Memória

Poema de Natalia Ginzburg
(Originalmente publicado em Dezembro de 1944 na revista Mercurio)
Tradução de Hugo Miguel Santos

Os homens vão e vêm pelas ruas da cidade.
Compram comida, jornais, dirigem-se às mais diversas empresas.
Têm rosados os rostos, os lábios cheios e vívidos.
Levantaste o lençol para ver o seu rosto,
baixaste-te para beijá-lo, num gesto corriqueiro.
Mas era a última vez. Era o mesmo rosto de sempre,
mas um pouco mais cansado. Era o mesmo vestido de sempre.
E os mesmos sapatos. E as mãos eram as mesmas mãos
que partiam o pão e serviam o vinho.
Hoje à medida que o tempo passa ainda levantas
o lençol para ver o seu rosto uma última vez.
Quando caminhas pela rua, ninguém te acompanha,
e quando tens medo, ninguém te dá a mão.
E não é a tua rua, nem é a tua cidade.
Não é tua a cidade iluminada: a cidade iluminada é dos outros,
dos homens que vão e vêm comprando comida e jornais.
Podes aproximar-te devagar da janela quieta,
observar em silêncio o jardim na escuridão.
Dantes quando choravas havia a sua voz serena;
e quando te rias lá estava o seu delicado riso. 
Mas esse portão que se abria à noite está fechado para sempre;
e deserta ficará a tua juventude, o fogo apagado, a casa vazia.


Memoria

Gli uomini vanno e vengono per le strade della città.
Comprano cibo e giornali, muovono a imprese diverse.
Hanno roseo il viso, le labbra vivide e piene.
Sollevasti il lenzuolo per guardare il suo viso,
ti chinasti a baciarlo con un gesto consueto.
Ma era l’ultima volta. Era il viso consueto,
solo un poco più stanco. E il vestito era quello di sempre.
E le scarpe eran quelle di sempre. E le mani erano quelle
che spezzavano il pane e versavano il vino.
Oggi ancora nel tempo che passa sollevi il lenzuolo
a guardare il suo viso per l’ultima volta.
Se cammini per strada, nessuno ti è accanto,
se hai paura, nessuno ti prende la mano.
E non è tua la strada, non è tua la città.
Non è tua la città illuminata: la città illuminata è degli altri,
degli uomini che vanno e vengono comprando cibi e giornali.
Puoi affacciarti un poco alla quieta finestra,
e guardare in silenzio il giardino nel buio.
Allora quando piangevi c’era la sua voce serena;
e allora quando ridevi c’era il suo riso sommesso.
Ma il cancello che a sera s’apriva resterà chiuso per sempre;
e deserta è la tua giovinezza, spento il fuoco, vuota la casa.

Poesia Portuguesa Contemporânea e Um País Em Bicos dos Pés

Devemos alegrar-nos, talvez como acontecia nos festivais dionisíacos (ainda sem pulseiras). Saltar por cima desta tristeza que aprendeu a insinuar-se até na garrafa de vinho mais premiada de Robert Parker. É que é muito raro testemunhar a edição de dois livros com a beleza e a importância dos que aqui trago em jeito de nota de leitura (ainda incompleta). Merecem, com certeza, receções críticas mais longas, profundas e, talvez, aborrecidas (sem desprimor, o insípido é uma categoria ambivalente). Espero que outros as façam, eu não tenho o vigor necessário (nem as competências dos hermeneutas canonizados), cabe-me, todos os dias, como Kant, cumprir a circunstância de tarefeiro do Estado, multifuncional e alienado, paradigma da compulsão para um gasto delirante e inútil de tempo. Noutra vida serei outra coisa (Rimbaud diferido), não sei bem o quê, espero apenas deixar menos livros por ler e não adiar conversas com quem (ou o quê, agora temos o ChatGPT) consegue apontar alguns ângulos mortos ao meu olhar.
Quer Joaquim Manuel Magalhães, quer Diogo Ramada Curto fazem crítica cultural, isto é, numa caracterização muito pessoal, analisam e avaliam o que, e como, autores na arena das artes expressaram em obras que vão da poesia ao romance, passando pelo ensaio, artes plásticas e documentos epistolares (as cartas assassinas são maravilhosas). O que disseram (análise), como o disseram (análise), com que intenção (avaliação) e repercussão (avaliação).
Tal é relevante porque acrescenta inteligibilidade aos autores e às obras, mas também porque nos coloca a par do olhar que nos últimos cerca de 150 anos os artistas, em grande medida fenomenólogos visionários, lançaram sobre a viabilidade da arte que praticavam e a distância entre expectativas de receção e o acolhimento de facto pelos seus pares (sobretudo Joaquim Manuel Magalhães) e por um país menor, menorizado, automenorizado, que prefere consumir a sua inteligência a fabricar o enquadramento mítico, vibrante mas impreciso, de destinos heróicos ou lamentar-se de uma pequenez autoinfligida em vez de resolver os problemas reais que impedem um povo e uma cultura de se realizar (sobretudo Diogo Ramada Curto). Os milhares de enunciações performativas, à maneira de John Austin, que lançaram sobre o tempo e o espaço que escolheram recortar da totalidade do universo (numa suprema bazófia, em Os Maias Ega queria contar, literalmente, uma história universal) permite esboçar retratos do humano, da linguagem e da cultura, sobretudo os que compõem aquilo a que chamamos Portugal.
Só um país culturalmente indigente pode desvalorizar, sem qualquer estratégia para lá da pequena maledicência ou de um maniqueísmo estético que aposta tudo na criação e nada na receção, a crítica em geral. Neste caso, a crítica de Joaquim Manuel Magalhães e Diogo Ramada Curto — que é também criação literária, nem tenho qualquer dúvida — permite apoderarmo-nos de sentidos originários de tempos, ações e contextos que sem eles seriam ou significados não reclamados ou significados perspetivados de forma mais redutora. Se é verdade que não há emancipação pura, que em todas as formas de libertação se insinua a alienação, também não deixa de ser uma certeza que a leitura destas obras tornará a cultura portuguesa mais ampla e complexa, mesmo que à custa de se acrescentar saber sobre a sua mesquinhez.

Na Poesia Portuguesa Contemporânea, Joaquim Manuel Magalhães reune, em cerca de 1100 páginas, tudo o que escreveu sobre poesia portuguesa até 2007 (quando percebeu «que nada mais [lhe] apetecia escrever sobre o assunto»). Publicou em revistas, jornais e livros que compuseram obras já editadas: Os Dois Crepúsculos, A Regra do Jogo, 1981; Um Pouco de Morte, Presença, 1989; Rima Pobre, Presença, 1999. A pequena exceção de alguns textos inéditos das décadas de 80 e 90 não altera significativamente a ontologia da repetição, talvez com o sentido, ainda que heterodoxo, de antologia. A decisão de não-escrita podia ter sido interrompida, diz o autor, pela qualidade de três poetas que muito aprecia: Frederico Pedreira, Sebastião Belfort Cerqueira e Marcos Foz. Também a obra coletiva Alcazar (2022) quase o tirava do sossego acrítico. Mas, enfim, no livro estão reunidos os poetas que JMM mais admirou e, nalguns casos, odiou, faltando apenas, na admiração, Fernando Guerreiro, por incoincidência entre as publicações deste e a crítica daquele.
O trabalho crítico de JMM, fazendo autoridade, não é uma visão pura, desinteressada e omnisciente sobre a produção literária, sobretudo poética, portuguesa contemporânea. Devemos levar a sério o que disse numa entrevista a Hugo Pinto Santos (a quem dedica este livro) para o jornal Público em 2018: «Odiaria ser um totalitário do gosto». Mas creio que é incontornável, até para ajuizarmos contra ele, ler o que escreveu. Por duas razões principais: 1- é um bom sismógrafo poético, identifica as fendas criativas que foram aparecendo na poesia portuguesa, não todas, é verdade, mas muitas das relevantes; 2- tem um olhar certeiro, embora por vezes excessivamente cáustico, sobre o modo de ser, e parecer, português, um jornalista dececionado com os costumes, tanto os da elite académica da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa quanto os das famílias remediadas que ciosas do seu estatuto social se tornaram veraneantes no pós-25 de Abril, passando, claro, pelos jogos de receção (do silêncio à hagiografia) das produções poéticas (dos quais não se pode eximir). Além disso, constrói códigos de leitura para mais de 50 poetas, e muitas mais obras, que teremos todo o interesse, mutadis mutandis, em reutilizar, reconhecendo que não somos hermeneutas algorítmicos. E, por último, mas não menos importante, é um bom criador de sintagmas, desses que nos salvam o dia e autorizam acreditar no futuro, por exemplo: «mercenários do ideológicos»; «O fôlego incomparável dos que ganham sem correr.»; ou «Os grandes contributos de um poeta residem, quase sempre, mais num pequeno jeito com que ultrapassa a invenção dominante que lhe é anterior do que em longas páginas de conteúdos, latejos e insurreições.»
1200 páginas, Bestiário, c. 40€, mas há livrarias amigas.

O subtítulo de Um País Em Bicos dos Pés é Escritores, Artistas e Movimentos Culturais. Portanto, um livro de crítica estética e de crítica cultural, ou crítica de costumes. De como na criação estética se inventam e consolidam visões do mundo, por vezes mais precisas e importantes do que na produção científica que tem por vocação, sempre relativa e seletiva, descrever as coisas e as ações humanas (sociologia, história, filosofia, psicologia, geografia…). E Diogo Ramada Curto usa o título para nos dar um vislumbre decisivo sobre como as elites culturais portugueses desde Eça de Queiroz, é aí que decide começar a histórias dos bicos de pés, se elevaram (erguer seria um termo desajustado) sem saberem formar um verdadeiro salto, desses que entusiasmam o público porque os vê como trampolim para que o coletivo suba um degrau na escada da civilização. A inspiração veio de Jorge de Sena, que em Estrada Larga, há mais de meio século, dizia que «era necessário que deixássemos de ser um país de “anões em bicos de pés”, para, através do estudo, passarmos a ser “anões com dignidade”. Só então talvez se descobrisse “que não éramos todos anões, afinal”.» (Citei DRC).
A maior parte dos capítulos é composta por textos já publicados, sobretudo em jornais e revistas (principalmente, Expresso, Público e Contacto). Uma compilação, pois. Mas mantém-se um bom equilíbrio entre a atualidade e o poder de ultrapassar o que nela há de acidental, como Foucault pretendeu fazer na sua «ontologia do presente». São oito capítulos: 1- Eça, Batalha, Fialho; 2- Feijó, Laranjeira, Brandão, Marnoco; 3- Amadeo, Botto, Pessoa, Almada, Sarah Affonso; 4- Mulheres escritoras; 5- Intelectuais e artistas do Estado Novo; 6- Resistentes, pessimistas, lutadores; 7- Memorialismo, comemorações, história; 8- Um meio pequeno, a universidade, a cultura popular.
A introdução começa com: «Saber se há ou não uma mediocridade que nos sufoca é o propósito deste livro.» Um mediocridade alimentada pela falta de ousadia de pensamento, o que significa prescindir da liberdade de pensar. «O respeitinho pelo consenso». E isto é desde logo importante para desvelarmos no passado o código genético que marca o presente, mas também porque «através da análise do trabalho intelectual dos outros, encontramos os instrumentos necessários para o exame crítico do que é feito por nós». A crítica como motor da autocrítica. Sobre a metodologia, seguindo esta linha de raciocínio, escreve DRC: «criar distância, ganhando em objectividade, ultrapassando ideias feitas e fugindo a estafadas lógicas de comemoração.»
600 páginas, Almedina, c. de 30€, também aqui há livrarias amigas.

a lição

o professor está num salário de sessenta mil
e de vez em quando convida a poeta
a vir falar sobre poemas nas suas aulas de poética
o professor frequentemente comenta
que não entende porque é que a poeta
que ele sabe que está num salário de cerca de vinte mil
num emprego que não é a tempo inteiro
não se tenta tornar uma professora também 

a poeta normalmente responde-lhe
que não sente que tenha
grande coisa a ensinar a ninguém
e acrescenta talvez desnecessariamente
que não ter um certo tipo de salário
é o preço que ela escolheu pagar
por uma considerável liberdade 

a poeta de vez em quando repara
que não se sente
particularmente confortável
nesta amizade
mas também
não particularmente desconfortável 

o professor acha a poeta exótica
ela veio de um país estrangeiro
fala a língua dele com um sotaque
que ele a princípio teve dificuldade em classificar
e pensou até de início que ela viesse
de um destes países que estão no centro da europa
certamente não um daqueles lugares mais caóticos
um pouco abaixo da linha dos alpes ou dos pirinéus
a poeta achou que este era
mais um comentário aborrecido sobre sotaques
na vida de uma pessoa
que escolhera viver como poeta
num país estrangeiro qualquer
por razões que não lhe importava
explicar a ninguém 

a poeta não costumava pensar muito
em que tipo de relação tinha com o professor
até que um dia ele lhe perguntou
com que palavra exactamente
se poderia descrever essa relação
a poeta pensou que naquela manhã
um dos seus gatos
uma criatura de outro jeito
doce, calma e brincalhona
trouxera para casa um rato
que teve de se fazer de morto
com um grande caos na cozinha
para poder escapar com vida 

a poeta pensou em como
prendido o gato
para poder abrir a porta
viu o alívio tenso no corpo do rato
assim que ele pôde dardejar
através das vedações dos jardins
a uma velocidade luminosa  

a poeta cujo jeito para o negócio
tinha sobretudo a ver
com errância e melancolia
lembrou-se ainda
de um poema de joão miguel fernandes jorge
sobre comer a última lata de chouriço enlatado no texas
a poeta fez um ar confuso
e brindou o professor com um gélido silêncio
que ela esperou que fosse suficiente
para ele perceber  

o professor puxou a gola do casaco para cima
e endireitou os ombros
a poeta pensou neste gesto em termos
de expressões vagamente sexistas
não raro aplicadas a treinadores de futebol
no seu pequeno país um pouco abaixo
da linha dos pirinéus 

a poeta passou parte da adolescência em nápoles
e concede que às vezes pensa em certas situações
com uma violência desnecessária
pensa no mundo em termos
de enzo scanno e michele solara
a poeta entende racionalmente
que agora vive num mundo
mais civilizado do que esse
exceptuando quando não  

noutro dia a meio de uma aula
o professor sentiu necessidade de apontar
que discordava do uso que a poeta
fazia da palavra errático
no quinto verso da segunda estrofe
do terceiro poema do seu mais recente livro  

o professor notou que era uma palavra
de conotações desnecessariamente negativas
a poeta queria ter respondido
que de vez em quando era preciso aturar
muitas coisas com conotações
desnecessariamente negativas
para chegar a um pouco de verdade e beleza
mas entendeu que esta resposta
seria talvez moralista 

e comentou apenas
que era exactamente
por ser uma palavra negativa
que a havia escolhido 

o professor declarou que
there was no need to get emotional now
over such a small thing
a poeta reflectiu
já quase no fim da sua paciência
que o professor ganhava a vida
a dizer a jovens adultos
que as palavras que escolhemos contavam
mas concedeu que este talvez
fosse um pensamento
um pouco passivo-agressivo 

no elevador a descerem em direcção ao rés-do-chão
o professor aproximou-se demasiado da poeta
até o seu ombro se colar ao ombro dela
a mão dele pousada sobre a sua pasta
a poeta tornou a pensar na palavra errático
o professor olhou a poeta nos olhos
e comentou que as suas pupilas estavam dilatadas
posicionando-se diante dela
ele afastou uma madeixa de cabelo
de cima dos olhos dela
ela colou uma mão à parede e não se mexeu
lembrando-se da sua juventude napolitana
ocorreu-lhe que estavam
ambos no ângulo certo
para que apenas uma de duas coisas acontecesse
e concluiu com alívio
que seria uma joelhada fácil de desferir 

um par de horas mais tarde o professor
enviou à poeta uma elaborada mensagem
que a poeta descreveria
embora concedendo
que não muito positivamente
como poesia erótica de mau gosto
sobre gatos e pupilas dilatadas
um pequeno mapa em quinze linhas
de uma fantasia sexual aborrecida e previsível
sobre dominador e dominado
caçador e caçado
que fez a poeta pensar
no imperialismo mal disfarçado da pax britannica
e naquele poema de alexandre o’neill
aquele em que todos estamos a pensar
a história da moral 

durante várias semanas
a poeta ficou sem saber o que responder
quando finalmente confrontou o professor
ele alegou a ignorância dela
a sua falta de familiaridade
com baudelaire e murnau
com o erotismo expressionista
do centro e do norte da europa
para aceder correctamente ao significado inocente
e apenas puramente literário daquela mensagem
o professor chamou a poeta de má amiga
invocou a mulher os dois filhos
o empréstimo da casa
o casamento de vinte cinco anos
a poeta pensou que eram demasiados pormenores
para uma mensagem tão idiota 

ponderou o quão mediocremente distante se sentia
em tudo aquilo dos poemas de amor
orgulhosos e solitários de hilda hilst
até das falhas da sua própria
má imaginação melodramática
e veio-lhe à memória sobretudo
aquele verso de um poeta grego
em que ele diz que dá força
passar tempo com os mortos
quando os vivos não chegam 

pensou por fim que já não valia a pena explicar
àquele homem
como para ela não existiam
significados literários puramente inocentes
sobretudo não se havia baudelaire e murnau
lá pelo meio
que há palavras que quando usadas
mesmo nas situações mais confusas
mesmo naquelas que nos deixam mais perplexos
exigem de nós apenas estar disposto
a morrer ou a matar
uma coragem quente e simples
de viver à deriva de um sopro
com uma clareza que é sempre
necessária e difícil
para todos e qualquer um  

Amsterdão, Outubro de 2017

Oxford, 28 de Janeiro de 2022

 

Tacto

Tonia Tzirita Zacharatou
Tradução do grego de José Luís Costa

Os meus dedos conhecem duas texturas
a pele e a terra
embora nem sempre consigam
distingui-las.
É o tacto aquilo que perde
um foragido que tenha queimado
as pontas dos dedos
tendo decidido passar a viver
sem impressões digitais.
Talvez até me sentisse eu melhor
se pudesse tocar
a pele seca, a terra
sequiosa que foi a tua
uma pele que eu não sentia
com os dedos mas que se estendia
e transbordava por todos os lados
quando o mundo era ainda
uma casca de laranja
enroscada em torno do meu pulso.


O poema anterior nesta série, bem como um texto introdutório de Androniki Tasioula ao livro de que ele faz parte, Segunda Juventude, pode ser lido aqui.

Desiderio de Ricardo Marques (não edições, 2022)

 

Uma viagem que fiz ficou ligada a um livro de Ricardo Marques, Lucidez (e Outras Sombras), e de vez em quando penso nisso com alegria e assombro. A imagem que se vê na capa é baseada numa fotografia que tirei a um fragmento de uma estátua, uma peça de um rosto de mulher que está num museu relativamente obscuro de Roma, ou pelo menos não tão visitado quanto devia, o Centrale Montemartini, no Quartiere Ostiense. Pouco central, pouco conhecido e alojado numa antiga central termoeléctrica, a única atracção turística de que não fica muito longe é do Cemitério Protestante, onde estão sepultados Keats, Shelley, Gregory Corso e outras pessoas que, bem vistas as coisas, são caras ao imaginário do Ricardo. Este museu reúne um acervo de estátuas romanas que não couberam nos outros museus da cidade e foram ali deixadas, um pouco como em depósito. Mas este depósito é um dos museus mais inacreditáveis que conheço, com obras supostamente menores da antiguidade que são tão extraordinárias quanto obscuras. A fotografia que tirei de uma dessas obras o Ricardo viu-a na rede social mais batida de todas e perguntou-me se a podia usar para um livro seu e eu disse que claro que sim, e depois fiquei a pensar que este episódio era típico da curiosidade e do espírito aberto e um pouco flâneur do Ricardo. Pareceu-me que afinal tinha ido ao Centrale Montemartini por causa do livro dele. E achei que esta ideia de pôr esta cabeça de mulher meio mutilada na capa de um livro chamado Lucidez dizia qualquer coisa de urgente acerca da poética do Ricardo, e Lucidez é de resto um livro que pode ser pensado como contendo algumas artes poéticas, e algumas delas inesperadamente assertivas e urgentes (penso aqui em poemas como “Avidez,” p. 32, “Eles não são os meus pares,”p. 56, “O lepidóptero,” p. 57, “Frag mento,” p. 62) onde aflora um juízo estético/ético que pode, ainda que em alguns destes poemas indirectamente, referir-se aos contextos do que significa escrever poesia. Lucidez é um destes livros que deixa patente o labor – uma palavra melhor que esforço, porque o Ricardo faz tudo isto parecer muito natural: as traduções, as antologias, os livros de poesia, a novela escrita durante a pandemia, as exposições, as leituras de poesia, o conhecimento certeiro e infalível do melhor restaurante de ramen na cidade de Lisboa – de um poeta que escreve não para pregar, nalguma espécie de exposição didática (penso que nada poderia estar mais longe do espírito do Ricardo), sobre o que seja lucidez, mas para tentar reunir alguma num livro que não impõe nada, apenas vai, poema a poema, iluminando a necessidade de falar de algumas coisas que estão no campo de forças desta palavra e, afinal, da profunda necessidade de a procurar, de ir tentando chegar a ela. Escrever desta maneira é uma forma de exploração ética e, por aí, de desejo: envolve uma viva atenção, disponibilidade e vulnerabilidade, que são três condições sem as quais, de resto, acho difícil que se escreva poesia.

Parece-me adequado que a este livro de poemas se tenha seguido, com uma novela ensaística pelo meio (A Varanda, Companhia das Ilhas, 2021), um livro sobre, exactamente, o desejo: Desiderio (não edições, 2022), que colige poemas que o Ricardo foi escrevendo acerca deste tema. Pode-se pensar em Ricardo Marques como um poeta que constrói os seus livros em torno de um só conceito (foi este o caso em Metamorphoses, Ruinenlust, Lucidez e agora em Desiderio), com uma preferência por uma precisão minimalista e por uma certa clareza vagamente derivada da dicção dessa poeta que, de acordo com a classificação sugerida por Miguel Tamen e António Feijó num livro de referência recente, O cânone, não operou qualquer revolução em termos da língua – Sophia.

Não há, em Desiderio, nenhum ângulo particularmente vanguardista. Mas isto talvez seja apenas no sentido em que o que parecem ser por vezes os poemas mais à retaguarda de um determinado momento literário são eles próprios uma forma de resistência ao tempo, que por aí ganham um outro potencial de inventividade e renovação. Mas Desiderio pode ser só mesmo lido desinteressadamente, e na verdade, convida o leitor a isso. Sendo, no entanto, um livro sobre um tema por definição privado – o desejo –, Desiderio faz-nos pensar sobre os discursos sociais que criamos sobre o tema, sobre os ícones e convenções por que estes discursos se expressam (de Antínoo a Leonardo a Corbet a Louis Garrel, passando por Hilda Hilst). E quase todos os poemas buscam um diálogo ou uma reflexão acerca da presença dos outros na nossa intimidade. Desiderio é assim um livro onde se insinua uma ideia de desejo como modo de viver, uma busca do outro à luz de uma certa lucidez, às vezes estoica e irónica, imposta pelo frágil equilíbrio entre triunfo e derrota que desejar alguém traz consigo, expondo assim a vulnerabilidade de quem fala (veja-se um poema como “Entre cão e lobo:” “dois cães conversando seus alvos/ de seara em seara trigo passageiro/ moído amiúde com o tronco/ das árvores a minha mó/ feita em miúdos// dois cães um deles mais lobo/ o outro mais magro/cães que caçam separados/ as sobras nos cantos” (p. 50).)” Noutros poemas, encontramos um eco da desesperada vitalidade de Pasolini de “O Pranto da Escavadora,” um poema onde se lê que só amar e só viver importam, não o ter amado ou o ter vivido: “só a beleza aberta/ aquela que abre é a beleza” (“Noli me tangere,” p. 42). Às vezes esta reflexão é simplesmente sobre o lado estético do desejo, a sua contemplação deslumbrada, talvez com qualquer coisa do tropeço adolescente de que falava O’Neill (penso aqui num poema como “Kouros na Biblioteca Nacional.”). Há um poema assombroso, “Voyeurismo” (p. 74), que numa nota discordante recorda, ou parece recordar, o tipo de desejo clandestino que Jorge de Sena descreve em Sinais de Fogo, um mundo de encontros avassaladores e clandestinos. Este poema é imediatamente seguido por um poema onde o desejo confina com a ternura, talvez com a alegria do amor (“Viçoso Vício,” p. 75).

Com que outras poéticas do desejo dialoga este livro? É óbvio talvez pensar em Ovídio e na sua Ars Amatoria, mas não há em Desiderio o lado expressamente didático desse manual de seduções da Antiguidade. Os poemas que aqui leio não me parecem almejar, porém, ao contrário do que sucede com Ovídio, a uma pedagogia da sedução, são antes sobre momentos privados, intensamente vividos, que são revisitados idiossincraticamente, mais ou menos despretensiosamente (embora haja por vezes uma ironia que terá a ver com uma certa preocupação com uma beleza do estilo e a espaços uma gravitas, reminiscente da dicção de Sophia, que é uma forma de falar da elevação do desejo), o que talvez venha de uma consciência de que no desejo o caçador pode tornar-se facilmente o caçado: penso aqui na lúdica sequência de dois sonetos, “Soneto do Activo” e “Soneto do Passivo” – que ironiza sobre estereótipos limitados que têm que ver com um olhar preconceituoso da heterossexualidade sobre a homossexualidade, mas brincando com o contexto da economia (o que, num contexto diferente, recorda outro livro onde este interesse pela intersecção entre economia e poética está presente, Divida Soberana, de Susana Araújo). A exploração de uma psicologia do desejo que está aqui em causa terá então, talvez, mais que ver com o mundo dos diários de Anaïs Nin, no sentido em que se procura aqui uma descrição da experiência do desejo, do que com Ovídio. Há qualquer coisa de escultório na poesia do Ricardo, de um modo mais geral: eles convidam à contemplação, pedem de nós a delicadeza de reparar nos detalhes onde, como se lê num poema de Franco Alexandre, habita um deus.

Numa breve nota introdutória ao livro, Ricardo Marques explica que Desiderio, em certo sentido, reúne quarenta anos de poesia, a mesma idade que é a sua, que os poemas estavam dispersos e foram sendo recolhidos (o primeiro poema data de 2012, o penúltimo de 2021, o último, “Biografia,” não tem data), que muitos deles nascem de coisas (peças, exposições, filmes) e pessoas vistas em viagens. E acrescenta que foi “essa surpresa da desadequação” que o fez escrever. Esta surpresa da desadequação, que tantas vezes é o primeiro indício do desejo, é talvez o fio condutor mais vital que une todos os poemas deste livro. É também isso que o torna tão adequado. Quia pauper amavi, como diria Ovídio.

Oxford, Novembro de 2022-Janeiro de 2023