Festa da aldeia

Nas ruas batiam-se em latas, davam-se pinotes, cantava-se, dançava-se, tudo se entretinha enquanto a noite clara clamava surdamente por um pouco de sossego. Eu juntei-me à pândega pois não tinha sítio algum para onde ir nem pessoa alguma a quem agradar. Fiz um furor tremendo com as minhas danças modernas que ninguém conhecia, e olhei as estrelas rodopiantes enquanto eu próprio rodopiava sobre o meu corpo que rodopiava tonto pelo chão dançante. Agarrei uma menina pequena para dançar e no espaço de uma dança ela fez-se senhora, e nós casámos, e tivemos até filhos, enquanto durou a festarola. Nunca percebi porque o tempo não passava por mim, e ainda não percebo mas isso é porque ele ainda não passa. E eu por cá me desencontro de mim. O estranho não é continuar uma criança após tantos anos, o estranho é ser este tipo de criança que fui até há poucos instantes. O ter ganho asas também não é de estranhar, é uma consequência natural da vida. Explodiram foguetes numa miríade de cores e a noite ficou ainda mais clara, tanto que julguei que a festa estava no fim, mas afinal tinha apenas começado. Tudo tinha começado. Pensei, onde me sentia bem, realmente bem, era no meu berço, embalado pela voz da minha mãe, pela mão do meu pai, e pela angústia da vida, que me havia perfilhado. A pândega ainda continua, tudo dança ainda, mas eu recolhi-me no canto mais escondido da aldeia, e assim sigo vivendo, rodopiante pela minha vida afora esperando que a festa termine para eu enfim descansar...

Modos de ler Nietzsche

A Enfermaria 6 publicará brevemente um Caderno sobre “Modos de Escrever”, título que organiza, em diversidade, testemunhos e reflexões sobre linhas de escrita. Nele falarei acerca da “escrita de sangue” de Nietzsche, mas hoje quero retomar um tema que me assombra há vários anos: o modo de ler. Sabemos que há diferentes estilos de leitura, por vezes coabitando numa oposição benigna no mesmo leitor: ler a acta de um Conselho Administrativo ou a bula de um medicamento é bem diferente de ler um artigo de Pourquoi nous sommes nietzschéens. Bom, mas alguns dias atrás fiz pelo menos isso (recordo-me agora que li também, além de outras minudências, as instruções de uma fotocopiadora industrial e um pouco de Peter Sloterdijk – Aprés nous le déluge), e essa esquizofrenia hermenêutica não me tornou insano. Por outro lado, ninguém, alfabetizado, julga ler mal, o que justifica talvez o pouco que se reflecte sobre este comportamento. Seria interessante pedirmos às ciências cognitivas que nos ajudassem a compreender este acto de civilidade, marca indelével da cultura ocidental, forma superior de domesticação. Não podendo, para já, apelar a essa moda epistemológica, capaz, segundo dizem, de definir totalmente como conhece o ser humano, sugiro que leiamos Nietzsche a partir das suas próprias indicações. Bem sei que parece servilismo, mas verão que pode revelar-se uma boa linha hermenêutica. A isso acrescento, já no final do artigo, a indicação de um nietzschiano livre, Giorgio Colli, próxima de um vitalismo que o caminhante de Sils-Maria aceitaria com certeza.

A disparidade de que falei acima deve, porém, ser restringida quando lemos Nietzsche, é essa a minha experiência. Até um certo ponto influenciado, confesso-o, pelo que o próprio autor escreveu no §137 de “Opiniões e sentenças misturadas”, Coisas Humanas, Demasiado Humanas[1], onde assegura que os piores leitores são como piratas, roubam aqui e ali, uma ou outra coisa, consoante as suas necessidades, contaminando aquilo de que não precisam. E mais tarde, no Anticristo (§52): ler bem consiste em “saber decifrar factos sem os falsificar pela interpretação.”[2] Portanto, simplificando muito, um bom leitor fideliza-se a um texto e a um método. Claro que não se trata de uma monomania hermenêutica, o próprio Nietzsche leu diversamente, autores e temas, foi, aliás, bastante prolífico. Mas talvez ele quisesse, naquela obra da segunda juventude (quando se é quase sempre positivista), preparar futuras indicações sobre a sua recepção. Estranhamente, apesar de muito ter feito para se tornar incompreensível, ou pelo menos dificilmente compreensível, deixou inúmeras pistas hermenêuticas; ao mesmo tempo que intensificou um solipsismo vital, criou guiões para ser... compreendido. Nietzsche hesitou sempre, é bom dizê-lo, entre o desejo de ser compreendido e a consciência de que não o seria, ou, pior, de que seria mal compreendido (e mais uma vez teve razão). Simultaneamente, projectou-se como um autor póstumo, porventura a única forma de poder escrever com o entusiasmo e a veracidade patentes no seu último ano de vida mental sã (Anticristo, Crepúsculo dos Ídolos, Ecce Homo, os libelos contra Wagner e um conjunto inestimável de Fragmentos Póstumos). Aí dirigiu-se para o seu destino com a certeza de um sonâmbulo. Nietzsche cumpriu totalmente o seu pacto com o futuro: dinamitar a modernidade filosófica e política, assente nas ideias de verdade universal e nacionalismo identitário, ele, perspectivista, que sempre gostou do Sul e, apátrida, se sentia somente europeu.

De qualquer forma, legou-nos várias recomendações hermenêuticas respeitáveis, entre elas costuma destacar-se a do prefácio, §8, de Para a Genealogia da Moral: “Evidentemente, para praticar a leitura como arte é necessário algo que nos nossos dias foi absolutamente esquecido – e é por isto que é preciso tempo para que os meus livros sejam legíveis –, algo que exigiria quase que fôssemos da raça bovina, e não um ‘homem moderno’, é preciso saber ruminar...” Cerca de catorze anos antes, numa carta a Cosima Wagner para o Natal de 1872, compunha já intenções inspiradas na sua formação em filologia clássica: “O leitor de que espero alguma coisa deve ter três qualidades: necessita ser calmo e ler sem pressa. Não necessita introduzir-se constantemente entre as linhas e interpor a sua ‘cultura’.” Exige-se, então, um leitor objectivo, pesquisador mais do que criador de sentidos. É verdade que por vezes, ao longo de toda a sua obra, aconselha o livre arbítrio hermenêutico, mas a ideia de um leitor rigoroso, filológico manter-se-á.

            Isto é muito mais do que uma simples metodologia, a hermenêutica incarna um ethos geral que perpassa por diferentes campos da existência. Tese clarificada no §256 de Para Além Bem e Mal, onde elege um “ritmo e uma lentidão aristocráticos” (vornehmen) contra os “trabalhadores desenfreados, quase se auto-dilacerando com o trabalho”. Um estilo de vida que é preciso educar, como nos indica no belo §334 da Gaia Ciência, onde a partir do exemplo do tempo longo necessário para aprender a gostar de uma melodia estranha, diz ser preciso paciência para amar e ser amado: “[…] Acabamos sempre por ser recompensados pela nossa boa-vontade, a nossa paciência, equidade, ternura para com o que é estranho, na medida em que essa estranheza despe lentamente o seu véu e se revela com uma nova e indizível beleza: – é a sua gratidão pela nossa hospitalidade. Também quem a si próprio se ama, tê-lo-á aprendido por esta via, não há outra. É preciso também aprender o amor [Auch die Liebe muss man lernen].”

Mas a condição da leitura lenta, ruminante, técnica e parcela de um ethos aristocrático (decidido na trilogia solidão, coragem e lucidez, em vez de numa qualquer herança classista), não é a única recomendação de Nietzsche. A par disto, é preciso audácia, curiosidade, desejo de experimentar: “Quando imagino a figura de um leitor perfeito, surge-me sempre um monstro de coragem e de curiosidade que, além disso, é também algo de maleável, astuto e previdente, um aventureiro e descobridor nato.” (Ecce Homo, “Porque escrevo livros tão bons”). No §32 de A Gaia Ciência acentua o carácter de combate hermenêutico quando refere que a sua “maneira de pensar exige uma alma belicosa, uma vontade de fazer sofrer, prazer em dizer não, uma pele dura”. Fazendo uma analogia com a materialidade da digestão, recurso metafórico abundantemente usado para explicar processos cognitivos, dedica, na edição de A Gaia Ciência de 1887 (“Scherz, List und Rache” §54), uma pequena rima ao leitor: “Bons dentes e um bom estômago – / É o que te desejo! / Se digeriste o meu livro / Certamente saberás entender-te comigo!” Há ainda outros guiões remetendo para uma materialização, uma vivificação da interpretação: sugere, por exemplo, que o leiamos enquanto andados, em voz alta, atendendo às sílabas rítmicas, respeitando as modulações, pregas do som, a complexidade fonética dos textos.

Para simplificar o ângulo de entrada em Nietzsche (mas é só a entrada) podemos ler o “Vorwort” do Anticristo, numa página resume bem, mantendo a recomendação do rigor filológico, os atributos do seu leitor: a) deve estar acima dos mexericos políticos e egoísmos da época; b) ser indiferente à utilidade da verdade; c) corajoso em relação ao que é proibido e labiríntico; e) ter ouvidos para a novidade, entusiasmo, respeito, amor-próprio e liberdade perante si. Atenção, liberdade e audácia. Apesar das recomendações, não há, pois, codificações categóricas, Nietzsche nunca quis discípulos em dedicação estéril. E preferirá sempre um leitor arrebatado a um burocrático, sobretudo aquele que esteja disponível para ser mudado pelo texto a esse outro que lê para confirmar velhas certezas ou acumular capital informativo.

É por isso que acompanho Giorgio Colli em Sritti su Nietzsche (Milano: Adelphi, 1980, p. 13): “Na realidade, não há nenhuma necessidade de interpretar Nietzsche, isto é, a que seja determinado conceptualmente segundo uma ou outra direcção, justamente porque a sua acção sobre a vida individual é directa. Basta acolhê-lo, não através de fragmentos ocasionais ou diversamente sugestivos, mas na totalidade e unidade que formam. Este caminho mais laborioso deverá privar Nietzsche de uma falsa popularidade. Em compensação, a sua acção – a que ele queria – manifestar-se-á pela primeira vez, e ninguém pode dizer se essa acção será salutar ou nociva.” Não sabemos, é verdade, mas creio que ao ler Nietzsche se adquire sempre um pouco de lucidez e de probidade, entendendo, como se um raio nos atravessasse, que o trágico pode ser radiante. Por outro lado, com ele resistimos melhor às consequências negativas do nosso cepticismo, nomeadamente os impasses que lastram a acção, e ficamos suficientemente livres para não nos tornarmos reféns de certas convicções.

[1] Prefiro traduzir assim Menschliches, Allzumenschliches (seguindo Filomena Molder), em vez do tradicional Humano, Demasiado Humano.

[2] É bem conhecido a afirmação de Nietzsche sobre não haver factos, apenas interpretações (Fragmento Póstumo de 1886-1887, 7[60]), mas as duas afirmações cabem bem no seu pensamento, os factos do Anticristo ligam-se a uma leitura filológica, enquanto os factos deste FP recusam a ideia de uma verdade universal e transcendente ao perspectivismo humano.

Um jogo de absolutos: Ties de Domenico Starnone

 

Há uma entrevista dada por Domenico Starnone ao Book Review, o podcast de livros do The New York Times, em que há um breve momento de embaraço.[1] Uma das primeiras perguntas que Greg Cole, um dos editores, faz ao escritor italiano versa sobre as semelhanças entre o romance escrito por Starnone, Ties (Lacci) e Dias de Abandono de Elena Ferrante, incluindo uma alusão à investigação (imediatamente vista como infame) de Claudio Gatti, que numa das maiores polémicas literárias do ano passado levou à revelação de que Elena Ferrante seria Anita Raja, tradutora de profissão e esposa de Domenico Starnone. O escritor limita-se a comentar, com um sentido de humor tipicamente italiano, que podia apenas garantir, em absoluto, que ele próprio não é Elena Ferrante (embora esses rumores tenham circulado) e que talvez fosse melhor ideia tentar entreter essa discussão com a própria Anita Raja. Na verdade, é difícil encontrar uma crítica ou sinopse a Ties no mundo anglo-saxónico em que Elena Ferrante não seja mencionada.[2] A própria página do livro no site da editora não é a isso imune.[3]

Ties é uma breve novela publicada pela Europa Editions e Starnone é descrito pela crítica como o menos internacionalmente popular dos principais romancistas italianos.[4] Oriundo de Nápoles, o autor escreveu até à data treze romances, em paralelo com a sua carreira de guionista e jornalista, tendo vencido em 2001 o prémio Strega (o prémio literário mais prestigiado de Itália) pelo livro Via Gemito. Apenas um outro dos romances foi publicado em inglês, First Execution, em 2009 (Prima Esecusione (2007). A tradução e a brilhante introdução de Ties ficaram a cargo de Jhumpa Lahiri e isto talvez merecesse uma nota mais pormenorizada. Lahiri mudou-se para Roma com a família e o seu último livro, In altre parole (2015), foi complemente escrito em italiano.[5] Mas nem o facto de Starnone, um autor com pouca carreira internacional,[6] ter sido traduzido pela vencedora de um prémio Pulitzer, parece concentrar os leitores na relevância desta novela enquanto objecto estranho à “polémica Ferrante.” 

De todos as críticas que se concentram nas ligações entre Dias de Abandono e Ties, (e são quase todas e esta também não vai escapar a essa tendência) as que mais eficazmente evitam o kitsch (de que esta nota não é um exemplo), são as que veem os dois romances como um diálogo literário entre dois escritores sobre um tópico que de resto não é, convenhamos, exactamente inédito na história de qualquer literatura que se preze.

Ties, como Dias de Abandono, é uma novela acerca das consequências de um episódio de infidelidade conjugal: Aldo Minori abandona a mulher, Vanda, e os dois filhos menores, para perseguir um romance com uma mulher relativamente mais jovem, Lídia, cortando completamente laços com eles,[7] e regressando quando a sua relação com Lídia chega ao fim.

Aaron Bady na The New Yorker[8] enumera algumas das semelhanças cruciais com Dias de Abandono – os objectos de vidro que em ambos os livros se partem em resposta à infidelidade (a cena na novela de Ferrante é bem mais gráfica e mais ou menos inesquecível), os animais de estimação que sofrem com a desordem doméstica (mais benignamente em Starnone do que em Ferrante), o facto de em ambas as novelas o casal ter dois filhos, de em ambas haver um vizinho mais velho, mas mais decisivamente na estrutura das duas novelas, a descrição pormenorizada das consequências devastadoras do colapso mental de ambas as esposas, o que tem levado os críticos a estabelecer a comparação com o arquétipo clássico da esposa enlouquecida, Medeia[9], mas talvez aqui se devesse acrescentar, válido para ambos os livros, a meu ver, mais Ésquilo do que Eurípides, e por isso mais Clitemnestra do que Medeia. A esta analogia voltaremos mais abaixo.

Não é irrelevante pensar sobre estas duas novelas em conjunto, se por mais nada porque à superfície parece estabelecer-se um contraponto a partir do qual se torna mais fácil falar sobre a novela de Domenico Starnone. Mas onde Dias de Abandono surge como uma espécie de tour de force em monólogo, concentrado no espaço e no tempo, que converge para alguns dias decisivos na vida de uma mulher que se vê trancada numa casa, a partir da perspectiva única dessa personagem solitária, que procura recuperar o controlo sobre a sua própria vida e a vida dos filhos, tudo isto narrado com uma violência e opressão que talvez só tenham paralelo naquele tipo de narrativas que lidam com transgressões criminosamente violentas ocorridas no espaço doméstico (a tensão e atenção que se exigem do leitor são mais ou menos as mesmas que se experimentam ao ver A corda de Hitchcock, um episódio de Bloodline ou uma encenação do Agamémnon). A novela de Starnone divide-se em três partes e é, assim, cuidadosamente estruturada para incluir a perspectiva de todas as personagens envolvidas (a mulher, o marido, os filhos) e o arco temporal é muito mais amplo (abrangendo várias décadas).

 Na crítica da Asymptote, Stiliana Milkova aponta, e bem, que Ties não oferece uma solução para as perguntas que coloca, a novela termina em aberto, o que em parte tem a ver, creio, com o facto de haver um espaço muito maior para a ambivalência moral das duas personagens principais (Aldo e Vanda, o casal no centro da intriga), o que é muito possivelmente uma consequência de as suas motivações não serem claras nem para elas próprias, em parte porque as consequências das suas acções são bem menos definitivas do que se possa imaginar.

Quando Aldo Minori abandona Vanda e os filhos, ele não regressa nem quando ela faz uma tentativa de suicídio. Para quem leu os romances napolitanos é muito difícil não ver o paralelo com o relapso Nino Sarratore. E, no entanto, há que acrescentar que a secção narrada por Aldo é a mais longa em toda a novela e é difícil não sentir empatia pela sua perspectiva. Mas um pouco como no Agamémnon de Ésquilo, não se pode cometer um crime e esperar regressar com impunidade à ordem anterior. A secção narrada por Vanda passa-se em 1974, a de Aldo na actualidade, numa altura em que as crianças há muito saíram de casa e embarcaram nas suas próprias vidas. Mas um assalto ao apartamento, empreendido quando o casal se encontra de férias, espalha pela casa as memórias da infidelidade de Aldo, enquanto ele tenta a todo o custo escondê-las da mulher. Cartas de Vanda escritas naquela altura ressurgem, fotografias de Lídia que Aldo mantivera cuidadosamente guardadas (mas à vista de todos, como transparece), desaparecem misteriosamente. Um tributo à máxima complexidade que este romance alcança envolve o nome do gato doméstico e o significado de um termo num dicionário de latim (sim, eu sei que isto vos faz pensar nas classicistas dos romances de Ferrantes) e nada pode resolver a ambivalência que esta discussão esconde, porque ela assenta afinal no facto de ser impossível definir com toda a certeza as motivações mais íntimas de outra pessoa, se todas as escolhas subsequentes de alguém podem ser lidas à luz de uma decisão só.

Para lá da sombra de Ferrante, Ties é uma novela sobre a fragilidade da felicidade (em geral, não apenas da conjugal, como expresso na trajectória dos dois filhos de Aldo e Vanda) e sobre a força de certos laços. Podíamos até aceitar que o que nos é narrado é deixado em aberto, mas talvez que o isolamento em que estas personagens coexistem, o quão separadas elas estão umas das outras, encerre uma nota sobre uma convenção um pouco mais perigosa, pela qual tentamos viver absurda e absolutamente. Um pouco com a mesma indolência (se não cobardia moral) de Nino Sarratore, Aldo arrasta-se de volta ao lar, para viver durante décadas com uma mulher que nunca lhe irá perdoar a primeira transgressão. A decisão de Aldo, em aporia como surge (o que fazer depois de Lídia o deixar? – a amante abandona-o em parte porque ele sente o dever de regressar a casa para tomar conta dos filhos, mas quem afinal decide por Aldo é Lídia), sugere que esperamos que a racionalidade de certas decisões nos proteja, que acarrete uma legitimidade moral que permita a expiação. Podemos dizer, como se lê na crítica da Asymptote, que Ties deixa as possibilidades do que encena em aberto.

À violência quotidiana que sugere essa abertura, a vingança da paz podre que Vanda afinal impõe, pode bem sobrepor-se outra, a que sugere que enterrar a cabeça na areia não basta. Se, de facto, se quiser ler esta novela à luz de Dias de Abandono, o corte radical sugerido por Ferrante, parece de repente mais tolerável. E a isso talvez não seja alheio o facto de a novela de Ferrante ser afinal também um ensaio sobre a ideia de que estar vivo requer uma certa coragem.

Mas esta é apenas uma das muitas leituras deixadas em aberto pela novela de Starnone, talvez escrita para nos lembrar do outro lado desse argumento, um lado menos absoluto e mais complexo: que nem todas as perguntas têm uma solução e que estar vivo significa que não escapamos às condições contradictórias em que as nossas vidas decorrem. O tempo trai-nos, nota Jhumpa Lahiri na introdução. Deste ponto de vista, não é difícil de entender o quão relevante esta breve novela pode ser, para lá de qualquer polémica literária. Como se lê ainda na introdução:

The novel reckons with messy, uncontrollable urges that threaten to break apart what we hold sacred. It is in fact about what happens when structures – social, familial, ideological, mental, physical – fall apart. It asks why we go out of our way to create structures if only to resent them, to evade them, to dismantle them in the end. It is about our collective, primordial need for order, and about our horror, just as primordial, of closed spaces (p. 12).


[1] https://www.nytimes.com/2017/03/24/books/review/ties-to-ferrante.html

[2] Esta breve sinopse no The Guardian, assinada por Anthony Cummins, é mais ou menos paradigmática. Nas primeiras linhas lê-se: Elena Ferrante’s The Days of Abandonment described a wife’s wrath at the husband who leaves her and their two children for a younger woman. Ties lays out a similar scenario from the betrayer’s point of view, which may be no coincidence, given that Domenico Starnone is married to Anita Raja, aka Elena Ferrante (allegedly).

[3] https://www.europaeditions.co.uk/review/2893 

[4] Veja-se a crítica de Rachel Donadio

[5] A autora fala desta experiência aqui.

[6] De resto uma tendência geral da literatura italiana, pelo menos em relação aos países anglo-saxónicos: https://www.the-tls.co.uk/ferrante-fever-and-other-symptoms/

[7] Não é daí que vem o título. À letra, no italiano, lacci são atacadores.

[8] http://www.newyorker.com/books/page-turner/a-novel-of-infidelity-in-dialogue-with-elena-ferrantes-the-days-of-abandonment

[9] Veja-se, por exemplo, a crítica de Stiliana Milkova para a Asymptote.  

Bater bater no Yuri: banda sonora

Seguindo a publicação do nosso ultimo livro digital, Bater bater no Yuri de Carla Diacov, pedimos à autora para nos dar uma playlist para o livro. O resultado foi esta compilação.

Tem Leonard Cohen, Chelou, The White Stripes, Jack White e Feist. Uma banda sonora lírica e sofisticada, superficial e complicada. Prometemos que cada uma destas canções oferece perspectivas completamente literais sobre certas vivências. Canções que falam do azul eléctrico e da ideia de que um homem não é a sua canção, que aceleram a um rítmico de mazurca e terminam abruptamente, deixando uma presença que permanece, quando o fundo parece estar a esvanecer-se lentamente. Ou seja, as canções certas para um livro que é também tudo isto. É esta a nossa sugestão para hoje. 

Charles Bukowski, "O triturar"

tradução de João Coles

de mais
de menos

demasiado gordo
demasiado magro
ou ninguém.

riso ou
lágrimas

os que odeiam
os que amam

estranhos com rostos como
a superfície de
pioneses

exércitos que percorrem
estradas de sangue
brandindo garrafas de vinho
baionetando e fodendo
virgens.

um velhote num quarto reles
com uma fotografia da M. Monroe.

há uma tão grande solidão neste mundo
que a podemos vislumbrar no movimento lerdo
dos ponteiros de um relógio

pessoas cansadas
mutiladas
seja por amor ou por falta de amor.

as pessoas não conseguem ser boas umas com as outras
cara a cara.

os ricos não são bons com os ricos

os pobres não são bons com os pobres.

nós temos medo.

o nosso sistema educativo diz-nos
que todos podemos ser
manda-chuvas vencedores.

não nos falou
da miséria
nem dos suicídios.

nem do terror de uma pessoa
contorcendo-se num lugar
sozinha

sem que lhe toquem
sem que lhe falem

regando uma planta.

as pessoas não são boas umas com as outras
as pessoas não são boas umas com as outras
as pessoas não são boas umas com as outras
as pessoas não são boas umas com as outras

presumo que nunca serão,
não lhes peço que sejam,

mas por vezes penso sobre
isso.

os rosários vão balançar
as nuvens vão nebular
e o assassino degolará a criança
como se trincasse o cone de um gelado.

de mais
de menos

demasiado gordo
demasiado magro
ou ninguém

mais são os que odeiam do que aqueles que amam.

as pessoas não são boas umas com as outras.
se porventura fossem
as nossas mortes não seriam tão tristes.

entretanto olho para raparigas jovens
caules
flores de oportunidade.

tem de haver uma maneira.

haverá decerto uma maneira que ainda não
pensámos.

quem pôs este cérebro dentro de mim?

ele chora
ele exige
ele diz que há esperança.

não dirá
“não.”

in Love is a Dog From Hell - 1977


The Crunch

too much
too little

too fat
too thin
or nobody.

laughter or
tears

haters
lovers

strangers with faces like
the backs of
thumb tacks

armies running through
streets of blood
waving wine bottles
bayoneting and fucking
virgins.

an old guy in a cheap room
with a photograph of M. Monroe.

there is a loneliness in this world so great
that you can see it in the slow movement of
the hands of a clock

people so tired
mutilated
either by love or no love.

people just are not good to each other
one on one.

the rich are not good to the rich

the poor are not good to the poor.

we are afraid.

our educational system tells us
that we can all be
big-ass winners.

it hasn't told us
about the gutters
or the suicides.

or the terror of one person
aching in one place
alone

untouched
unspoken to

watering a plant.

people are not good to each other.
people are not good to each other.
people are not good to each other.

I suppose they never will be.
I don't ask them to be.

but sometimes I think about
it.

the beads will swing
the clouds will cloud
and the killer will behead the child
like taking a bite out of an ice cream cone.

too much
too little

too fat
too thin
or nobody

more haters than lovers.

people are not good to each other.
perhaps if they were
our deaths would not be so sad.

meanwhile I look at young girls
stems
flowers of chance.

there must be a way.

surely there must be a way that we have not yet
thought of.

who put this brain inside of me?

it cries
it demands
it says that there is a chance.

it will not say
"no."