguma vez me apanharem
a leccionar escrita criativa
e me lerem isto de volta
levam logo nota 20
sem tirar nem pôr,
na muche.

In Love Is a Dog from Hell


now, if you were teaching creative
writing, he asked, what would you
tell them?

i’d tell them to have an unhappy love
affair, hemorrhoids, bad teeth
and to drink cheap wine,
avoid opera and golf and chess,
to keep switching the head of their
bed from wall to wall
and then I’d tell them to have
another unhappy love affair
and never to use a silk typewriter
ribbon,
avoid family picnics
or being photographed in a rose
garden;
read Hemingway only once,
skip Faulkner
ignore Gogol
stare at photos of Gertrude Stein
and read Sherwood Anderson in bed
while eating Ritz crackers,
realize that people who keep
talking about sexual liberation
are more frightened than you are.
listen to E. Power Biggs work the
organ on your radio while you’re
rolling Bull Durham in the dark
in a strange town
with one day left on the rent
after having given up
friends, relatives and jobs.
never consider yourself superior and /
or fair
and never try to be.
have another unhappy love affair.
watch a fly on a summer curtain.
never try to succeed.
don’t shoot pool.
be righteously angry when you
find your car has a flat tire.
take vitamins but don’t lift weights or jog.

then after all this
reverse the procedure.
have a good love affair.
and the thing
you might learn
is that nobody knows anything–
not the State, nor the mice
the garden hose or the North Star.
and if you ever catch me
teaching a creative writing class
and you read this back to me
I’ll give you a straight A
right up the pickle
barrel.

"Animais menores", de Otávio Campos, lido por Ismar Tirelli Neto

Animais menores

Você sonha com outro rapaz
Me masturbando no banco de trás
Do ônibus de rua na cidade vazia
Você sonha com outro rapaz
Que me puxa pela mão nos destroços
Da cidade pós-apocalíptica
Você me pergunta se eu consigo
Imaginar uma cidade pós-apocalíptica
E as máquinas como animais de metal
Que são necessárias para se cruzar a cidade
Como um ônibus de rua rodando à noite vazio
Você me chuparia no banco de trás
Ou você sonha com um outro rapaz que o faria
Porque você não se levanta para um cuspe
Ou qualquer resposta a uma dessas espécies
Que surgem entre os destroços e matam viadinhos
Quando não riem de viadinhos na melhor
Das opções ele nos olharia de longe e viria
Você sonha com outro rapaz
Me chupando no banco de trás
Porque você não consegue se levantar
Eu não me levantaria
Se você me chupasse no banco de trás
Da cidade pós-apocalíptica
Suja e metal
E eu apertasse sua cabeça contra a minha
E eu pensaria na sua cabeça descendo
E subindo como eu penso que são
Todas as coisas pós-apocalípticas
Você me chuparia até que explodisse
Você cuspiria, querido

in Otávio Campos, Ao jeito dos bichos caçados, Enfermaria 6, Dezembro de 2017

E recordamos que o lançamento do livro é hoje, no Bar Irreal em Lisboa, pelas 20 horas.


Livros dos editores (II)

 

 

João Coles

Claire-Louise Bennett é uma escritora inglesa que vive em Galway e estreou-se na ficção em 2015 com Pond. Na verdade, já havia publicado ensaios e histórias em várias revistas irlandesas; Pond é o seu primeiro livro. E foi uma belíssima surpresa. Nã…

Claire-Louise Bennett é uma escritora inglesa que vive em Galway e estreou-se na ficção em 2015 com Pond. Na verdade, já havia publicado ensaios e histórias em várias revistas irlandesas; Pond é o seu primeiro livro. E foi uma belíssima surpresa. Não se trata de um romance nem de uma recolha de contos. Digamos uma recolha de histórias ou de episódios encadeados, como cada dia que despertamos forma uma história diferente, umas mais outras menos longas. Bennett fala-nos sobre os prazeres e desprazeres da vida solitária contados por uma mulher que vive longe da cidade, dos devaneios e da dispersão da mente enquanto cozinhamos ou cortamos as unhas dos pés ou quando estamos de papo para o ar ou estamos a ler um livro, da relação íntima com a casa e com os objectos que nela habitam, desta poética do espaço de que falava Bachelard e que muitas vezes nos é alheia: “[home as] a stone plant with cosmic roots, a kind of intimate conduit between the subterranean and the aerial” - quando entrevistada à The Paris Review (PR). O livro é sobretudo isto, um relato da existência da mente em solidão. A solidão que, explica ainda na entrevista à PR, traz atmosfera a uma obra de ficção; a atmosfera rodeia mais eficazmente uma voz solitária tal como a chama de uma só vela.

Foi o primeiro livro de poesia de Bukowski que li por inteiro. Li sempre poemas soltos como se os lesse das várias revistas aonde ele os mandara. A poesia do velho Buk é, por um lado, como a sua prosa, desconstrói tudo aquilo que a precede (para cri…

Foi o primeiro livro de poesia de Bukowski que li por inteiro. Li sempre poemas soltos como se os lesse das várias revistas aonde ele os mandara. A poesia do velho Buk é, por um lado, como a sua prosa, desconstrói tudo aquilo que a precede (para criar há que destruir primeiro a matéria prima), por outro, é aqui que o vemos no seu melhor. Continuamos no seu imaginário de L.A., a sua linguagem crua, o seu humor aguçado, todo o álcool derramado também, claro, mas vemos com maior clareza o que nos romances e nos contos acaba por se camuflar, ou seja, o Charles Bukowski que em sua casa lê “The Shower” para as câmaras de filmar em pouco menos de 2 minutos. A epígrafe da primeira parte do livro resume-o muito bem: “one more creature dizzy with love”.

Outra vez Bukowski. Foi um ano passado em sua companhia, de maneira que repeti-lo é inevitável. Na correspondência com Sheri Martinelli, e não ocorria com muitos, segundo o editor deste livro, Bukowski deixa cair a máscara e envolve-se em discussões…

Outra vez Bukowski. Foi um ano passado em sua companhia, de maneira que repeti-lo é inevitável. Na correspondência com Sheri Martinelli, e não ocorria com muitos, segundo o editor deste livro, Bukowski deixa cair a máscara e envolve-se em discussões intensas sobre arte e literatura e estética. Sim, entrevê-se nestas cartas uma espécie de crítico literário desconhecido escondido entre o beberrolas e o durão das ruas de Los Angeles, ofuscado por Henry Chinaski. Sheri Martinelli foi das primeiras pessoas a publicar a obra de Bukowski, e a sua revista a primeira a recenseá-la. Tudo isto não antes de a chumbar numa primeira abordagem com uma carta de rejeição muito singular na qual lhe dá conselhos gratuitos num tom condescendente, o que, claro, leva Bukowski a reagir tempestuosamente, defendendo a sua estética e o seu estilo, o seu meio de expressão que não obedecia a quaisquer regras a não ser as dele. É assim que começa este livro, com as duas cartas que criaram a centelha desta relação improvável entre estes dois extremos opostos e que se manteve viva durante sete anos.

José Pedro Moreira

Todos temos livros a que precisamos de regressar. Não são necessariamente os melhores livros que lemos, mas são os livros que conseguem verbalizar impressões e sentimentos que nos acompanham, mas aos quais temos dificuldade em dar forma. Não são tan…

Todos temos livros a que precisamos de regressar. Não são necessariamente os melhores livros que lemos, mas são os livros que conseguem verbalizar impressões e sentimentos que nos acompanham, mas aos quais temos dificuldade em dar forma. Não são tanto um porto de abrigo, antes uma cidade estrangeira onde nos sentimos surpreendentemente em casa. No início de 2017, o Brexit e a eleição de Trump anunciavam um mundo mais sujo, mais desigual e mais indecente. Talvez por isso tenha sentido a necessidade de reler Antigos Mestres. Um velho crítico de arte misantropo tenta não se matar depois da morte da sua companheira, a única pessoa que tornava a existência tolerável. Thomas Bernhard escolheu, como subtítulo, comédia.

De como a literatura pode mudar um homem, ou de como a literatura nos pode fazer homens. Com alguma intriga académica pelo meio. Recomendado pelo Paulo Rodrigues Ferreira. Não lhe poderia estar mais grato.

De como a literatura pode mudar um homem, ou de como a literatura nos pode fazer homens. Com alguma intriga académica pelo meio. Recomendado pelo Paulo Rodrigues Ferreira. Não lhe poderia estar mais grato.

O melhor escritor de humor português escreve sobre o humor. O que raio é, para que serve, como fazer rir. Pelo meio cita-se Shakespeare, Beckett, Camilo Castelo Branco, Sartre, Chesterton e George Foreman. Sim, é bastante divertido.

O melhor escritor de humor português escreve sobre o humor. O que raio é, para que serve, como fazer rir. Pelo meio cita-se Shakespeare, Beckett, Camilo Castelo Branco, Sartre, Chesterton e George Foreman. Sim, é bastante divertido.

Uma história da Filosofia Ocidental, desde a Grécia Antiga até ao Renascimento. Sem ser chato ou abstruso, sem intimidar o leitor com longas notas biográficas, mas sem esconder as lacunas nem tratar os leitores como idiotas. Gottlieb é erudito, clar…

Uma história da Filosofia Ocidental, desde a Grécia Antiga até ao Renascimento. Sem ser chato ou abstruso, sem intimidar o leitor com longas notas biográficas, mas sem esconder as lacunas nem tratar os leitores como idiotas. Gottlieb é erudito, claro, um guia sóbrio e com sentido de humor. The Dream of Enlightment, a continuação, fará certamente parte das minhas leituras de 2018.

As referências constantes a Bukowski na poesia do João Bosco da Silva e as excelentes traduções que o João Coles tem publicado na Enfermaria tornaram inevitável que o lesse mais este ano. O João Coles escreve sobre o livro em cima muito melhor do qu…

As referências constantes a Bukowski na poesia do João Bosco da Silva e as excelentes traduções que o João Coles tem publicado na Enfermaria tornaram inevitável que o lesse mais este ano. O João Coles escreve sobre o livro em cima muito melhor do que eu seria capaz. Basta-me dizer que Love is a dog from hell foi o meu livro de poesia favorito do ano.

Jason Schreier é um dos editores do site Kotaku. Inteligente, liberal e provocador, é também uma das bêtes noires do movimento Gamergate (uma ramificação do fenómeno Alt Right), e uma das vozes mais interessantes a falar sobre videojogos.  Apes…

Jason Schreier é um dos editores do site Kotaku. Inteligente, liberal e provocador, é também uma das bêtes noires do movimento Gamergate (uma ramificação do fenómeno Alt Right), e uma das vozes mais interessantes a falar sobre videojogos.  Apesar de muitos de nós passarmos umas quantas horas por semana a jogar videojogos, sabemos muito pouco de como são feitos. Blood, sweat and pixels acompanha o longo e quase sempre tortuoso processo de criação de dez jogos recentes. Schreier é um jornalista exímio, e cada capítulo está apoiado em horas e horas de entrevistas. É também um bom contador de histórias, que consegue transportar-nos para o meio do caos que é um projecto criativo que envolve centenas de pessoas, pressionadas por prazos e expectativas irrealistas. Há tanta peripécia que por vezes nos esquecemos que não estamos a ler um livro de contos. Dei por mim a encontrar pathos onde menos esperava: o capítulo sobre Stardew Valley, por exemplo, obra solitária de Eric Barone (também conhecido Concerned Ape), lê-se como uma história de obsessão, amor, tolerância e desejo irracional de criar algo único, e é difícil não sentir empatia pela figura.

Em termos de banda desenhada, o meu 2017 foi marcado por finalmente ter lido a totalidade dos volumes de Preacher. Preacher conta a história de Jesse Custer, um pastor que adquire poderes sobrenaturais, e parte numa roadtrip pela América fora, na co…

Em termos de banda desenhada, o meu 2017 foi marcado por finalmente ter lido a totalidade dos volumes de Preacher. Preacher conta a história de Jesse Custer, um pastor que adquire poderes sobrenaturais, e parte numa roadtrip pela América fora, na companhia da sua namorada e do seu amigo vampiro. Vão à procura de busca de deus – que parece ter deixado os céus e estar a fugir deles.

Sabia que era uma das colecções mais importantes dos anos 90, e parece ser impossível descrever os livros sem usar as expressões  “iconoclástico” e “ridiculamente violento”. Não são desadequadas, Preacher compraz-se em chocar os leitores, mas minimizam a elegância de como a obra aborda temas de amizade, amor e religião. Que uma meditação humanista sobre deus coexista com uma personagem chamada Arseface ou um vilão que parece um caralho andante sem se perder num riso pueril atesta a qualidade da escrita de Garth Ennis.

Tatiana Faia (continuação)

Elizabeth Costello de J. M. Coetzee. Coetzee é um dos meus escritores favoritos. Acho que se pode ler qualquer coisa dele de uma assentada. Não sendo imediatamente evidente como é que um romance sobre uma escritora de idade avançada, apologista de u…

Elizabeth Costello de J. M. Coetzee. Coetzee é um dos meus escritores favoritos. Acho que se pode ler qualquer coisa dele de uma assentada. Não sendo imediatamente evidente como é que um romance sobre uma escritora de idade avançada, apologista de um vegetarianismo radical, que num dado momento a leva a estabelecer uma comparação entre o abate de animais e o holocausto, termina num ensaio sobre as raízes clássicas e bizantinas do mundo em que vivemos, sobre a religião, sobre África, sobre Kafka como autor fundamental do nosso tempo, sobre o vazio da vida de escritor, que surge como uma profissão que exige um compromisso e uma honestidade de pendor quase espiritual, quase uma independência sobre-humana. Perturbador, profundo, impecavelmente bem escrito. Não há neste livro nada que não seja relevante para pensarmos o que seja viver eticamente. 

Aftermath. On Marriage  and Separation de Rachel Cusk. Há no princípio deste livro uma citação do Agamemnon de Ésquilo, daquele passo muito debatido por classicistas, em que se lê, Zeus has led us on to know,/ The Helmsman lays it down as law /…

Aftermath. On Marriage  and Separation de Rachel Cusk. Há no princípio deste livro uma citação do Agamemnon de Ésquilo, daquele passo muito debatido por classicistas, em que se lê, Zeus has led us on to know,/ The Helmsman lays it down as law / That we must suffer, suffer into truth. Uma das unidades sociais mais básicas do mundo em que vivemos continua a ser o casamento. Não há nada de escandaloso ou chocante neste livro de Rachel Cusk, ainda que o livro tenha sido violentamente atacado. Aftermath é sobretudo um ensaio sobre o violento colapso de uma ordem, sobre feridas e cicatrização. Como arrancar um dente. The last supper, Outline, A life’s work, Aftermath. De um modo quase discreto, capturando o que parecem ser as situações mais comuns que estruturam as vidas de mulheres, o parto, o casamento, trabalhos e férias de família, os livros de Rachel Cusk lembram-nos que há na literatura um poder testemunhal que nos ajuda a viver um pouco melhor.

Convite para o lançamento de 'Ao jeito dos bichos caçados'

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Caros Amigos,

É com muita alegria que vos convidamos para a apresentação do nosso novo livro, Ao jeito dos bichos caçados, de Otávio Campos.

A apresentação contará com a presença do Otávio e estará a cargo de Mariano Alejandro Ribeiro, Mariano Marovatto e Ederval Fernandes. Terá lugar já na próxima sexta-feira, dia 19 de Dezembro, no Bar Irreal, em Lisboa, pelas 20 horas. Teríamos muito gosto em vos ver lá.

Poderão encontrar aqui os primeiros poemas do livro.

Com os nossos melhores cumprimentos,
Enfermaria 6