A Hora Mais Escura


“Te visitan em la hora más oscura todos tus amores perdidos.”

Roberto Bolaño


É nesta época de máscaras, fogueiras e cemitérios, da despedida definitiva

Ao que do verão restou, que todos os amores perdidos, todos de uma vez,

Visitam o silêncio amargo que se instala na letargia da alma arrefecida

Pela longa escuridão dos dias, todos de uma vez, confundindo-se

Numa massa incorpórea de carne, nomes, vozes e promessas,

A cor dos olhos de um com as curvas e ausências de outros, todos aqueles

Cheiros nestas mesmas mãos vazias, gostava de ter lido Bolaño no Outono

Da minha juventude, teria se calhar tocado menos e agarrado mais,

Evitaria coleccionar tanta ruína, nomes no vazio, pedras nos bolsos,

Ou não, quem me visitaria agora, se não esta gloriosa ausência,

Aconchegante como uma lareira onde arde a última lenha numa noite de apagão.



Turku

03.11.2019


ERASED TATIANA

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TORN

           ado*

 

 

                      de colhão para colhão:

                        - não escapas!

                             - Sena

 

a rose

love

freedom

 

 - Glyniadakis

 

 

 

Sem

os doidos

da

compaixão

o mundo

seria

a

peste:

a morte lenta que se agarra a tudo.

É a velha

bola entre prozac e xanax.

 

O menino de bibe

liga para a mãe para apurar o grau de

bacalhau

são -

o único garante vital.

 

O país do puro pássaro é

o meu fantasma:

 viver

junto do mar

nem para

goya  -

esperança cara!

 

No inferno periférico

os

meus  filhos

nascerão ingleses

- cidadãos do mundo -

e  eu zangada

mato

a

menina

educada

a arte de habitar

a solidão de uma cozinha.

 

Abençoada

taxista da nação

poeta

neste país

de vegetação

cortada

calcula a distância certa

que nos pode salvar

o coração

enorme de

ternura sem dentes

 - falo gigante

que cresce cresce.

 

o poeta

sabe que é preciso fechar o olhos

para

poder continuar a amar.

*Apagamento, apropriação e reescrita do poema “O Retorno, 2016”, de Tatiana Faia, do seu livro: “Um quarto em Atenas” (2018). / "“TORNado” - Vítor Teves, Idealização: Setembro/Outubro; Realização: novembro de 2019.

 Nota: O apagamento, e tudo o que lhe seguiu, teve a autorização da autora do poema - Tatiana Faia.

Natureza (quase) morta

A senhora inglesa posa talvez
para um pintor imaginário que não  sabemos;  
ele   há-de fixar-lhe o corpo reclinado
o gesto de quem tenta  reter a última luz
da tarde.
No balcão raso  um limoeiro
botou raiz e frutos
e ela é  a personagem do livro que lê demoradamente,
sem cuidar de saber  de uma outra senhora 
que em Bruxelas negoceia, aos milhões,
a manutenção futura deste sol a baixo custo.

Às  vezes, muito  antes da leitura,
a senhora inglesa dedica  ao atento siamês
um falsete que só ele entende       
e  julga ser ainda escutada
por uns netos longínquos e  de olhos claros
que gritam e fazem caretas como os netos de toda a gente
mas  secretamente  lhe outorgaram já
o pequeno brexit familiar.

 (Cabanas de Tavira
2018)

Captura de Ecrã (9764).png

Carlos Carreiro - “Paisagem com natureza morta”, 1990.

"Fica" de Ingeborg Bachmann

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Tradução: J. Carlos Teixeira

Fica

As viagens terminam,
não mais se sente o vento.
Tomba-te nas mãos
um frágil castelo de cartas.

As cartas são ilustradas
e mostram cada lugar.
Tu retrataste o mundo,
baralhando-o com a palavra.

Quão profundas as partidas
agora em curso!
Fica, para tirares a carta
com a qual se ganha.

in Anrufung des großen Bären, 1956


Bleib

Die Fahrten gehn zu Ende,
der Fahrtenwind bleibt aus.
Es fällt dir in die Hände
ein leichtes Kartenhaus.

Die Karten sind bebildert
und zeigen jeden Ort.
Du hast die Welt geschildert
und mischst sie mit dem Wort.

Profundum der Partien,
die dann im Gange sind!
Bleib, um das Blatt zu ziehen,
mit dem man sie gewinnt.

in Anrufung des großen Bären, 1956

Os nomes da Rosa

“A forma é o traço do informe”

                   Plotino

 

I – MARIA

 

Corpo de mulher rico

em beleza e doçura

Antigo nome de mãe

luz que anuncia em

calmas e singelas tertúlias

a atenção e o perdão

 

 

II – MARTELO

 

Acolher, digerir as palavras

do jovem bardo, distribuí-las em

seguida, exige a mesma força

para manobrar o martelo

primordial, a bigorna e o fogo.

 

Martelo sem e com mestre:

O mestre usa máscara, tem máscara, é máscara.

Os martelos velozes, as grandes flores

dispersas sob as longas barbas dos metrosíderos:

 

Rosas, sombras de rosas

num longo e doce lago de verão onde a doçura

jaz eternamente estendida.

 

 

III – INVISÍVEL COGNOME

 

Os bons professores são sempre

uma mistura de doçura e força

lançam faíscas ardentes em

vastas planícies secas:

 

renascentes películas Malickianas.

 

 

                                                      (28.11.2016)


Nota: Este poema, de 2016, encontra-se em “Dentes Tortos” (2017)

Rachel Ruysch - flowers in a glass vase, with a cricket in a Niche. 1700.jpg

Rachel Ruysch - “Flores num vaso de vidro, num nicho e com um grilo”, 1700.