"hoje aprendi a fazer quibe"

hoje aprendi a fazer quibe
cozinhei a abóbora
misturei com o trigo
alimentei meu ócio
e a minha fome
ontem desenhei um camelo
parado num ponto de ônibus
sonhando em voltar para o deserto
amanhã reservarei meu dia para fazer planilhas
e diagramar o futuro
plantei uma semente mas me esqueci o nome da planta - sabe, é tanta coisa que precisamos guardar que acabamos esquecendo todas - ela me dizia com uma voz grave
ela fumava cigarros e comia flores
arrumei a louça bagunçada na pia
eu servia pr'aquilo
arrumar bagunças
poderia ser essa a resposta
já eu me bagunçava tanto
embora mantivesse a pose
parecia organizada
eu sabia que o batom me conferia um ar organizável
era aquele tal lance
de ter fome
a tal fome de se tornar um tudo que não sou
"esse eu falando na primeira pessoa do singular
esta pessoa singular"
esta pessoa
e insistem em nos fazer a pergunta
a mesma pergunta sem resposta
a resposta seria a resposta
o que você faz
mas você o que é você 
faz
você o que
eu eu eu
pronome
pessoal
é irredutível
"eu é qualquer coisa além
aquém qualquer alter outrem"

A importância do não-dito

Hölderlin concluiu a sua obra aos 30 anos

Hölderlin concluiu a sua obra aos 30 anos

Há um artigo/ensaio de Steiner que acho delicioso (delícia de ideias, como temos as delícias do mar), na tradução portuguesa (Miguel Serras Pereira) chama-se “O silêncio e o poeta” e pode ser lido em George Steiner. Linguagem e Silêncio, Ensaios Sobre a Literatura, a Linguagem e o Inumano (Gradiva, 2014).

Confesso uma admiração sem condições pela escrita de Steiner, recai-a sobre mim, pois, a suspeição de um aficionado embasbacado pelo que o entusiasma. Contudo, sou também um veterano da leitura (como do ténis), e pouco dado a fixações. Se gosto de Steiner é muito mais pelas suas qualidades intrínsecas do que por um capricho subjectivo (haverá caprichos objectivos?).

 A centralidade do texto trata das virtudes do não-dito, o palavroso ou cai na banalidade ou num excesso de tipo fáustico. Para chegar aí, Steiner assegura que desde o romantismo alemão, a palavra se foi submetendo à música. Wagner e Nietzsche, cada um à sua maneira, encarnam o ideal da supremacia musical. Revogada em parte a utopia da totalidade musical wagneriana, mantém-se, porém, “a ideia de que a música é mais profunda, mais inclusiva, do que a linguagem, de que irrompe imediatamente das nascentes da nossa existência”. A tese de Lévi-Strauss segundo a qual o compositor é um ser idêntico aos deuses (“un être pareil aux dieux”) prolonga Nietzsche (“A vida sem a música seria um erro”), o sucesso incomensurável de grupos musicais como The Rolling Stones, o tempo imenso que os adolescentes dedicam à música… Isto e pelo menos outro tanto demonstra o declínio da palavra.

Chegado a este ponto, Steiner muda ligeiramente de linha para, declaradamente, criticar o dizer excessivo, como se acusasse o uso pletórico da palavra de, entre outras coisas, ter aberto portas ao domínio da linguagem musical. A estratégia é destacar os autores que se silenciaram no momento certo, que não disseram mais do que deviam, e podiam. Hölderlin deu à língua alemã “uma densidade, uma pureza e uma plenitude de articulação formal inexcedíveis”. E tudo isto foi conseguido até aos trinta anos. Rimbaud escreveu Une Saison en enfer aos dezoito anos, e foi negociar armas para África, de onde enviou um “dilúvio de cartas”, mas sem uma linha que fosse de poesia. Neste caso, diz Steiner, o poeta abdicou porque julgou a acção acima da palavra. Kafka, por seu turno, que desejou explicitamente ver queimados os seus escritos não publicados (continuamos a felicitar Max Brod por ter sido infiel ao testamento do amigo), parece, refere Steiner, que deu ao seu estilo uma vitalidade onde “não há uma só sílaba antecipadamente garantida.” Este vitalismo obriga a palavra a seguir as leis da sobrevivência, banindo qualquer rodriguinho linguístico.

Estes exemplos supremos (Steiner faz alguma batota ao confrontar os mortais com os imortais) levam à conclusão de que as grandes obras têm pelo menos tanto de dito como de não-dito. Ora, já em 1966 Steiner achava que havia uma “massa de textos impressos, por entre os quais temos dificuldades em abrir caminho, desorientados”. E que “Uma civilização de palavras é uma civilização doentia.” A pressão para se produzirem obras-primas sobre obras-primas, “A proliferação da verborreia na investigação humanística”, a coscuvilhice, o “turbilhão de palavreado oco”, o excesso linguístico faz-nos suplicar pelo silêncio (forma, sem que Steiner o diga, de combater a efervescência musical): “O silêncio é uma alternativa. Quando a pólis transborda de palavras cheias de ferocidade e de mentira, não há ressonância mais intensa do que a do poema não escrito.” Era também o silêncio a arma mais temível das sereias, superior ao seu cântico, como nos relembrou Kafka.

É tempo, pois, de parar, peguem nisto à vossa maneira, eu vou abraçar uma árvore. Apesar de ter uma fé absoluta nas palavras.

Charles Bukowski, "o preço"

 

Tradução: João Coles

 

Bukowski durante uma emissão do programa  "apostrophes", em paris  (1978)

Bukowski durante uma emissão do programa  "apostrophes", em paris  (1978)

o preço

a beber champanhe de 15 dólares – 
Cordon Rouge – com as prostitutas.

uma chama-se Georgia e
não gosta de collants:
ajudo-a sempre a puxar
as suas longas meias pretas.

a outra chama-se Pam – mais bonita
mas sem muita alma, e
fumamos e falamos e
brinco com as pernas delas e
enfio o meu pé descalço
na mala aberta da Georgia.
está cheia de
frascos de comprimidos.
tiro-lhe alguns.

“ouçam”, digo, “uma de vocês
tem alma, a outra
tem físico. não dá para
misturar-vos as duas? pegar na alma
e enfiá-la no físico?”

“se me quiseres,” diz a Pam, “vai-te
custar cem dólares.”

bebemos mais uns copos e a Georgia
cai para o chão sem conseguir
se levantar.

digo à Pam que gosto muito
dos brincos que traz. ela tem
o cabelo comprido e dum ruivo
natural.

“estava a gozar em relação aos
cem dólares.” diz ela.

“ah,” digo, “o que é que me vai
custar?”

acendeu o cigarro com
o meu isqueiro e olhou para mim
através da chama:

os seus olhos revelaram-mo.

“escuta,” digo, “não acho que consiga
pagar esse preço outra vez.”

cruza as pernas,
puxa do cigarro

e assim que expira o fumo
sorri e diz, “claro que consegues.”

In Love is a Dog from Hell


the price

drinking 15 dollar champagne —
Cordon Rouge — with the hookers.

one is named Georgia and she
doesn’t like pantyhose:
I keep helping her pull up
her long dark stockings.

the other is Pam — prettier
but not much soul, and
we smoke and talk and I
play with their legs and
stick my bare foot into
Georgia’s open purse.
it’s filled with bottles of pills. I
take some of the pills.

“listen,” I say, “one of
you has soul, the other
looks. can’t I combine
the 2 of you? take the soul
and stick it into the looks?”

“you want me,” says Pam, “it
will cost you a hundred.”

we drink some more and Georgia
falls to the floor and can’t
get up.

I tell Pam that I like her
earrings very much. her
hair is long and a natural
red.

“I was only kidding about the
hundred,” she says.

“oh,” I say, “what will it cost
me?”

she lights her cigarette with
my lighter and looks at me
through the flame:

her eyes tell me.

“look,” I say, “I don’t think I
can ever pay that price again.”

she crosses her legs
inhales on her cigarette

as she exhales she smiles
and says, “sure you can.”

In Love is a Dog from Hell

Soneto Oxidado

 

O céu sob o qual nasci há vinte e oito anos
Começa agora a oxidar nos ângulos
E nas horas em que não estou atento
Uma mão surripia uma ave e desloca o vento
Arranca árvores onde os olhos perdem luz
A mulher despida entre os limoeiros já pouco me seduz
E a boca febril vai abatendo o gado
Um fio de baba faz leito no prado
A mão volta puxando as cabeças velhas à janela
Para as decepar e jorrar muita aguarela
Sobre crianças que começavam a perder o gosto
À luz que sobe de um fogo posto
E que queima os touros de papel quebrado
Num céu cabalmente oxidado
 

Carta sobre "cinema circular" de Frederico Klumb

 

Fred, mano,

na segunda eu terminei de ler o seu cinema circular. você ter encasquetado, ido pro quarto de noite e ficado trabalhando numa plaquete em casa que na mesma noite já era uma plaquete impressa, feita, com selo - "transferidaça", que é um baita nome - capa, dois tipos de papel, achei tudo isso uma loucura bonita, foda. no mesmo dia ou depois de ter comprado a plaquete, não lembro, fui pra internet olhar preço de impressora, olhar guilhotina, me deu vontade de transformar o escritório num cacete de uma gráfica e aí ninguém seguraria a gente. esbarrei nos preços mas continuo animado. isso foi de uma vitalidade imensa. a gente fermentando livros na madrugada, quase clandestinos, eu imaginando aqui que seu livro tá pronto há bastante tempo e não sai e você resolveu publicar outro, um novo, na calada da noite. isso foi bonito, me encheu de orgulho e de suingue, coragem, nó na garganta também porque tenho ficado frouxo esses dias. nada mais acertado dizer que o verso de um dos primeiros poemas do cinema, "todos os dias há alguém parindo a noite". e é legal isso ter vindo de você, que é notívago, talvez não por opção, mas por circunstância agora. acho que uma hora isso muda. não quero que deixe de amar a noite. eu amo. mas desconfio que logo você vai estar esse trem bala de dia também.
e depois vem um "o sol esquenta as penas", com a referência ao Gullar do "Galo galo", mas autônomo, porque realmente as penas são infinitas e aquecer o coração delas é importante. ah, dá uma olhada na p.16, tomara que faça outras tiragens, tem um “do olhos”, que acho que devia ser “dos olhos”, e talvez, agora não tenho certeza, um “a terra” em que cabe crase se eu tiver entendido direito. você se vendo no gato e terminando o texto com desespero por conta de um cachorro que está alto, "o cachorro está alto" é a frase, isso é uma joia, e a conversa entrecortada dessa e da outra prosa da plaquete, a primeira uma conversa desconfiada, a segunda um sonho, mostram uma vontade nossa de contar, de narrar, que eu imaginei que viria, e veio. no seu caso é justo porque já vem do roteiro pra cinema antes, mas a prosa é incontornável. eu também devo ir pra cima dela se deixar de chororô um dia.
vi o Ítalo do seu "moro do rio" que fecha um dos haiku, no seguinte achei bonito um aprendizado do sono que você foi caçar nas traças, é legal ir vendo o poeta e a pessoa dentro do texto, sei que pena pra dormir às vezes. como é doce o livro. é doce. doce como o sergio uma vez me disse que o chacal era doce, doce como quando a gente tá triste mas começa a achar as coisas bonitas mesmo estando triste, doce como o Gagarin do Eucanaã. bonito, doce.
o último poema antes da terceira parte foi o que mais me chamou atenção na primeira lida, acho que pela semelhança de traquejo, mas também porque, pensando agora, a noite que vinha até aqui sendo a noite doce, do trabalho, da criação, da invenção da própria noite a cada noite, muda de figura. a noite que você vinha armando era a noite divina, uma que só existe se empenharmos trabalho e fé, como se ela precisasse ser fabricada pelos fiéis. agora não, a noite vem como Saturno, no último poema da segunda parte aparecem os pastores de ovelhas e o canto deles que sei que te encantou num filme, que filme era mesmo? e os bichos se substanciam naquilo que os mata, passam a ser feitos de lâmpadas. o céu é imenso, os pastores menores, as ovelhas ainda menores, os bichos que batem a cabeça nas lâmpadas no verão menores ainda e o poema ganha a proporção que precisa para falar das abelhas que a noite engole. a noite imensa, voltando à proporção do céu que inicia o poema, se indigna a ir comer as abelhas. e come porque são dela: eu as faço, eu as como. concordam a noite e saturno num "mundo irremediavelmente aceso". e aceso pra contrastar com o breu da noite e da morte, mas também pra lembrar dos holofotes da guerra do Pasolini no tantas vezes retomado texto dos vagalumes, eles também tão pequenos e arriscando serem comidos pelos holofotes num mundo claro e branco e aceso que nos tem cegado e nos cega.
quando vem a prosa que na prática fecha círculo do cinema circular, a gente larga tudo, já que é um sonho, larga a noite, os bichos, e vai pra uma cena arquétipo. como pode algo ser tão signo de uma comunidade como uma jangada com casais e seus bebês carregando um oráculo pelo mar. o oráculo é jovem e gordo e grita "miracolo! miracolo!", como num Fellini, o som estourado e algo espantoso que só espanta o espectador. 
o absurdo permanece comum para quem o fabrica. deve ser isso. queria ver isso desenhado. essa jangada com o miracolo.

Um abraço, obrigado por mais essa.


Heyk
21 de março de 2018.