Um quarto em atenas, poética do acontecer (recensão)

Um quarto em atenas .jpg

“Grande parte da luz de que dispomos sobre a nossa condição essencial e interior
é ainda a que nos proporciona o poeta.” (George Steiner)

I

(Tatiana Faia)

Tenho por Tatiana Faia uma admiração sem reservas, alimentada pelo esplendor do seu pensamento (raramente vi alguém que faça tão poucas concessões às frases feitas, ao mesmo tempo que não tem qualquer prurido em utilizar a linguagem comum, essa que respira connosco) e pela qualidade e coerência éticas: pensa e é, vai sendo, como um raio de luz que atravessa a escuridão.

Um quarto em atenas (Tinta da China, 2018) surge depois de Lugano (Artefacto, 2011), Teatro de rua (do lado esquerdo, 2013) e São Luís dos Portugueses em Chamas (Enfermaria 6, 2016). Durante este período, que pode não coincidir completamente, fez um doutoramento em Literatura Antiga, trabalhando sobre a Ilíada (muito mais do que um livro e só um pouco menos do que um mundo inteiro). Não sei bem de que modo todos estes exercícios de pensamento e de escrita contribuíram para o seu último livro (as obras de arte são feitas de continuidade e ruptura), mas se me fosse dado a ler um quarto em atenas sem qualquer referência à autoria (uma leitura às “cegas”), não a receberia como uma obra inicial, apostaria antes num poeta com muitos anos de vida, alguém com tempo para desenvolver a difícil disposição de apanhar a realidade com uma rede simultaneamente larga e fina, de geometria variável. Larga, porque Tatiana percebe os sismos que abalam o mundo (e hoje tudo é mais instável, embora as tensões eclodam sob o manto uniforme e quase sagrado do consumismo), deslocando-o da órbita que, contudo, terá sempre uma parcela da sua centralidade na Grécia Clássica. Fina, porque se interessa pelo significado das pequenas coisas que compõem o registo mais prosaico da vida humana, materialidade aparentemente pobre, mas sem a qual tudo se esfumaria. Ela dilata o nosso conhecimento da vida quotidiana anónima, muitas vezes mais importantes do que as acções heróicas de meia-dúzia de predestinados. Apesar disto, não descura um estrato metafísico onde se alojam nervos que intensificam – emocional, moral e politicamente – a vida. Por isso, as visões que tem do “Paraíso Terrestre”, declinadas em cinco pontos, não descartam o sem-sentido, a fealdade, o cansaço, a solidão e o equívoco, isto é, não evitam o mundo terreno, mesmo se percebemos que são lugares, ou gestos, ou sons, ou códigos, ou recantos do seu habitat. Digo isto mas é impossível saber-se o significado preciso do seu vocabulário, da sua sensibilidade, das suas ideias, das suas visões. A distância entre o autor e o leitor, mesmo quando exemplarmente mediada pelo texto (Tatiana Faia vive incondicionalmente nos seus poemas), é desmedida. Fico-me, pois, pelo acolhimento de sentidos que julgo corresponderem a qualquer coisa de parecido ao que a autora quis dizer. Apesar de, como refere George Steiner, o leitor manter com o texto uma relação de “recriação e de rivalidade”. Ou, ainda segundo Steiner, e devido ao declínio insofismável da leitura, devesse frequentar um curso, todos devêssemos fazê-lo, para ao menos me aproximar da complexidade de Um quarto em atenas. Sem isso, o meu pacto de inteligibilidade com a Tatiana será sempre frouxo, impertinente talvez, experimental na melhor das hipóteses. Mas uma coisa é certa: quando a lemos, Tatiana deixa-nos mais livres do que nos encontrou, ela tem esse poder mágico de indicar, com sinais que devemos aprender a decifrar, opções de pensamento e de acção que não imaginávamos viver em nós. Se Bukowski tem uma infindável eloquência obscena, Baudelaire uma exultação selvagem, Eliot o desalento belo do fim do mundo e, para referir apenas alguns, Franco Alexandre sacode todo o ruído semântico para que assome um osso poético logicamente imaculado (embora com cintilações inquietantes), Tatiana mostra-nos que há outras pulsões, não necessariamente extravagantes, que imprimem pequenos, mas importantes, acertos à banalidade, o bastante para, como disse, ampliar a nossa experiência da liberdade (sem que precisemos de ser sacanas ou primariamente especistas para ser humanos). E tudo isto, presença densa, numa espécie de eixo horizontal, se cruza com a cartografia interna da autora. Dizem que para se aceder à condição de poeta é preciso criar uma linguagem própria, a poesia seria uma maneira quase privada, embora encantatória, de falar, do interior e do exterior, do além e do aquém, da vida e da morte, inventariando ainda o desastre identitário que nos lastra (por exemplo, a autora deslocou-se  – emigrou? – num planeta uno, mas ainda marcado pela obsolescência de pátrias geográficas e culturais, para que alguns possam brincar à geopolítica e as massas se embebedem com narcóticos nacionalistas). Tatiana afasta esta exigência de privacidade, outros o fazem também, claro, mas neste caso sem aquela aparente rebeldia postiça de enfant terrible que declara permanentemente a sua especial naturalidade, normalmente inacessível aos mortais mais comuns. Aliás, para ela, num registo de boa modéstia, “a personalidade é a consequência de um excesso / que encontra a sua própria harmonia”. (“Como Reconhecer o seu Escritor Feliz”) Esta harmonia conduzirá (penso eu) a uma calma resignação que nos coloca ao nível dos restantes seres vivos.  

II

(crítica)

Vamos ao óbvio (que devemos continuar a repetir): um crítico não é um maledicente nem um malevolente. Mas conjurado este estigma, não devemos também transformá-lo no seu contrário: um bendizente e um benevolente. Há, como Steiner (é um dos meus gurus actuais, depois de anos a desentender-me com ele), quem exija que o crítico seja um “leitor completo”, capaz de “recriar a obra de arte na sensibilidade crítica”, evitando a trivialidade das impressões arbitrárias. Outros, onde estão bastantes oráculos portugueses, formam autênticos tribunais estético-morais e insistem na ingenuidade ineducável dos criadores. Há ainda quem use uma recensão para expor, sem falhas, toda a sua erudição insípida, desocultando nos originais setas que apontam directamente para eles (espero não me incluir neste bando). Ou, se me permitem convocar Nietzsche (meu eterno companheiro), o crítico ficará sempre assombrado pelo criador, não por um qualquer mecanismo de inveja, mas porque criar é da ordem do milagre (politeísta e sobre-humano).

Mas fiquemos com Steiner (Linguagem e Silêncio. Ensaios sobre a Literatura, a Linguagem e o Inumano, sobretudo pp. 359-386), aquele que melhor serve aqui os meus intentos. O “leitor ideal” procura uma “receptividade completa, uma espécie de vulnerabilidade equilibrada da consciência no seu encontro com o texto.” Parece contraditório falar-se, na mesma frase, em completude e vulnerabilidade, mas sinto que é disso mesmo que se trata: tentar apanhar o texto em toda a sua abrangência (obrigando-se a buscar uma intenção mais vasta do que a presente no estritamente escrito), mas sabendo que ele ultrapassa sempre o leitor, e mesmo o autor. A seriedade hermenêutica é, pois, feita, glosando acidentalmente São Francisco de Assis, de esforço de compreensão e de resignação, um texto e um autor mantêm sempre incógnitas parcelas essenciais de si, sem que isso seja necessariamente premeditado. Bem feita, a “crítica [é] um acto decisivo da inteligência social. O seu trabalho orienta-se, a partir do terreno literário particular, para questões de alcance moral e político mais amplas.” Reforço esta ideia de as sociedades precisarem da “crítica” para o desenvolvimento da sua inteligência (antes disso, claro, deve haver um campo robusto de criação artística e científica).

É por aqui que caminho, às vezes atabalhoadamente. Ler e recriar os autores, respeitando o que quiseram dizer e tentando aumentar um pouco o que fizeram, sabendo, contudo, que a natureza da crítica é ser pessoal, no máximo tem a objectividade que Richard Rorty encontra no “arrepio” que uma obra provoca num dado leitor (com um horizonte de expectativas que não deverá permanecer, os juízos de gosto, ao contrário do que Kant pretendia, são inconstantes, cada geração tem os seus, e mesmo as obras clássicas vão sendo reinventadas). Assim, pretendo, ajudado por um conjunto de conceitos, prolongar até outro campo de inteligibilidade Um quarto em atenas, talvez sintetizá-lo parcialmente, colocando-o nalgumas grelhas categoriais gerais que acompanharam a evolução do pensamento ocidental, apanhar um ou outro desígnio que porventura tenha passado despercebido à autora (a intenção do texto nunca coincide exactamente com a intenção do autor), amplificar um epifenómeno para lhe dar a dignidade estética que talvez mereça... E, bem entendido, quero que mais pessoas leiam Um quarto em atenas.

Apesar deste destaque elogioso à crítica, clamando mesmo pela sua importância vital para o funcionamento inteligente de uma sociedade, recorro novamente a Steiner para expor o outro lado da moeda: “No século XX não é fácil a um homem honesto ser crítico literário. Há tantas outras coisas mais urgentes a fazer.” Além disso, “lerá críticas de poesia ou de teatro alguém que não disponha já de importantes recursos culturais próprios?”. Portanto, fazer crítica literária está entre o irrelevante, ou pelo menos o pouco relevante, e o escusado (uma escala negativa, somente). Mas enfim, a arte e o pensamento vivem muitas vezes do inútil, desse excesso de forças que são desviadas do produtivo para embelezar e sacudir esteticamente o mundo. Vivem fragilmente, não nos esqueçamos que os mesmos alemães que entre a segunda metade do século xix e o início do xx descobriram, e inventaram, a Grécia Clássica se intoxicaram rapidamente com as mais básicas propostas do populismo nacionalista nazi.

III

(Um quarto em atenas)

Por que razão considero Um quarto em atenas uma “poética do acontecer”? Porque Tatiana Faia, sem pretender ser uma neo-vitalista ou neo-neo-realista, usa os fios reais que compõem o quotidiano para desenhar os seus poemas, mesmo quando vai ao baú das Ariadnes antigas buscar instruções ou amostras, perfeitamente actuais, que a ajudam a montá-los. Mas não é uma antropologia poética, nem sequer uma poesia realista, émula do Romance Realista, Tatiana nunca fica refém daquilo que observa, ela escolhe os ecos da vida diária e dá-lhe novas colorações, não enfeita a banalidade para traçar mais um dispositivo pitoresco, quando captura o fulgor do quotidiano quer destacar pequenas economias de sentido que ainda mantêm o Ocidente de pé, mesmo que estejamos, quase literalmente, a nadar em lixo e muito confusos com o nosso declínio. Por outro lado, Tatiana Faia vive bem sem a habitual, e estafada, preocupação metapoética (embora fale bastante sobre o ofício de escrever), ou o acento subjectivista que incha a grandiloquência do eu. Não há também, para terminar esta espécie de fenomenologia da ausência, notas agudas sobre sexualidade ou amor-paixão, esse combustível incontornável de tanta escrita contemporânea.

O que há é poesia, é isso que nos traz a sua voz simultaneamente moldada e moldadora de poesia (cada poeta, ao sê-lo, é demiurgo e criatura do vasto, complexo e profundo campo da poesia). E ao trazer-nos isso, dá-nos algo de precioso e importante, a poesia é uma forma de escrita e de acção que se concretiza na história (e por isso a modifica), e não um efeito cultural menor num modo de vida autocriador, em circuito fechado. Esta generalidade acontece também porque ainda não há gavetas definidas para a Tatiana, e, mas isto é totalmente pessoal e controverso, espero que essa indefinição se mantenha, a ideia de criar e ficar, porventura eternamente, no corredor de um estilo próprio parece-me assustadora.

Já referi o pano de fundo de Um quarto em atenas: uma explanação imbricada das linhas de força do dia-a-dia, um fresco dinâmico acolhendo algumas moléculas perenes. Daí que se repitam os poemas com marcadores geográficos (que são também geopolíticos e geoafectivos): Oxford, Lisboa, Atenas, Lavrion... Daí que haja dois poemas com títulos de cafés, o Kafka e o Drama. Daí que outro se chame “Cinco Visões do Paraíso Terrestre”. Daí que em “Alguns Poemas Portáteis” refira livrarias, museus, pedintes e um sentimento de culpa por não ouvir os gritos que compõem a sinfonia da vida humana, como em O Grito de Munch não se “representava um homem a gritar / mas um homem a tentar conter / como as barreiras fazem com os rios / o grito de tudo o que o rodeia”.

Na minha leitura, este cenário é depois preenchido por três linhas de força: uma sobre o claro-obscuro, outra de crítica sócio-política e uma terceira sobre o ofício de escrever (não uma metapoética, que obriga, de uma ou de outra forma, a fazer teoria da poesia). Comecemos pela última.

1- (ofício de escrever) Tatiana Faia assume em vários momentos a sua condição visceral de herdeira:

“como explicar que como tudo
o que vive e apodrece tenho ocupado
os corpos dos que viveram antes de mim
que o sinal mais fundo das suas vidas
é a única pauta que tenho para fazer
o meu caminho erro atrás de erro
tentando conservar alguma boa vontade”. (“Passagem & Passageiro”)

É claro que se disciplinarmos a ilusão facilmente reconhecemos a sensatez do que acabámos de ler. Mas para alguém que viveu parte da sua vida há mais de vinte séculos atrás (Tatiana esteve – e está – inscrita na vida da Ilíada, além disso “acredit[a] que a mais absoluta nostalgia / tem determinado todos os poemas” – “Primeiro Poema de Madrid Revisitado”), a condição de herdeira tem outras implicações, em “Cinco Visões do Paraíso Terrestre” escreve: “aceita que tudo / pode ser perdido realmente”. Portanto, não se trata de uma herdeira feliz, como tantos iludidos com a equação “sempre a somar”, onde cada neófito sobe para os ombros de antepassados para ver mais longe. Tatiana sabe que se pode perder tudo, num ápice, que o erro percorre a história, que há coisas efémeras, apesar de perfeitas. Tudo é frágil, evanescente, até o passado. Por isso, podemos ler que “é verão e é verdade que o mundo / caminha para o caos devagarinho”. (“Anne Frank Interrompida”) Se isto, refere no mesmo poema, não a impede de “escrever até ficar cega”, é também verdade que, à semelhança de um náufrago, se escapará “em direcção ao fundo”. Creio que tudo isto determina que julgue a sua “arte” como a da “vigilância constante” (“Literatura para Falcões”), considerando: “[…] é agora a hora de procurar uma palavra / que pese completamente”. Julgo o “é agora a hora” mais messiânico do que cronológico.

2- (crítica sócio-política) Há dois poemas onde nos devemos deter para capturar a visão mais imediatamente política (numa perspectiva abrangente) que Tatiana Faia retira do seu mundo (que é o mundo de muitos, mas não O mundo, tal coisa não existe). O primeiro, “O Retorno, 2016”, descreve o português contemporâneo entre as suas adições infantis a moléculas farmacêuticas e ao colo da mamã e a manutenção de uma misoginia mais parva do que julgamos, mostrando-nos como um apêndice pífio do macho latino: inculto, feio e deferente em relação à exclusividade da cozinha para meninas e senhoras. Tatiana, numa referência ao poeta Ruy Belo (“O Portugal Futuro”), não acredita “que o país do puro pássaro seja possível”, novo em folha e frugalmente perfeito.

“como é que eu posso saber
no meio deste inferno periférico
hipotecado a setenta anos
democraticamente manso
e de fraca consciência histórica
que mundo será o vosso meus filhos
nascida de pais portugueses em portugal
os meus filhos nascerão talvez ingleses
talvez cidadãos do mundo
e até nisso serão mais portugueses do que eu”

Apesar desta visão filtrada pelo desalento, Tatiana quer ainda amar alguma coisa, por isso termina dizendo: “ou mesmo olhar para tudo com um olho a menos / para poder continuar a amar em paz o resto”.

Faz parte da nossa tradição cultural mais recente (século xix em diante) ver em Portugal um projecto de bem-estar social constantemente adiado. Talvez porque tenhamos começado a pensar muito tarde, e as primeiras décadas, ou séculos, de uma disposição crítica são quase sempre negativas. Acredito que a próxima onda de pensamento esteja mais atenta ao jubilatório, sem inflações culturalistas ou nacionalistas (aqui está mais um perigo real à espreita), e continue a esbater o nosso provincianismo megalómano. Tatiana, como a maioria dos escritores portugueses, tem um filtro pessimista. Não porque exagere o ângulo infeliz de onde observa a realidade portuguesa, mas porque vê com uma lucidez especial e de forma panóptica, sem infiltrações, o que se desmorona ou o que nunca chegou a construir-se. Preferindo apontar a lupa para as barracas em vez dos palácios, daí fazer parte daquele primeiro movimento de pensamento crítico de que falei há pouco. Porém, e tal é imediatamente compreendido se estivermos 5 minutos com ela, Tatiana Faia tem uma energia positiva que compensa o lado mais sombrio da sua analítica, como refere no final do poema que citámos (“O Retorno, 2016”) e em muitos outros locais da sua obra.

Mas se quisermos apanhar uma tonalidade geral, isto é, que não remeta imediatamente para o lado mais ocidental da Ibéria, que só por acaso se constituiu como um país (é bom lembrá-lo), basta ler, entre outros, alguns versos de “Café Kafka”:

“[…] imagino que todo o desejo do mundo
seja montes de dinheiro
e habitar com um sorriso balofo
o vazio inteiro de uma função”.

E aqui Tatiana segue uma ética (no sentido de habitar o mundo de uma boa forma) que hoje felizmente percorre uma parte significativa das novas gerações, uma ética que recusa o consumismo predador, assente num trabalho remunerado que não questiona o seu valor intrínseco e numa acumulação de bugigangas que perdem quase instantaneamente o brilho inicial (mas cuidado com as utopias vingadoras). Portanto, à recusa de um autocontentamento patriótico junta-se a crítica ao modus vivendi devastador e egoísta que culminou no Antropoceno, a Era de todos os riscos, onde uma incrível quantidade de conhecimentos científicos convive com uma estupidez ética que o subjuga, ou pelo menos o desvaloriza significativamente. Esta dissonância, creio, percorre em filigrana Um quarto em atenas, marcando a posição da Tatiana em relação à actual geopolítica dominante: a do consumismo (esta disposição individual e colectiva atravessa todo o espectro político, da esquerda à direita).

3- (claro-obscuro) No poema “Velhas Contas” escreve:
“fragmentos e fragmentos de conversas
onde às vezes ao fim de muita luta
a breve iluminação daquilo que ia mesmo ser dito
se alonga como uma ponte suspensa sobre o nevoeiro
[…]
de quantas maneiras o teu trabalho

 é novo, precário e difícil
e nunca vai ficar acabado”

“Colecionar errâncias”, diz em “Ambros Aldewarth”, ainda que seja com “precisão” (dar esta pequena ordenação ao caos para recolher, de través, bolsas de sentido, porque o contrário seria a deriva absoluta). Sem ceder a qualquer inflação distópica, Tatiana Faia aconselha a aprendizagem da desorientação:

“tu que aprendeste a falar sobre imagens
anda lá diz-me
que encontro ainda recairá sobre ti
que conversa te restará
depois da zanga e da fome e da aporia
depois de todos os ângulos
e todas as curvas do labirinto
e o contorcionismo do sem saída
quando os caminhos que esperaste
não chegaram como antónio josé forte
diz que nos chegam certas cidades
– no nevoeiro” (“Lenta Aprendizagem da Desorientação”)

Sim, o que pode ficar de fixo depois de todas as encruzilhadas pelas quais passamos? Até os lugares têm de ser desaprendidos (“Tributo & Tribulação”). “arrasemos até à ruína cada uma destas casas” (idem), porque já não habitamos qualquer lugar seguro, mas, num assomo de responsabilidade e de nostalgia, “podes só deixar ficar a árvore / onde na infância riscámos os nossos nomes” (idem). É por isso que em “A Morte de uma Arquivista” se revisita, e reconstrói, a queda de Ícaro, até agora uma história obcecada pelo “pecado e punição”. Afinal, o seu “voo de belo efeito”, com uma “trajectória mirabolante”, “sempre para baixo e a toda a velocidade / rapaz-pássaro”, é a lei que governa o universo. Talvez contrariada quando um pequeno milagre, esses desvios à estatística, contradiz os planos matemáticos do Caosmos:

“e sei ainda havemos de arrastar
os nossos corpos cansados
para fora do círculo da queda
onde um de nós
assobiará de raiva
um tu ainda não me desiludiste” (idem)

2 Poemas de Emmanuel Hocquard

 

Bonita.

Olhos rindo, uma vaga tristeza na

expressão do rosto.

 - Como soletras este nome?

tudo o que poderia ser dito seria turvado pelo

rumor dos carros na estrada, em frente à

padaria.

Piero Della Francesca.

Fique satisfeito, por hoje, por comprar

metade de um pão.

Bom dia vendedora Viviane .

«Denuncie toda a correspondência obscena ao gerente

dos correios.»

Desde o começo do verão ou do naufrágio do Titanic.

                                                               

                                       In Un Test de Solitude, P.O.L. [Um Teste de Solidão] 1998

 …………………………………………………………………….

 Outubro. O regresso dos Piscos-de-pelo-ruivo. O que eu tenho

sob os olhos.

Viviane é Viviane. Única, evidente.

Dizer-te que eu a vi.

Como eu a vi, tendo apenas esse nome à minha

disposição.

Mostrar-te o meu olhar

eu a vi assim.

Viviane é Viviane.

É dizer que construo uma solidão.

É em Ti que penso.

Único sorriso.

Eu falo-te do meu sorriso.

Sua boca.

                                      In Un Test de Solitude, P.O.L. [Um Teste de Solidão] 1998

 …………………………………………………………………………………………………

 Jolie.

Des yeux rieurs, une vague tristesse dans

l'expression du visage.

-comment épelez.vous ce prénom?

tout ce qui pourrait être dit serait brouillé par la

rumeur des voitures sur la route, devant la

boulangerie.

Piero della Francesca.

Contente-toi, pour aujord'hui, d'acheter un

demi-pain.

Bounjour Viviane Vendeuse.

dénoncez tout courrier obscêne au régisseur

des postes

Depuis le début de l'été ou le naufrage du Titanic

 …………………………………………………………………………………………………

 Octobre. Le retour des rouges-gorges. Ce que j'ai

sous les yeux.

Viviane est Viviane. Seule, évidente.

Vous dire que je /'ai vue.

Comment je /'ai vue, n'ayant que ce nom à ma

disposition.

Vous montrer que mon regard

je /'ai vue ainsi.

Viviane est Viviane.

C'est-à-dire je construis une solitude.

C'est à vous que je pense.

Sourire unique.

Je vous parle de mon sourire.

Sa bouche.

E.Hocquard2.jpg

Emmanuel Hocquard (1940 - )

O diabo em forma de prostituta

 

ENGLISH ROSE -14X18.JPG_large.jpg

“Cervejola rasca”, ajuizou Rodrigues, torcendo o nariz e escarrando fininho para o balde do lixo plantado meio metro ao lado da lambisgoia que lhe fisgara duas notas de gorjeta. Que zurrapa, a cerveja, nem para bochechar, ou varrer a comida dos dentes, prestava. “Traz-me outra, toucinho”, berrou, e o colosso de oitenta quilos chapou-lhe mesmo no queixo fresquinha garrafa de xarope de cevada. Esteta, analista de erotismos, Rodrigues bufou ao ouvido de transeunte no balcão acotovelado, não fosse a testa bêbeda acertar em sítio que doesse, que contemplar a boneca dançando, abanando os pneus de caminhão que faziam de barriga, era como mirar múmias com a expectativa de ganhar erecção.

Rodrigues cuspia fininho, não perdendo de vista os seus objectivos: encher o caldeiro de verde muco, dobrar nota entre os seios de garina de sexo fácil, beber até esquecer que o dia presente havia sido pior do que o dia anterior, que, descendo degrau a degrau, o seu caminho inclinadamente se nublava. “Esta música tola mói-me o juízo”, comentou para ninguém ouvir, entre o atirar de amendoim para a goela e uma chupada no cigarro. Música pateta de mexicano ou dominicano ou outra mistela de semelhante envergadura, com ritmos de mexericar a anca, com falsetes dignos de raspar as orelhas numa parede até ensurdecer. Um estábulo autêntico. Choldra abastecida de camionistas e pedreiros e pintores e badalhocas, horrendas e gordurosas peruas que lhe traziam um inverno antártico ao órgão sexual. Que fazia ali ele, poeta da cena real, editor do destino, professor de galdérias, artista de banalidades, intelectual de água barrenta, que fazia ali tão eminente figura? “Ainda não ganhei o Nobel.” Rodrigues, o cérebro, o génio por detrás de tantos génios, inato influenciador de mentecaptos, cultor de escrita pós-Joyce, de pensar pós-Barthes. Que se encontrava naquela estrebaria a fazer essa eminência, para além de se desgraçar? Afundava o nariz na bebida a ver se perdia de vista a obsessão pelo fracasso de, cinquenta anos após ter sido metido no mundo pela figura divina de Deus Nosso Senhor, permanecer ainda vinculado a duas situações que lhe chamavam o cano da pistola à boca: o casamento com Raquel, a Mata Pénis (nas redondezas era assim que denominavam a ninfomaníaca), e o trabalho de quarenta e cinco horas semanais na carpintaria de Xavier, cavalheiro deveras idoso que, convencido de que entraria no Céu carregando o quinhão amealhado em vida, evitava despender mais do que zero em salários.

Ainda que lhe esfregasse os seios na mão que prendia o dinheiro, a boneca hispânica não botaria outra garrafa à frente de Rodrigues. “Não me embebedas hoje”, rosnava. Nem pensar em bebedeiras, em esfrangalhar o resto do dinheiro, em acordar no dia seguinte atolado em gordura de mulher feia. Rodrigues enfurecia-se medindo o tédio, revistando os bolsos vazios, mirando mulheres boçais como a sua Raquel, esposa de tão merecida má fama, que àquela precisa hora deambularia por aí, em rituais de acasalamento com outro, ou outros, cada um mais imbecil e asqueroso do que o outro. Ele, cobarde, acabrunhado, aos escarros num balde, disparando cascas de amendoim para o decote da peçonhenta, mergulhava em nuvens depressivas. Escrever. Havia escrito uma historinha ainda moço e pouco mais. Uma frase aqui, uns versitos ali. Escreveria sobre o raio da esposa, sobre traição, facadas nas costas e degredos. O tanas é que escreveria. Ela não lhe merecia tanta consideração. “Ainda serei do tamanho do Camões”, afirmou, fazendo-se acompanhar por estalada no rabiosque da mulher e nova cuspidela para o balde.

 

David Foster Wallace, Tristeza Infinita

David Foster Wallace.jpeg

Nascido em 1962 (Ithaca, Estado de Nova York), Wallace foi um promissor jogador de Ténis (desporto muito presente na sua obra), admirador de Roger Federer, estudou filosofia e literatura e lecionou no Emerson College e na Illinois State University. Com episódios frequentes de depressão, acabou por se suicidar, enforcando-se, em 2008, com 46 anos (já depois do enorme sucesso, mais crítico do que comercial, de Infinite Jest (1996), a nossa Piada Infinita.

Serve esta nota de segunda feira, primeiramente, para trazer algumas linhas importantes de uma entrevista com o autor que o jornal El Pais publicou há pouco tempo pela primeira vez e, em segundo lugar, cativar novos leitores para uma obra que apanha a tristeza do nosso tempo por debaixo da película incandescente do entretenimento global.

Na entrevista começa por referir que não escreve ficção particularmente difícil, embora alguns o vejam dessa forma porque a maior parte do que se publica nos USA exige tanto do leitor quanto um filme comercial de um espectador. O certo, diz, é haver um “amor genuíno pelos livros”, não os ter como mais um passatempo, “implicar-se esteticamente” na sua leitura, e isso “requer disciplina e esforço”.

Quanto à sua magnum opus, a Piada Infinita, trata do fenómeno da adição, quer orientada pelo desejo físio-psicológico, quer, retomando a acepção original da palavra, pela devoção, “num sentido quase religioso”. A partir disso, procura compreender “uma espécie de tristeza inerente ao capitalismo”. Recebido como mais uma obra literária muito divertida, Wallace deixa bem claro que o “sentimento dominante do livro é o de uma imensa tristeza”. Alguém lhe chamou um “épico contemporâneo”, devemos acrescentar “pessimista” entre as duas palavras.

Enquanto escritor, assume a influência do vasto e opaco movimento pós-modernista, indo do vanguardismo francês Pós-Guerra, passando pelo Realismo Mágico Sul-Americano, até escritores com Italo Calvino [magnífico As Cidades Invisíveis]. Mas também David Lynch, um “Grande Artista”, com as suas explorações surrealistas.

Os temas reverberam as linhas de força do capitalismo tardio, com atenção especial para a alienação às novas tecnologias de informação e comunicação, capazes de viciar num consumo sem critérios, ao mesmo tempo que rasuram as antigas formas de convivência presencial.

Finalmente, para quem não quiser ler a entrevista, a certeza, enquanto leitor assíduo de poesia, de que as traduções se afastam sempre irredutivelmente do original.

 

carta de género

olá

 

   nunca te contei isto. tinha dezoito anos quando fui pela primeira vez e última vítima de violência. na altura tinha duas casas seguidas uma em cima da outra em baixo e por acaso saí à rua com a companhia da altura que trazia dois sacos de compras e tinha trinta e quatro anos. tinham pouco peso os sacos os anos não pesavam-lhe muito ai se lhe pesavam lembro-me que num deles os sacos não os anos nem vinte bacalhaus estavam é claro que estavam secos naturalmente não lhe ia passar para a mão vinte e três bacalhaus debulhados ou demolhados não sei como se diz às searas sempre tratei com respeito e o outro saco tinha apenas vinte e quatro sacos de sal admito que talvez fosse muito mas afinal aquele exercício todo agachamentos aulas yogas posturas alongamentos e pesos é para quê ah e tal e eu desde o meu acidente custa-me pegar em coisas. no final do dia nem quinhentos quilómetros eram queixa-se com voz irritada horrível ah e tal amor detesto que me chame amor já lhe disse para me tratar pelo meu nome queixa-se ah e tal amor já me cansa tu também podias levar um dos sacos e eu respondi está bem eu ajudo-te que pena eu também não estou mal da cabeça respondi eu ajudo mas entretanto peguei num dos sacos e nem vinte metros andei e tive de descansar trinta e quatro horas sabem as minhas cruzes não tenho culpa nem tenho de me sentir mal por isso era o que faltava temos de ser uns para os outros e viu-me naqueles preparos e disse deixa estar eu levo e eu disse-lhe tudo bem pega em tudo e logo ali foi a primeira violência olhou para mim olhos nos olhos e percebi nitidamente que me estava a tentar magoar electromagneticamente que estava a dizer preguiças não pegas nem num saco e deixas-me aqui com este peso todo e eu a pensar mas que besta então não percebe que o cansaço em mim é imenso não é fácil estar vivo e andar de vez em quando a pé reparem não é para todos logo ali ficou tudo estragado. passados duzentos quilómetros estávamos nós a chegar à outra extremidade do mundo continuava com aquelas trombas agressivas e percebi que tinha dito qualquer coisa entredentes talvez mesmo só no seu pensamento e eu percebi é pá esta coisa aqui é mesmo indelicada só pensa em si então tanto exercício para quê aqueles agachamentos pesos corridas yogas aulas vídeos crossfitting babylifting romewatching touristing e tal. sim tem tempo para isso lá eu não não tenho tempo para essas coisas. bom a coisa já estava azeda entre nós quando reparei que me disse algo como essa merda do saco estava pesada podias-me ter ajudado não disse com palavrões mas disse-o com  agressividade extrema e calma grotesca quase a roçar o grito contido parecia uma rolha de champanhe a rebentar e logo ali estremeci caramba as pessoas não me criaram para estas coisas comigo sempre foram delicadas comigo nunca me habituaram a este tipo de violência extrema e calei-me logo ali nem lhe dei hipótese àquela coisa. durante trinta dias nem nos falámos bem que tentava mas eu toma lá disto e toma lá daquilo quando falávamos eu dizia-lhe aquelas coisas normais não tens maneiras não és uma pessoa feliz devias procurar um psiquiatra tu não és normal a tua infância não valeu nada não sabes viver em sociedade se morreres nem dou por isso a tua mãe isto o teu pai aquilo e outras coisas ainda mais verdadeiras nem me lembro bem. quando olhava para mim eu desviava o olhar e quando tentava falar comigo eu respondia-lhe mas com muita cautela porque a mágoa era imensa e nem todos os dias se é vítima de violência e eu nem devia ter perdoado da primeira vez. entretanto foi preciso carregar mais quatrocentos e vinte quatro sacos de bacalhau perguntas para quê tanto bacalhau sei lá é absurdo mas eu até carreguei cem repara que apenas carregou com os outros três terços afinal tanto exercício é porque tem tempo não é e é mesmo assim aquelas aulas todas e mais os agachamentos e as dietas e os alongamentos e os abdominais e pronto já sei a minha forma não é a melhor mas até parece que temos de ser todos fortes que nem touros isso é um preconceito já não estamos no século dezanove. disse-lhe nunca mais te vou pedir mais nada ouve lá que parvoíce da tua parte nunca mais nunca mais. entretanto ao quadringentésimo vigésimo quinto saco gritou pega nesse pá mas disse-o com tal raiva no olhar e com tal berro que eu decidi nunca mais haveria diálogo entre nós. e é assim que devemos ser já basta. até havia coisas boas na relação cozinhava bem e tinha a casa arrumada mas é isso que pensam todas as vítimas de violência antes de serem assassinadas já lhe disse temo pela minha integridade física a sério qualquer dia ainda me matas ah sim pote de merda ainda no outro dia tive oportunidade de dizer que não vales nada e que não me mereces andar para aí mas não vales nem metade da minha integridade moral em comparação comigo és uma lesma moral um escroque moral um cagalhoto moral e podia continuar por aqui fora mas não tenho paciência não entro no teu jogo prefiro ficar em silêncio porque assim é melhor e tu também já que não dizes nada de jeito é melhor calares-te a não ser que tenhas um tema interessante estás sempre de boca calada és horrível devias ir a um psiquiatra a tua infância foi difícil não foi até estás bem mas eu não deixo de ser uma vítima disto e estou para aqui mas é horrível temo pela minha saúde. por isso por favor se alguma coisa me acontecer já sabes com quem me casei. casei com uma besta quando tinha dezoito anos. ainda bem que já passaram outros dezoito desde o meu divórcio mas nunca nunca permiti que nada semelhante me acontecesse outra vez. era o que faltava. ainda me lembro da última vez em que discutimos. tudo a propósito de um dia ter insistido em ser o que era quando já lhe tinha dito que aquela forma de ser para mim não dava. que horror. ainda me lembro de lhe ter dado um tiro nos cornos. sim cumpri dezoitos anos de prisão mas não considero violência era o que faltava. é que estávamos na rua. saquei do meu revólver era a primeira vez que escrevia a palavra e lá vai disto pum pum pum pum quatro tiros à queima roupa. nem tremi. afinal tive uma infância melhor que a tua. veio a polícia. ficaram admirados com o meu género e com a forma como os leitores lêem esta carta que não atribui género a qualquer um dos seus sujeitos ela ele etc.. e o resto já sabes toda a gente sabe é como se o sujeito tivesse que ser forçosamente tu sabes o quê. discriminação. todos nós lemos como queremos.

 

angra do heroísmo

agosto de 2018