A transformação de Portugal segundo Agostinho da Silva – breve aproximação

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Grande parte da produção ensaística nacional dos últimos duzentos anos centrou-se numa necessidade de pensar, ou regenerar, um Portugal a padecer de enfermidades várias, das quais se destacam as conhecidas crónicas crises económico-financeiras que até em termos de mentalidade acabaram por ter reflexos na vida lusitana. Produzida em tempos em que as ciências humanas ainda não eram vistas com o rigor e o carácter científico (e até técnico) de hoje, por elites político-culturais não necessariamente ligadas ao meio académico, essa reflexão em torno do sempre urgente tema do reformar o país, de criar um Portugal futuro desligado do polimórfico vocábulo “crise”, não conheceu a objectividade que por vezes se exige a quem escreve história ou ensaio. A obra de Oliveira Martins, historiador oitocentista, tantas vezes criticado pelo carácter narrativo, subjectivo, pouco isento, com que historiou o Portugal do seu tempo, é demonstrativa de uma forma de pensar no papel que não obedecia à ciência académica, aos imperativos do rigor e da neutralidade. Também no abundante trabalho escrito de Agostinho da Silva se enquadra não só esta vontade de transformar Portugal, mas de modificar os homens de maneira a instaurar novas formas de viver regidas pela liberdade, palavra fundamental para o entendimento de um homem que perdeu o seu posto na função pública por se recusar a assinar um documento a atestar que não participaria em associações clandestinas (opostas ao regime ditatorial)[1].

 Agostinho da Silva não foi convencional e não se exprimiu como alguém convencional. A sua escrita floreada e redundante, como as suas respostas aos entrevistadores da RTP[2], aponta para caminhos incertos, parece girar em torno de toda a história de Portugal para chegar a lado nenhum. É fácil para um jovem vindo de Inglaterra, como era Miguel Esteves Cardoso na altura em que o entrevistou, em 1990, encontrar lacunas no que lia, dizer na cara do autor que a sua obra lhe parecia superficial ou oca[3]. Para alguém que leia alemães, ingleses, que se fascine com o progresso europeu e americano, ler o filósofo português é como entrar num universo provinciano, datado. E a verdade é que a obra de Agostinho da Silva, apontando para a liberdade de todos os homens, é ao mesmo tempo profundamente patriota, enaltece o que é nacional, o que não sofreu a para si negativa influência estrangeira[4]. Por conseguinte, ao entrarmos no universo escrito de Agostinho da Silva, precisamos de ir prevenidos, em primeiro lugar, para um estilo de escrita pouco dado à objectividade, pouco seguidor de fórmulas que a Academia dos nossos dias conhece, e depois, por um tom patriótico e messiânico, de exaltação da monarquia, a que recorreu para perspectivar as potencialidades portuguesas.

O Portugal futuro desenhado por Agostinho da Silva é pouco claro, e nesse sentido contrasta com o trabalho levado a cabo, por exemplo, por Raul Proença, Jaime Cortesão ou António Sérgio, figuras ligadas à Seara Nova, revista a que também Agostinho esteve ligado. Ao contrário destes conhecidos nomes, que apresentaram propostas concretas,  ligadas ao desenvolvimento económico e material, Agostinho da Silva pautou-se por utopias. Para o grupo da Seara Nova, o signo essencial era o da acção, o da transformação prática, e era por esse motivo que Agostinho dos seus membros dizia que jamais haviam sido aquilo que poderíamos chamar “intelectuais puros”[5]. Se o filósofo se debruçava sobre a economia, se sublinhava a urgência de desenvolver a tecnologia, era para afirmar que a economia deveria desaparecer por completo, que a humanidade dever-se-ia libertar dessa escravidão chamada trabalho. A sua ideia era a de que o homem deveria ser criatura livre no tempo e no espaço, livre de categorizações auto-impostas.

Não obstante seja para o futuro que Agostinho aponta, é no passado que a sua obra se move, na glorificação dos heróis nacionais, na defesa do que é mais tradicional e puro na cultura portuguesa. Por outro lado, mais do que exaltar o espírito dos Descobrimentos, como fizeram tantos outros autores, interessa a Agostinho destacar as lutas pela independência contra Castela. Observa mesmo que o que Portugal fez de maior no mundo não foi nem o Descobrimento, nem a conquista, nem a formação das nações ultramarinas, mas o ter resistido a Castela. E no seu entendimento não houve batalha mais importante na Europa do que a de Aljubarrota[6]. E era por tanto e tão bravamente ter resistido às pressões castelhanas que Portugal representava uma esperança de “futura liberdade” para as outras nações da Península: “Portugal é, de todos os cantos da Península, o único que tem verdadeiramente génio político, talvez, de todas as gentes que falam latim pelo mundo, o único real herdeiro do povo romano"[7]. Contudo, este mundo profundamente nacionalista de Agostinho da Silva é também idealista, utópico, isto é, irreal, “não das existências mas das essências intangíveis, puramente ideais”[8], sempre do futuro, às vezes imaginário, como aquele em que se imagina D. João VI a decidir criar um universo português feito de nações independentes e livres com o seu centro de gravidade não mais em Portugal, mas no Brasil. Paradoxalmente, este alargamento de Portugal ao Brasil não era visto por Agostinho como uma forma de tornar Portugal cosmopolita, antes como um modo de livrar o país das daninhas influências europeias que não o tinham deixado ter nem regime cultural, nem acção política “verdadeiramente adequadas à sua mentalidade"[9].

A complexidade ou densidade da obra deste pensador português não se restringe a entrevistas ou a dois ou três livros que possamos citar, mas o interesse aqui não era analisar Agostinho da Silva na sua totalidade, antes contribuir para entender as suas propostas para o porvir nacional. E o que se encontrou não é simplesmente interpretável. O caminho visionado pelo filósofo é de índole imaterial. A sua leitura da história de Portugal tende a encontrar grandeza onde outros viram decadência, e encontrar decadência onde outros vislumbraram progresso – a Europa, por exemplo. Quando lemos qualquer dos seus livros, a percepção que fica é a de estarmos no reino da impossibilidade, da utopia. E assim se depreende que a filosofia de Agostinho da Silva, pelo menos no que a estes temas se refere, ultrapassa os limites da história e da filosofia, chega a ser um longo devaneio literário cujo destino final é somente pensar. E talvez não haja outro sentido para a escrita do que o pensar.   

 

 

 

 

[1] Não ter cartão de contribuinte português era outra prova deste espírito sempre inclinado para o ser livre.

[2] Intituladas “Conversas Vadias”, estas entrevistas realizadas em 1990 podem ser encontradas no arquivo da RTP: https://arquivos.rtp.pt

[3] As palavras usadas por Esteves Cardoso foram certamente outras, mas o seu sentido não diferirá assim tanto do que aqui escrevo.

[4] Um dos momentos que assinalam a decadência portuguesa é, para Agostinho, o Renascimento, que trouxe do estrangeiro as mais diversas influências (literárias, linguísticas, etc.)

[5] SILVA, Agostinho da, Só Ajustamentos, Salvador da Baía, Imprensa Oficial da Bahia, Salvador, 1962, p. 133. 

[6] Id., Ibidem, p. 31.

[7] Id., Ibidem, p. 33.

[8] Id., Ibidem, p. 81.

[9] Id., Ibidem, p. 106.

Eram 3 da madrugada

Entrou no carro, sentou-se e atirou as chaves para o assento do lado. Eram 3 da madrugada, bebera mais do que a conta, tinha os olhos esgazeados e o sono já se fazia sentir, mas nada disso o incomodava. Fixava um qualquer ponto que estivesse na sua cabeça, algures ali perdido nas ideias dele, e era assim que nenhuma das luzes da noite lhe penetravam retina adentro e o acordavam do transe. Pensava num amor, pensava na súmula de quase um ano sem trabalho à caça de biscates aqui e acolá, na maioria das vezes ilícitos, para poder sustentar a sua vida, e a enviar currículos por e-mail com cartas de motivação insossas anexadas e, com o seu envelope encarquilhado, a entregá-los de porta a porta em estabelecimentos que lhe pareciam ora decentes, ora decadentes. Por esta altura, pouco lhe importava. Estudara e trabalhara na área de estudos que agora parecia rejeitá-lo. Fora para o estrangeiro uma temporada, sacrificara a relação com a namorada, não logrando absolutamente nada. Intentara de retomar com a namorada, mas também em vão, não se sentia uma prioridade na vida dele, “nem secundária, nem terciária, nada”. Tinha a sensação de ter feito todas as escolhas erradas na vida. Estava bem quando se encontrava com os amigos, faziam-no sentir-se melhor, anestesiavam-lhe a dor entre chalreios e copos. O problema era o caminho para o carro, aquele moroso rebobinar da vida, de coração na boca e de mãos apertadas na garganta. Foi assim que chegou ao carro, alucinado, pronto para voltar para as quatro paredes de sua casa que pareciam amachucar-se e prestes a cair-lhe em cima a qualquer instante. Ultimamente pegara no volante neste estado, como se desafiasse a morte, e ciente disso. Era ele e o sono que lutavam por uma existência, efémera e prolongada ou eterna. Queria testar a sua sorte: nas estradas desertas, na ponte, nas bermas, nas localidades, tentar não esbarrar-se nos passeios, passando por cima das tampas soltas das sarjetas, ou uma poça de óleo na estrada que lhe desgovernasse o carro. Foi enquanto isto que voltou a si e reparou na aranha que pendia do retrovisor. Lembrou-se das palavras de um poeta: “tal como a aranha, sê paciente”. O caraças, é o que é, resmungou, que me sacudam com o chinelo. Ligou a ignição e seguiu caminho.

Charles Bukowski, uma leitura de poesia

tradução de João Coles

olhem para eles.
este lugar é como um bar,
vendido,
poeta e público ambos bêbedos.
de quando em vez uma lâmpada flash apaga-se,
o microfone ainda não funciona,
o poeta está sentado,
uma oportunidade para beber mais.
uma rapariga aproxima-se,
fofa, sexy, psicótica,
tem um dos livros do poeta
aberto para o autógrafo,
ele escreve, "rachava-te toda em três minutos",
esquece-se de assinar o seu nome,
faz uma pausa para beber outra vez.
o microfone funciona,
agora sim, o poeta lê,
sentido-se incitado,
esquecendo-se que aceitara ler por dinheiro.
depois de vários poemas o poeta levanta-se,
anuncia, "suas grandessíssimas merdas ranhosas,
vocês julgam que isto é fácil, isto não é nada mais do que a porra de uma sangradura".
"dá-nos mais sangue!", grita um jovem rapaz lá
do fundo.
é o melhor poema da noite.

o poeta emborca meio copo de whiskey puro,
acende o charuto, exala o fumo.
por vezes riem,
por vezes aplaudem,
confundem-no, como a maioria das coisas.
ele vai beberricando até ao final,
e então outra miúda fofa, sensual e psicótica aproxima-se da sua mesa,
diz que é do jornal regional, que gostaria de fazer algumas perguntas.
ela senta-se,
ele responde à primeira pergunta,
olhando para o seu cabelo e para os seus olhos,
imaginando-a na cama com ele,
"o que pensa sobre F. Scott Fitzgerald?", pergunta,
"eu nunca", responde, "penso nele",
abanando a mão em ênfase despreocupada
entorna a cerveja em cima das suas calças de ganga justas
dizendo, "meu Deus, meu Deus, peço desculpa",
esfregando as suas mãos pelos joelhos e pelas coxas molhadas dela acima
como a secasse.
ela vai-se embora e o promotor aguarda-o com o dinheiro,
$432.
"merda", diz o poeta, "vocês prometeram-me $500",
"bem, tivemos de pagar $68 a estes dois matulões para impedir que o público lhe caísse em cima",
"quer dizer que fui assim tão bom?", perguntou o poeta,
"tão mau", diz o promotor,
levantando-se e indo-se embora.
o poeta serve outra bebida,
pega no microfone, "ouçam, ainda não acabei,
vou ler-vos outro poema",
alguém corta a corrente ao microfone.
ninguém protesta.

o poeta abandona a mesa
e consegue chegar à casa de banho.
está de pé e de pé mija.
um homem a seu lado também está a mijar.
o poeta vira-se para o homem,
"ouça, amigo, onde é que posso arranjar um belo naco?",
"estava para lhe perguntar a mesma coisa", disse ele.

Da última leitura pública de Bukowski, em Redondo Beach CA, 31 de Março, 1980


giving a poetry reading

 

look at them.
this place like a bar,
sold out,
poet and audience both drunk.
now and then a flashbulb goes off,
the mic still doens't work,
the poet sits,
a chance to drink more.
a little girl comes up,
sweet, sexy, psychotic,
holds one of the poet's books
opened to autograph,
he writes, I could rip you apart in 3 minutes,
forgets to sign his name,
pause for another drink.
the mic works,
now the poet reads,
feeling put upon,
forgetting that he has agreed to read for money.
after several poems the poet stands up,
announces, you god damn slimy shits,
you think this is easy, this is nothing but a motherfucking bloodletting.
give us more blood, screams a young boy from the back.
it's the best poem of the night.

the poet drinks off half a glass of straight whiskey,
lights a cigar, hacks it out.
sometimes they laugh,
sometimes they applaud,
they confuse him, but most things do.
he drinks his way to the finish,
then a another sweet sexy psychotic girl comes up to his table,
says she's from the local paper, that liked to ask some questions.
she sits down,
he answers the first question
looking at her hair and her eyes,
immagining her in bed with him,
what do you think of F. Scott Fitzgerad, she asks,
I never, he answers, think of him,
waving hand in nonchalant enphasis
he spills a large beer across her tight blue jeans
saying, jesus, jesus, I'm sorry,
rubbing his hands along her knees and her wet thighs
as if to dry her
she leaves and the promoter awaits with the money,
$432.
shit, says the poet, you promised me $500,
well, we had to pay these two big guys $68 to keep the crowd from swarming over you,
you mean I as that good, asked the poet,
that bad, says the promoter,
getting up and leaving.
the poet pours another drink,
grabs the mic, listen, I ain't finished yet,
I'm going to read you another poem.
somebody shuts the mic power off.
nobody protests.

the poet gets dowm from his table,
makes it to the men's room.
standing stands pissing.
a man next to him is also pissing,
the poet says to the man,
listen buddy, where can I get a piece of ass,
I was going to ask you the same thing, he says.

Kazuo Ishiguro

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Ontem foi dia de Nobel da Literatura, venceu Kazuo Ishiguro, do aclamado The Remains of the Day, que o cinema ajudou a popularizar. É um autor pouco, e talvez mal, traduzido em Portugal (desconheço a situação brasileira), a Enfermaria deixa aqui a tradução de um retrato que a célebre revista francesa Le magazine Littéraire fez dele em 2015.

“Chegado ao Reino Unido, vindo do Japão, com seis de idade, o autor de The Remains of the Day tornou-se um dos escritores britânicos mais emblemáticos. Com uma fleuma inoxidável, há dez anos que não publicava um novo livro.

Antes de mais, há uma extraordinária dualidade: a face indubitavelmente japonesa e a expressão absolutamente britânica. Quem é Kazuo Ishiguro? A primeira vez que o encontramos, em 1997, aquando da publicação em França do seu romance The Unconsoled, tinha-nos recebido na sua casa londrina, tipicamente inglesa, «ou melhor, tipicamente inglesa como a imaginam os franceses», corrige ele hoje. Fomos embora um pouco desorientados: um escritor anglo-japonês, capaz de escrever com o absoluto domínio do estilo «japonizante», até mesmo japonês, e ao mesmo tempo capaz de se inscrever na mais pura tradição romanesca britânica (The Remains of the Day), antes de construir, com idêntico sucesso, uma obra claramente da Mitteleuropa (The Unconsoled). Estavamos, com certeza, na presença de um problema de identidade...

Dez anos depois do seu último livro, Never Let Me Go, surpreende-nos novamente com The Buried Giant, uma espécie de narrativa «pós-Arturiana» palpitante, cheia desse realismo mágico que fez o sucesso da literatura latino-americana e marcou, para o melhor, toda uma geração de autores britânicos vindos de fora. Ocasião para, neste novo encontro num bar de um grande hotel parisiense, tirar tudo a limpo. «Não, não tenho problemas de identidade. Sinto-me britânico, e de uma certa forma muito inglês, mesmo se a minha parte japonesa é para mim importante. Cresci na Inglaterra, vi a sociedade mudar, e enquanto escritor tive a minha parte de responsabilidade nessa mudança. Por isso, sinto-me cada vez mais inglês.»

Rápido salto no tempo, como nessas analepses que ele tanto usava nos seus primeiros livros. Estamos em 1960, Kazuo Ishiguro tem 6 anos, o seu pai é convidado pelo governo de sua Great Majesty a vir prosseguir em Guildford (Surrey) as investigações em oceanografia. A estadia devia durar 3 anos, será definitiva. Quinze anos depois do fim da sangrenta guerra que opôs o Japão aos Aliados, imagina-se que não terá sido propriamente fácil para o jovem Ishiguro de ser aceite pelos colegas da escola... «Nada disso. Era o único não-branco da minha turma, mas nunca sofri a mínima marca de racismo.» Acrescentando que quando brincava à guerra com os seus pequenos amigos, insistia «para estar no lado dos que combatiam os alemães, não os japoneses. E que se, por azar, os japoneses eram os inimigos, podia fingir ser coreano.»

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Sucesso imediato

Uma infância inglesa das mais banais, ritmada pela ida à Igreja, à escola e a amabilidade da vizinhança. Uma única nota falsa numa noite de «the joyful day of deliverance», tradicionalmente organizada além-Mancha no 5 de Novembro para festejar a derrota da Gunpowder Plot em 1605. A fogueira sobre a qual se queima simbolicamente o manequim do malfeitor Guy Fawkes estava no jardim dos pais de um colega de turma. «Quando ele viu a minha mãe, que tinha ficado na penumbra, a face deformada pela luz das chamas, ficou muito pálido e desapareceu subitamente.» Soube depois que tinha estado alguns anos cativo num campo japonês conhecido pela sua dureza. Até ali muito cordial com os seus vizinhos japoneses, o ex-prisioneiro não tinha suportado a emergência circunstancial de lembranças traumáticas. Mas depois de esta viagem no tempo continuou a manifestar aos vizinhos a mais sincera simpatia.

Passou o tempo, e o rapaz, perfeitamente inserido nos anos 70 britânicos, sonhava ser uma rock star, ou melhor, um guitar hero. Depois fez um ano sabático viajando à boleia através dos Estados Unidos, antes de ir para a universidade estudar literatura inglesa e filosofia. E a escrita? Ela surgiu subitamente aos 28 anos, quando sentiu a necessidade de olhar, antes do desvanecimento total, para a sua breve infância japonesa. Tendo, entretanto, seguido cursos de escrita na universidade de East Anglia, dirigidos por Ray Bradbury, deidicou-se ao seu primeiro romance, A Pale View of Hillis. «Na época tinha um emprego social e não sentia a mínima esperança de vir a viver da escrita, confidencia. De qualquer forma, a literatura não possuia nessa época a aura que obteve mais tarde; a música e a televisão estavam muito mais na moda, um sucesso literário limitava-se a ter uma boa crítica num jornal de referência, nada mais.» O sucesso, no entanto, foi imediato: em poucos livros, distinguidos com vários prémios importantes, entre eles o Booker Prize para The Remains of the Day, Kazuo impôs-se como uma das vozes maiores da nova geração literária, ao seu lado estavam Salman Rushdie, Martin Amis e Ian McEwan.

«Ish», como lhe chamam os amigos, é um autêntico escritor inglês, quase um puro, mesmo se a escrita, pela sua fluidez e limpidez, beneficia, sem dúvida, do legado nipónico. Subsiste uma questão: que coerência há numa obra tecida de universos tão díspares, marcada por tantos saltos no tempo e no espaço? Acreditando nele, uma busca incansável para tentar «compreender o que é verdadeiramente importante para um ser humano». «Enquanto escritor, não procuro tecer uma constatação sobre o que se passa num dado sítio e numa dada época. Preocupo-me com questões mais filosóficas, eternas, universais, mesmo se desconheço as respostas que lhe poderei dar.»

Daí a opção pela via metafórica, escrever de uma forma tal que mesmo os romances como The Remains of the Day, situado numa época e num lugar específicos, não pareçam demasiado realistas, uma maneira de levar o leitor a «procurar neles verdades eternas, e não informação sobre a sociedade da época». Explica que com The Buriet Giant quis colocar a questão da memória dos povos, correndo o risco de confrontar o dogma do «dever de memória», ao qual a modernidade se apega tanto. «Será mesmo necessário manter a memória do passado? Não será melhor algumas vezes esquecer as guerras, os acontecimentos trágicos, afim de evitar novos banhos de sangue? Não sei verdadeiramente o que pensar... Talvez o esquecimento seja preferível.»

Um questionamento que, segundo ele, vale também para o domínio do íntimo. Qual seria a esperança de vida de um casal se cada um mantivesse as memórias dos diferentes passados, acumulando rancor e frustração? Não valerá mais a pena, no fim de contas, à imagem do casal do seu último romance, aprender a esquecer, em nome do amor que se tem pelo outro? E assim tornar a ser uma página em branco, para que o romance prossiga...”