Etnografia do Algarve

Êxtase costuma ser da cor do lazúli
O algarve é uma região
Onde existem povos com o jumento domesticado
E outros que não chegaram a tempo
Da escolaridade obrigatória
Nas ruas vêm-se estrangeiros de muito dinheiro
E outros com não muito dinheiro
Por vezes irlandeses gordos e embriagados
E franceses sem capacidade financeira para o sul
Do seu próprio país

O algarve começa neste século
A sua mais frondosa crise de identidade

Pendentes de um bezerro dourado
Ou de um jogo de sombras estrangeiras
O algarve morre aos poucos
Como um areal infinito e atemporal
Que teima em encerrar-se no vácuo
De uma ampulheta dourada

Êxtase costuma ser uma palavra
  Da cor do lazúli
E o que salva o algarve são
Pescadores escondidos em impermeáveis
Verdes, roxos e violetas   de 1986
Encostados às suas bicicletas
Encostadas às suas vontades
Juntos numa esquina sem nada para dizer
O que salva o algarve são senhoras com os dentes necessários
E um lenço a cobrir-lhes o cabelo
Vendem fruta da horta no mercado
Sem cálice nem corola  
O que salva o algarve
É a ria deserta no inverno
E não o deserto de filas de carros
Como se de um conto do Cortázar se tratasse
Sob um sol ardente
Nas manhãs de verão
O que salva o algarve não são as palmeiras que nunca antes estiveram
À la venice beach, chico
São as alfarrobeiras tristes
E as oliveiras mudas
É o canavial que acompanha os riachos
Da serra-mãe
Talvez a revolução seja isso e eu não a veja
Êxtase é da cor do lazúli

Quatro poemas de Israel Azevedo

DANTE

Dura
como pedra, a face
austera. Pesada pena
ao punho crava.
Crava ao punho, a lavra.
Na rubra touca, belas:
folhas de louro
paralelas.

 

ESBOÇO PARA FRANZ KLINE

fortuita moldura ampara a pintura
onde uma face afilada adorna a figura
de dois olhos tristes
de estreita abertura.

 

KOŠICE

mais
do que vastas
obras
entre mãos
tornadas
cores
que cintilam
aos cachos
que dos altares
deslizam
a ter
com olhares
que
arqueiam.

 

TUAREG

atai aos lábios,
    o silêncio de mil desertos

moldai aos ventos,
             dois olhos de areia.


Interior, apontamentos para um ficção

É um vilarejo cujo o calcário do caminhos
obriga os homens a um andar curvado,
ensimesmado, de uma inata errância –
o andar de um homem de algum modo
exilado, embora seja a mesma
a aldeia e mesma a hóstia mascada
e a distância é um abismo que se escava
em busca de seu incólume azul.

Em meio à violência, a melancolia
degenerou para uma suavidade acalanto.
Branco frêmito de chuva entrecortado
pelo guincho de porcos no abatedouro
e a desesperança, crescente, condensa-se
nas manhãs de céu baixo e na neblina
que faz arder a memória e a carne.

Nas esquinas, pick ups enferrujadas
e fios de eletricidade que se cruzam
e engaiolam o infinito. Há obras
interrompidas: montes de areia,
tijolos empilhados, pedras em britas,
a chuva de ontem que ainda goteja
de uma laje inacabada.

De súbito, dois pierrots
(ágeis como acrobatas de um circo
mambembe, inúteis como bailarinos
que encenam uma sonata ao luar
para uma plateia de crianças cegas) –

Dois pierrots, enfim, empertigados
desembainham espadas e duelam.
São homens  - igualmente
tristes brutos vingativos.

O que morre, crucifixa o azul com os olhos
e não consegue delimitar uma única fronteira:
o que é nuvem, o que é chuva,
o que é sol, o que é abutre,
o que é a vida que se desenlaça.

Duelaram pela miséria de uma mulher
de vestidos esgarçados:
grávida, mas que ao sentir
o que gera em suas entranhas, pressente
o arpejo de um mar que não conhece,
mas que traz na fissura dos ossos.

O mar de um país de assassinos.

Carta de Charles Bukowski a Henry Miller

Tradução de João Coles

O casal Webb publicou duas obras de Henry Miller depois de ter publicado os seguintes livros de Bukowski: It Cacthes My Heart in Its Hands e Crucifix in Deathland

[A Henry Miller]
16 de Agosto de 1965

bom, é o meu 45º aniversário, e com esta desculpa esfarrapada tomo a liberdade de lhe escrever – apesar de imaginar muito bem que recebe cartas suficientes que lhe dão cabo da cachimónia. até eu as recebo, a maioria delas bastante vivaz e eléctrica. é quando eles começam a falar de poemas que se tornam insípidos. e ainda apensam os poemas. a ouvir Chopin – sim, por Krristo, sou quadrado em certas coisas – e a beberricar uma cerveja. conheci o seu amigo Doc Fink e as suas piadas sobre os judeus, e também a sua espécie de concepção laxista sobre a sonoridade e a autenticidade. ele trouxe cerveja e a mulher atrelada, ouvi-o e ofereci-lhe uma colagem ou qualquer coisa que tinha feito. ele é o seu protegido, mas, merda, isso não é novidade nenhuma – muitos de nós somos.

em todo o caso, ele ofereceu-me aquele livro de Céline – como é que se chama? – Viagem ao fim da noite. oiça bem, a maioria dos escritores dá-me vómitos. as palavras deles não chegam sequer a tocar no papel. milhares de milhões de escritores e as palavras deles, palavras que não chegam sequer a tocar no papel. mas Céline fez-me ter vergonha do pobre escritor que sou, deu-me vontade de mandar tudo pelos ares. um maldito dum mestre a sussurrar dentro da minha cabeça. deus do céu, parecia um rapazinho outra vez. todo ouvidos. nada se mete entre Céline e Dostoiévski a não ser que seja Henry Miller. enfim, depois de me sentir mal após descobrir a minha pequenez, retomei a leitura, e deixei-me guiar pela mão, de boa vontade. Céline era um filósofo que sabia que a filosofia era inútil; um fodilhão que sabia que foder era praticamente uma impostura; Céline era um anjo que cuspia nos olhos dos anjos e descia pela rua fora. Céline sabia tudo; quero dizer que ele sabia tanto quanto havia para saber se tivermos dois braços, dois pés, uma gaita, alguns anos de vida ou menos do que isso, antes de tudo o mais. claro que ele tinha uma gaita. mas o Henry sabe isso. ele não escrevia como o [Jean] Genet, que escreve muito, muito bem, que escreve bem de mais, que escreve tão bem que nos põe a dormir. oh diabo, enquanto isto estão aos tiros nos telhados; na noite passada deitaram um Molotov na Hollywood Blvd. e na Ivar, que é bastante próxima, mas não próxima o suficiente para me beijar. eu trabalho com pretos e a maioria deles adora-me, portanto talvez devesse pendurar um cartaz ao pescoço a dizer, EI EI! OS PRETOS ADORAM-ME!! mas isso tão-pouco funcionaria porque depois um cabrão dum branco qualquer me daria um tiro. santo Deus, está aqui uma mulher a dar de comer a um miúdo, e enquanto lhe escrevo inclino-me para a frente e digo-lhe, “oooooh, prova um bocado de banana, PROVA UM BOCADO DE BANANA!!” eu, o bebé durão. enfim, passamos todos por isso. têm estado nisto desde que comecei a carta, tenho o rádio ligado e estou a fumar um charuto reles com a minha cerveja. por isso, se isto estiver confuso não é por ter um macaco verde debaixo da mesa a agarrar-me os tomates.

um tudo-nada bêbedo, como é hábito, sim. Chopin revive sob os dedos de...quem? Pennario, Rubenstein? o meu ouvido não é grande coisa. os ossos de Chopin estão mortos e continuam aos tiros nos telhados e eu sentado numa cozinha suja e barulhenta no inferno escrevendo a Henry Miller. mais uma cerveja, mais uma cerveja. persisto com a teoria de não desistir; eu não vou desistir de escrever se tudo voltar à estaca zero, não vou desistir mesmo que mandem um coro de prostitutas pontapear-me os olhos e um grupo de seis zés-pereiras mariconços a dar no bongo à la Havana, meu Deus. não comecei a escrever até cumprir 35 anos e se esperar outros 35 não restará grande coisa de mim. enfim, cumpro quarenta e cinco esta noite e estou a escrever a Henry Miller. tudo bem. acho que o Doc Fink me acha um snob. é que eu não acredito em ir bater à porta de alguém. sempre fui um solitário. vou ser franco: não gosto da maioria das pessoas – elas cansam-me, baralham-me, revolvem-me os olhos, roubam-me, mentem-me, fodem-me, enganam-me, ensinam-me, insultam-me, amam-me; mas, mais do que tudo, falam falam FALAM até que me sinta que nem um gato enrabado à força por um elefante. não me faz bem nenhum, em demasia não me faz bem nenhum. nas fábricas e nos matadouros as pessoas estão demasiado ocupadas para falar, e, por isso mesmo, gostaria de agradecer pela bondade dos meus patrões ricos. quando eles me despedem nunca oiço as vozes deles, e sou o maior filho da mãe que mais vezes se demitiu e foi demitido que alguma vez conhecerá; mas nunca oiço as vozes deles. é atencioso e delicado e cortês e eu saio dali porta fora e nem sequer penso em disparar de um telhado sobre alguém. penso: bem, vou dormir durante uma semana e depois ponho-me à procura. ou vou para casa dar umas trancadas e beber durante a noite inteira. este tipo de coisas. encaixo-me perfeitamente nestes planos. sou um merdas. mas um solitário sobretudo. e agora que tive uns poemas publicados vêm bater-me à porta e continuo a não querer receber ninguém. a diferença é a seguinte, se formos uns solitários e uns zés-ninguém, somos doidos; se formos solitários e um tudo-nada conhecidos, nesse caso somos snobs. hão-de encontrar sempre a prateleira certa onde nos encaixar independentemente do que fizermos. até esta mulher aqui tem de me corrigir constantemente diga a porra que disser. posso acordar de manhã e dizer, “meu Deus, que calor.” aí ela dirá, “tu só achas que está calor. não está tanto calor quanto ontem. imagina que vivias em África...” este tipo de coisas.

onde é que eu estou? outra cerveja? com certeza.

agora a menina quer dactilografar. ok, dá-lhe, querida, dá-lhe. vou buscar a máquina e lá começa o choradinho. “raios me partam, digo-lhe, não vês que estou a escrever ao Henry Miller? não percebes que é o meu 45º aniversário?”

em todo o caso, espero que tenha recebido os 3 Crucifixos. o Webb deu-me 16 e não devia ter-mos dado porque tendo a distribuí-los a torto e a direito, a qualquer pessoa que esteja à minha volta quando estou bêbedo, mais os meus quadros, mas os quadros são um nojo, acho eu, continuo a tentar fazer com que o amarelo sobressaia entre as outras cores, talvez como a minha coluna vertebral. claro, sou amarelo, sou amarelo e sou rijo e estou cansado e estou bêbedo, e a vida dissipa-se como um peido e eu atravesso pelo meio. continuo a pensar no [D. H.] Lawrence a ordenhar as suas vacas, continuo a pensar na Frieda dele. sou um doido varrido. continuo a pensar nos rostos das fábricas, das cadeias, dos hospitais. não sinto compaixão por estes rostos, não os consigo decifrar, é só isso. como frutos silvestres a balouçar ao vento, como caca de pássaro sobre a estátua da vida. que raio. outra cerveja. bom, agora o [César] Franck está no ar. tomamos aquilo que nos dão. embora a S. [Sinfonia] em ré menor não seja má. quando fui casado com uma milionária, estava deitado no tapete bêbedo a ouvir a Sinfonia em ré menor do F. [Franck], ela ficou ali sentada e disse, “acho que essa música é feia” e assim soube naquele momento que o milhão sumira. já não havia volta a dar com ela. e para o provar, nessa mesma noite quando a fodi no quarto, as prateleiras todas caíram e as plantas e as bugigangas desabaram sobre as minhas costas e no meu cu. quero dizer, eu faço um bom serviço, mas não assim tão bom. ela também achou feio eu ter rido na altura. enfiei-o outra vez e vi o milhão a voar, a voar... “não gosto de um homem que faz pouco de si mesmo, não gosto de um homem que ri de si mesmo. gosto de um homem que tenha orgulho.” disse-me ela. bem, tenho de rir porque sou ridículo; tenho uma natureza efémera, eu cago e limpo o meu rabo, estou cheio de ranho e gosma e insectos e ideias grandiosas...mas na realidade sou um merdoso, nada mais do que um merdoso. ora, primeiro apareceu o tipo refinado com o alfinete roxo na gravata e a voz culta. porém, no fim de contas, ela acabou com um Esquimó, um pescador e professor japonês, o Tami, penso que era, é, esse o seu nome. o Tami ficou com o milhão; eu fiquei com o alfinete. presumo que não ouçam Franck.

em todo o caso, espero que tenha recebido os livros. a mulher ocupou-se do trabalho sujo, foi lá abaixo ao mercado e trouxe uma caixa de cartão e recortou-a ela mesma. um amigo teu que afirmou que pagaria pelos livros disse, “cobrarei apenas as despesas de secretariado.” propus 5 paus por um livro, o que não era mau, e uma vez que os meus direitos de autor são de apenas 10 cêntimos por exemplar em cada um dos 3000 livros vendidos, pensava que estava a fazer um negócio da China. presumo que ele tenha achado o mesmo, porque já passaram 2 semanas e ainda não sei nada dele. mas mais tarde lá lhe disse, “se estás nas lonas, esquece.” e suponho que estejamos todos nas lonas. a tumba está sempre à espreita e não lhe podemos fugir com o rabo à seringa, nunca. houve uma vez que vivi num quarto em Atlanta a um dólar e 25 cêntimos por semana. vivi durante um mês com 8 dólares. e escrevi poemas nas margens de jornais emporcalhados que encontrava no chão. sem luz, sem aquecimento. não sei o que é que aconteceu a esses jornais. tenho uma vaga ideia do que me aconteceu a mim. isso é normal, mesmo quando a coisa se torna anormal. estou a dar-lhe muita palha esta noite. ainda está a ler?, pergunto-me. enfim, 45 anos é uma idade triste. 30 foi a pior de todas. sobrevivi-lhes. eu não finjo ter coragem. só me pergunto se a tenho.

agora prepare-se que vou praguejar: naturalmente que gostaria de o conhecer. gostaria de o ver sentado numa cadeira à minha frente. probabilidade praticamente nula. não sou grande espingarda a conversar. não me sinto bem a maioria das vezes. seria como um profeta conhecer Deus. depois ia à casa-de-banho mijar, e eu diria, olha, afinal Deus também mija. não odeie a adulação, Henry, já estava a merecer alguma. já passou por isso. só lhe chamo “Henry” por causa de umas cartas extensas e apatetadas de um estudante qualquer que insiste em chamar-me “Sr. Bukowski” o tempo todo até que me sinta enlevado, mas aquilo que ele quer mesmo fazer é rastejar pelo meu cadáver achatado. em todo o caso, se alguma vez decidir vir cá, ena pá, o meu número de telefone é NO-1-6385 e a morada está no envelope. agora estou a gozar consigo. esqueça.

Céline, Céline, oh meu Deus, Céline. como se inventou um homem daqueles??

outra cerveja.

de qualquer maneira, posto que é Céline, quero que saiba que já experimentei de tudo, independentemente do que escrevo: os bancos dos parques, as fábricas, as cadeias; fiz de segurança num prostíbulo em Forth Worth, trabalhei numa fábrica de biscoitos para cães, partilhei a cela com o inimigo público n.º 1 (que sorte!); tramei e fui tramado; estive nos hospitais com as tripas à mostra; fui para a cama com todas as putas e todas as mulheres loucas de Costa a Costa; todos os trabalhos terríveis, todas as mulheres terríveis, tudo, e só um pingo disto aparece na minha poesia porque ainda não sou homem o suficiente e talvez nunca o venha a ser; fui escorraçado na última La Grande Ronde Review por ser grosseiro, por a minha ortografia ser má. enfim, todo o tipo de golpadas. não comprei o exemplar, não tive coragem, mas contou-me outra pessoa. deram-se ao trabalho de me esfolar ao longo de 5 páginas e meia. talvez esteja a fazer progressos?? mas o que a maioria não percebe é que, apesar da minha ortografia ser má, escrevo boa parte das coisas bêbedo e os malditos dos dedos saltam ao lado e na manhã seguinte sinto-me demasiado indisposto para as ler, salto-as, ponho-as de lado, tal como farei com esta carta. a manhã não é forte o suficiente para aguentar a noite.

bom, em vez de me alongar, acho que me vou deter. certamente e sem dúvida alguma já falei o suficiente. depois de um início de loucos tenho picado o mesmo ponto faz 8 anos num trabalho horrível. mas no outro dia, vendi um quadro por $20. coisa nunca antes vista. alguém de uma pequena cidade na Florida alvejou-me com uma nota de vinte e disse, “mande-me um dos seus quadros.” parece que ainda não estou morto. o Henry nunca morrerá.

Desenhos de Bukowski enviados em apenso a Henry Miller. Lê-se nas legendas "The Age of Christ" e "On turning it down for lack of money"

Sergio Maciel, Tanta vez o cântaro vai à fonte

Sergio Maciel
Tanta vez o cântaro vai à fonte
(poemas mudados para o meu corpo)
poesia

Enfermaria 6, janeiro de 2018, 22 páginas

[Ler e descarregar livro]


Sergio Maciel

Sergio Maciel (1992) é poeta, tradutor e editor da revista escamandro. É graduando em Letras Clássicas pela Universidade Federal do Paraná. Publicou recentemente seu primeiro livro de poemas, ratzara (Dybbuk, 2017). Além disso, é um dos integrantes do grupo de performance Pecora Loca.

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após o estampido, 
lasca tênue
no cascalho
                      sobre o entulho,
ainda se ouve (rente

à aurora):
um signo do infinito
a retina
roendo o rubro das bocas; 

acima,

uma pedra tortura outra
pedra,
            quase estrela,
nas treliças do mundo.

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