e. e. cummings, poema 88
/tradução: João Coles
88.
um político é um burro sobre o qual
já se sentaram todos à excepção de um homem.
in 50 Poems (1940)
88.
a politician is an arse upon
which everyone has sat except a man
in 50 Poems (1940)
«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
tradução: João Coles
88.
um político é um burro sobre o qual
já se sentaram todos à excepção de um homem.
in 50 Poems (1940)
88.
a politician is an arse upon
which everyone has sat except a man
in 50 Poems (1940)
Aniversário
de Clara João Silva
a partir de um poema de José Pedro Moreira
Enfermaria 6
2020
Clara João Silva nasceu em Braga, em fevereiro de 1999.
Estudou Design Gráfico no Instituto Politécnico do Cávado e do Ave, e lá percebeu a sua paixão por ilustração.
Nos seus tempos livres gosta de ler, ver documentários de true crime e fazer festas à sua gata.
José Pedro Moreira nasceu em Lisboa, 1983. Vive em Oxford.
Publicou traduções do Agamémnon de Ésquilo (Artefacto Edições, 2012), de Catulo (juntamente com André Simões, Livros Cotovia, 2012), dos Hinos Homéricos (com Tatiana Faia e Miguel Monteiro, Imprensa da Universidade de Lisboa, 2019). Livros de poesia: Gatos no Quintal (Enfermaria 6, 2018), Porque canta um pequeno coração (Não edições, 2019).
“Tudo o que expurga a sua parte maldita
assina a sua própria sentença de morte.”
- Baudrillard
I
DELÍRIO BÁQUICO
Quiseram todos os senhores que eu me
aprontasse de luvas brancas e de olhos
cristalinos avistasse o puro e pleno dia.
Quiseram todas as senhoras que me
vestisse de branco e dissesse de manhã
à noite palavras de amor e púrpuras
flores cantasse por entre o jardim.
Pediram-me toda a eloquência pureza
amor suave e brancos jasmins de ternura.
Pediram-me tanta suavidade e claridade
que só em amargura soube trazer-lhes o
contraste. Sem que soubessem dei-lhes
a força negativa para se equilibrarem
na doçura e dela fazerem o seu traste.
II
Um Ano sem Barbara Stronger (1983-2019)
Isto são notas sobre a subtileZa (aqui deixei S/Z, de Roland Barthes, de fora) pelo menos, procuram sê-lo. Depois de derramar tanto sangue, um massacre, quem diria? Ninguém é só uma coisa, somos uma mistura de mil coisas, mil observações opostas; um lado masculino, um lado feminino, ou talvez, mil lados masculinos, mil lados femininos. Um espelho infinito, multiplicando-se. Complexidade, nunca simplicidade. Foi Pessoa, esse grande oxímoro, que disse que tudo é paradoxo, e ele tem imensa razão. Alguns têm essa consciência e praticam-na, outros procuram manter a fachada de que são altos edifícios, blocos rígidos de virilidade e masculinidade oca.
Vem isso a prepósito de Barba Stronger (1983-2019) que morreu, faz hoje, um ano. Foi com ela, essa grande Mulher, que aprendi algo muito importante: É preciso transformarmo-nos no Monstro para podermos matar o Monstro! Teógnis, há 2 500 anos, terá dito algo parecido, é preciso estar entre os Monstros para descobrirmos a nossa própria Resistência. Com ela aprendi a viver mais, a rir mais, sobretudo de mim. Agora que faz um ano que se suicidou, é preciso lembrá-la, e em agradecimento, contar aquilo que ela me trouxe. Foi tão pouco, e tanto ao mesmo tempo, que não sei por onde começar: trouxe-me Cysneiros, trouxe-me Brueghel, trouxe-me Ana Karerina, trouxe-me o riso, trouxe-me toda a revolta, trouxe-me ao sangue, trouxe-me à vida. Sim, à vida!
Aqui na moderna e grande cidade, somos todos Zombies, mas a verdade é que os artistas e os poetas sempre foram, de alguma forma, Zombies – seres meio vivos, mortos no seu canto com a luz da lamparina acesa sobre um livro. (Ver: o pensador de Rembrandt). Sozinhos, sempre sozinhos! E “fomos” isso tudo, e “Somos” isso tudo, pois não há criação sem o corte com a vida externa. “(…) a escrita exige solidões e desertos” – Sophia.
Hoje somos todos Zombies: uns por natureza (o poeta, o artista, o pensador) e os outros por imposição: a cidade, a multinacional, a moda, o fitness, a hiperinformarão, a tecnologia, etc. Estamos todos presos na malha, sem nos conseguirmos libertar! Moscas presas numa grande rede. E quando achamos que estamos livres, aí estamos, ainda, mais presos, presos a nós mesmos. O poeta e o artista estão duplamente presos, presos pelo exterior e pela força interior. O poeta e/ou artista é o Zombie mais putrefacto, aquele que não conhece salvação. Não passam de pontos negros sobre a superfície plana da terra, porros de explosão de matéria negra, forças de passagem de fluxos, “não-lugares” de carne. Trazem a luz à terra e expulsam, pelas suas entranhas, toda a negrura da terra. São meros e impotentes veículos de transformação, transformavam a negra força em luz. Coadores de esperança! E isso é ser Imenso! Pontos de contração negra e explosão de luz, pontos intermitentes, pontos tão incandescentes que cegam. Quanto maior a luz, maior a cegueira!
E todos querem conhecer o Monstro, e todos querem conhecer a fera, e todos querem conhecer a “ave rara”, aquela que só pede para estar sozinha. Sozinho como Michael K na montanha, o mais lúcido de todos, esse Atlas que suporta o vazio mais profundo, o que se mutila em nome das vozes que percorrem a cidade. E ele corre, percorre e discorre rumo à montanha para nela estender o seu corpo aos bichos da terra alta, é ele que os salva, o que alimenta esses seres da montanha. Sem ele, a montanha cairia sobre as vozes da cidade, sem ele, a montanha aniquilaria toda a vida, toda a forma de esperança; e tudo seria escuridão! E o poeta nega, nega a Escuridão Absoluta; e nega toda a Luz Absoluta! Só nele o equilíbrio existe, o equilíbrio que o constrói e, por vezes, o destrói! Um ponto centrífugo de queda permanente sobre o chão mais duro (Luiza Neto Jorge); chão duro e não pelos coxins de cetim que andam por aí.
E é por isso que a Barbara Stronger (1983-2019) merece, da minha parte, alguma consideração. Ela puxou-me violentamente para fora e, ainda hoje, trago esfoliações nos joelhos e nas pernas. Puxou-me e rasgou-me o pulso direito, o vermelho; e rasgou-me o pulso esquerdo, o azul. E, hoje, de pulsos rasgados, esvaio-me em sangue e não há quem o pare, não há quem estanque essa fonte que se abriu descontrolada, inundando, contaminando, misturando tudo para aflição dos puristas. Essa fonte espalhando vida e cor a quem já não sabe dormir, rir ou sequer parar. Deixo-lhe, em sua memória, o seguinte bilhete de amizade, um que seguirá amanhã diretamente para o inferno:
Mad Rush. Porto 10.07.2020
Querida Barbara Stronger,
és aquela em quem sempre quiseram colocar acento! Julgo que é por sofrerem a mania de enfiar carapuças em tudo e em todos. Querem todos viver dentro do texto, o que deve ser muito aborrecido, sobretudo quando não há luz. Mas a culpa sempre foi tua, devias ter beijado a mão do Padre, aquele que depois da missa vai rezar na barquilha do sacristão; devias ter cumprimentado, na hora certa, o Presidente da Câmara; ido na procissão do Senhor; e claro, devias ter lido Horas Fúnebres de Mestre Feliciano e não o Satyricon de Petrónio. E, claro, tudo acabou mal. Mas, como dirás desse lado: Tudo sempre acaba Mal! Esta é a grande e única verdade. Não te roubo mais tempo! Espero que estejas bem aí no inferno! Se precisares de algum livro manda-me um telegrama como os de Lisboa. Tens aí o Quarteto? Ou esse ainda continua requisitado pela Madre Beata do andar de cima?
Porta-te mal. Deste que (não) sente a tua falta:
Vítor Teves
Ps- Kafka, o daqui, sente falta da tua cabeleira e unhas de gel sobre o dorso.
III
ODE A ALGUNS EDITORES DE POESIA
Lírio Lírio Lírio Lírio Lírio
Lírio Lírio Lírio Lírio Lírio
Lírio Lírio Foda-se! Lírio
Lírio Lírio Lírio Lírio Lírio
Lírio Lírio Lírio Lírio Lírio
IV
EPÍLOGO
SACO DE BOXE
O novo saco de boxe apareceu
pendurado da noite para o dia
no átrio principal do velho edifício.
Toda a criatura de nome passou a
ter por objetivo passatempo irritação
bater no novo saco de boxe.
Havia que deixar a marca no saco
que iria dar alguma existência aos
esquecidos nomes da velha cidade.
Assim em fila todos iam batendo
no novo saco e o saco remexia-se.
Por vezes balançava e no balanço
metia-os a todos no chão com
enorme e barulhento estrondo.
Mas continuavam havia que deixar
a marca de que estavam vivos
a marca da sua pequena existência
sobre a pele negra e brilhante do
novo saco de boxe da cidade.
Bateram tanto que o desprezado
saco tornou-se com o tempo relíquia
e a marca irredutível do seu tempo.
Das mãos que outrora batiam das
leves moças nada ficou registado
no resistente novo saco de boxe.
Nem uma unhada nem a mais intensa
irritação ao novo saco de boxe.
sr. barbáro
um poema fere o sr. barbáro na primavera,
no inverno, em qualquer estação; debaixo do
braço, na virilha, na garganta, todos fatais ao
mais rude bufão; que sabe ler, e não sabe ler.
o sr. barbáro pede ajuda de deus quando quer
matar, quando põe pedras na boca para falar,
quando cospe atacando cores e abre um ânus
dentro do crânio; o sr. barbáro caga na bolsa.
soldado, sonha-se o sr. barbáro, e bate muita
continência [o incontinente]; o sr. barbáro é são,
mas é demente. o sr. barbáro tem um esgoto sob
a língua, olhos de estuprador e impotente. não
separa ódio de comoção, ou virtude de covardia:
o sr. barbáro gritava à tv numa poltrona até o dia
em que lhe deram poder. o sr. barbáro parece ter
ratos no rosto. haver vida o fere, é um desgosto.
gentileschi
schloss weißenstein, suzana tem nojo e dor nos olhos, sua
nudez sentada se contorce diante de dois velhos cobiçosos
a despeito do nojo e da dor [ou por causa do nojo e da dor].
artemisia amarrota-lhe os olhos diante do esgar rosnado de
quem segreda o assalto de seu sexo; em quatro anos, suzana
se torna judite, ganha a ajuda de uma amiga, e os dois velhos
se fundem no grande holofernes: as mãos das mulheres forçam
o corpo contorcido do general, a espada trincha pele, músculos
nervos, ossos. a determinação nos olhos de judite e de sua ajuda
só se equipara ao desespero nos olhos da cabeça quase solta
do corpo que fora dois e jaz agora um: as mulheres se afastam
do combate [técnicas da vingança exata] no museo nazionale.
Susana e os anciãos, Artemisia Gentileschi (detalhe)
“é animado por essa sua capacidade de se anular que o
poeta pode entregar-se a essa pluralidade de corpos ou
criaturas”
- Manuel Gusmão a prepósito de John Keats.
“Aponto, logo multiplico-me.”
- Vítor Teves
ESPIGA
a João Miguel Fernandes Jorge
Infestação
por ELE
renovada.
Volta às pedras
`as romarias
armas.
Enche
na passagem
o rosto
muralhado.
Deixa cair o pálido
rico olho
nos cinzeiros de
prata.
Queima os dedos
Recanta!
Portugal Eunuco
a Jorge Sousa Braga
Este é o país que sonhou ser um colosso.
Um país onde dormir ao sol e comer caviar seria possível
no último grande shopping da Aldeia.
Um projeto de país onde as rãs saltitam aqui e ali nas escadas do poder.
Uma poça que sonhou ser lago:
País País País País
um cântico de rãs.
A rã do quinto direito, a do olhar de lado,
a rã do meu chefe, o do papo à galo,
a rã do professor, o que só versa em latim,
a rã da minha prima, a gorda arrogantemente estúpida,
a grande rã da preguiça, a do ler e do pensar,
e todas as outras rãs.
Rãs do lago de Aristófanes. Quem?
Rãs que mortificam
Rãs que amordaçam
Rãs que prendem
Rãs que nada fazem a não ser serem rãs: Carnívoras, venenosas, pegajosas.
Rãs que à falta de tomates fizeram do cérebro uma bola de futebol.
E no vazio do crânio o vácuo é a ilusão da inteligência.
*
Portugal é um quarteirão de vários quilómetros no inferno de Dante.
*
O verde da inércia, um certo tipo de verde, não é o verde daquela
paisagem cheia de milhafres, gansos e cedros.
Daquele lago azul onde passei a minha infância.
Hoje só me resta mar dentro de mim e cagarros.
É urgente cantar a natureza outra vez, queimar as interjeições e das suas cinzas criar
uma nova água de pensamento.
Límpida, pura e com traços da última impressora.
É urgente ensinar isso
numa linguagem direta
e crescer crescer crescer até ao mais profundo do Amor.
País eunuco
sem tomates e sem voz
só a natureza poderá salvar-te
fazer crescer entre as pernas a mais bela flor.
(19.02. 2015)
de Dentes Tortos (2017)
LENDO MALEVITCH
a José Manuel Teixeira
No deserto do real na espada que
abre
para a diagonal tudo dança no rápido
artifício onde a mistura dos corpos
fluem em
dinâmica expansão. Extensão. Contração.
Tudo cai além da
visível porta de preciosos
tons sem que o tempo seja chamado. E
Peter eötvos de perna cruzada lê
Malevitch
sentado na sua cadeira de palha virada pra
o lago suíco. E o tempo que lhe vai escorre
ndo
pelos dedos que seguram as páginas do ma
nifesto
desenha toda a pauta na já de si cheia cabe
ça de sons.
Mas temos de dizer que esta cadeira de pa
lha não
existe porque o plano desmonta-se tão rápi
damente
que não chega a dar a forma ao som que ex
plode.
O negro quadrado dança indiferente aos co
rpos
que se movimentam. Todos desejam
fundir
mas nenhum chega-lhe para o abraçar. E vo
ltando do sonho eis que a pauta
já se encon
tra escrita. Nela está este meu corpo moído
e estendido na plana superfície da emoção.
POEMA ALTERMODERNO
DE RECRIAÇÃO NEOCONCEPTUAL
DEPOIS DE RELER A PORTA DE DUCHAMP
DE/ A ROSA MARIA MARTELO
a)
Toda a música foi
desligada neste poema.
b)
Ler o mais lento possível.
c)
Uma paisagem derrete na memória.
Imaginar dois rios secos como duas frases
sem ligação.
d)
INSTRUÇÃO #4
Reescrever mentalmente a
palavra instrução
invertida num espelho
e)
Deixar cair o olhar na coluna que
cai
cai
cai
cai
cai
cai
f)
Reler todo este poema
rodeada de flores.
g)
Escrever dez vezes a palavra Sistema
e queimar de seguida.
h)
Imaginar que este verso é a linha do horizonte.
I)
Parar de ler por dois segundos.
Fechar os olhos.
j)
Imprimir este poema
morder o Canto Superior direito
e
atirá-lo ao lixo.
Marcel Duchamp - “Dust Breeding”, 1920.
Livros, filmes, ideias.