Fallout

Não é de ti que tenho saudades, mas das ruas escuras das aldeias
Quase desertas e do cheiro a cona nas casas abandonadas,
Os dedos fatigados pela cerveja empurrada na solidão dos tascos,
A entrar na inocência sem lhe tocar, porque está tudo perdido
Antes da evidência das portas dos carros a trancar verdades submissas,
Têm passado anos sobre mim e só tenho ganho o cansaço
Que cada nome me planta nas têmporas geadas pelas manhãs perdidas,
Que segredos te poderia contar, se não fôssemos só carne e fome,
E sonhos contrariados de joelhos, hóstias e penitência,
A primavera é o cheiro que fica no mento imberbe e sedento,
Quando os joelhos se juntam em direcção a um tecto quase ruína,
Não é de ti que tenho saudades, mas das palmas abertas
Revelando ao luar o caminho até ao oblívio azedo dos dias quentes,
O pecado emprestado à festa da terra, o granito que rasga melhor
Que qualquer beijo, com ou sem vontade, a pele que cede, sempre.

Turku

08/04/2019

Receitas por medida Ou A querela das Lapas

“É possível que os velhos austeros

critiquem estes festins: nós,

vida minha, continuemos somente

o caminho traçado.”

Propércio

    Este poema não é

  dedicado a ninguém,

                 mas podia

 

 

O Teves passa a vida a escrever poemas que
dedica a  pessoas. Já lhe disse que isso não é
metapoético mas ele insiste. Segundo ele o
que importa em vida não são as elipses sobre
si mesmas mas o outro. A mão na mão  o olho
no olho. Importante é contrariar a dominante
visão  a de que a poesia só existe nela mesma.

Que fazer? Pois é! A Coloquialidade o gesto
da partilha a admiração pelas qualidades do
outro nunca foi cultura efervescente neste
pobre país. O dar desinteressadamente sem
pre foi muito mal visto porque segundo as
regras vigentes há sempre uma cunha algures.
E vá não se mostram essas coisas em público! 

Bem sei o que sentes mas dedica mais. Sê tu
próprio. Exercita aquilo que os cegos da pala
vra
 já não conseguem fazer: pousar sobre um
rosto sem nada querer o sopro dos deuses.

 

 

Daniel Dezeuze, Sans titre (série Lascaux), 1983-1984.jpg

Daniel Dezeuze - Sans titre (série Lascaux), 1983-1984.

Casa

para Difaf Sharma e Nour Khalaf

 a Difaf diz
a minha aldeia
fica junto ao mar
e olhando para Este
vê-se os montes
azuis de oliveiras
também o céu
parece mais azul
e prossegue
falando de um azeite negro
concentrado
que o seu tio fazia
e que ela
não consegue encontrar
neste país

a mãe do Nour
liga todas as noites
para dar um beijo
ao seu rapaz
vai para cinco anos
que não o vê
por causa da guerra
aquela mulher
estraga-o com mimos
diz a Difaf
e todos nos rimos
e vertemos nos copos
o que resta
da garrafa de Papa Figos

A 7ª Árvore

“há sempre um jardim na

memória / do Mundo”

Emanuel Jorge Botelho

para o Urbano

 

Na fantasmagórica árvore,
os rebentos de ouro são
esses tiros entre o nosso olhar
e o intocável jardim.
A porta fechada, com
dobradiças de cartão,
mostra-nos as queimaduras 

das mãos dos que, em vão,
tentaram roubar os frutos,
nessas vinte e sete manhãs.

de “Lamarim” (2019)

17.jpg

Urbano - “neste meio de mar” (pormenor)

 

"A primavera" e "A primavera" de Friedrich Hölderlin (assinando como Scardanelli durante o seu período de demência)

Friedrich.jpg

Tradução: J. Carlos Teixeira

A primavera

Lá, desce o novo dia nas distantes alturas,
a manhã despertando da alvorada,
ela sorri à humanidade, enfeitada e viva,
e a humanidade com suave alegria é preenchida.  

Quer uma nova vida ao futuro revelar-se
com florescências que anunciam melhores dias,
o grande vale, a Terra cobrindo-se;
Lá longe do tempo primaveril estão os lamentos.

Humildemente,
Scardanelli

3 de março de 1648

In Gedichte 1806-1843


Der Frühling

Es kommt der neue Tag aus fernen Höhn herunter,
Der Morgen der erwacht ist aus den Dämmerungen
Er lacht die Menschheit an, geschmükt und munter,
Von Freuden ist die Menschheit sanft durchdrungen.

Ein neues Leben will der Zukunft sich enthüllen,
Mit Blüthen scheint, dem Zeichen froher Tage,
Das grosse Thal, die Erde sich zu füllen,
Entfernt dagegen ist zur Frühlingszeit die Klage.

Mit Unterthänigkeit
Scardanelli


3. März 1648.

In Gedichte 1806-1843


A primavera

Quando das profundidades entra a primavera na vida,
O homem maravilha-se e novas palavras se erguem
De espiritualidade; a alegria volta uma vez mais
E solenemente hinos e cânticos se cumprem.

A vida faz-se da harmonia das estações,
Natureza e espírito acompanham sempre o sentido,
E a perfeição é una no espírito;
Então muito se descobre, sobretudo na natureza.

Humildemente,
Scardanelli


24 de maio de 1758

In Gedichte 1806-1843


Der Frühling

Wenn aus der Tiefe kommt der Frühling in das Leben,
Es wundert sich der Mensch, und neue Worte streben
Aus Geistigkeit, die Freude kehret wieder
Und festlich machen sich Gesang und Lieder.

Das Leben findet sich aus Harmonie der Zeiten,
Daß immerdar den Sinn Natur und Geist geleiten,
Und die Vollkommenheit ist Eines in dem Geiste,
So findet vieles sich, und aus Natur das meiste.

Mit Unterthänigkeit
Scardanelli


24. Mai 1758

In Gedichte 1806-1843