MISERABLES

fui buscar-te à estação
quase sem saber se virias
chegaste com atraso
à hora prevista
à porta de minha casa
apontei para MISERABLES
escritos no lugar que só vêm  
os que costumam olhar para o céu
cozinhei o amor bafiento
há um ano na gaveta
podia ter-me desfeito antes dele
mas ensinaram-me desde cedo
que o prazo de validade
só depende da fome
ao pequeno-almoço
queimei o pão
distraída que estava
com o fantasma de ti
ainda pousado
na minha cama
mostrei-te o lugar
onde compro as flores
que morrem sempre
apesar de as regar  
ao domingo
religiosamente
trouxe até 
um pastel de nata a mais
antecipando a tua fome de retorno
ensinei-te a ler
as minhas novas estrias
das tatuagens
não quiseste saber
desapertei o teu cinto
emocionada por estares  
mais gordo
e ser tão assim
que te imaginava chegar
falei-te dos planos
quando for rica
quando for só, falei até 
do número de filhos
que planeio criar comigo
e como quem sabe de cor
o caminho
mas vira sempre
no sentido errado da rua
voltámos um ao outro: 
e sem urgência
sem regatear a inconveniência
concordámos com: 
a importância do pão escuro
a disparidade geográfica
o nunca virmos a dar
ao amor os quilómetros
que talvez ele
nos merecesse. 

Sobre o Bugre da Choupana

Vivia só. Acostumara-se à quietude e à solidão do campo. Plantava, pescava e caçava pra comer. Galinhas no terreiro, uma vaca leiteira, um pingo sogueiro e um cusco fiel. Amigos não tinha. Era de pouca conversa. Conhecidos? Bem, todos o conheciam e ele, de vista, a todos. Sua história se confunde com a história do povoado. Dizem que quando iniciou-se a vila, com a chegada dos Valna, já existia a choupana no alto da canhada, chaminé fumegando. Uma vez por mês descia à vila, montado no matungo de passo lento. Sonolento. Mala de garupa. Não comprava muito: fumo em corda, querosene, cachaça, vinho e algumas outras poucas coisas de que não dispunha, por não produzir ele próprio no sítio. Falam, em cochichos, que de certa feita, matou um. Mulheres até então não conhecia. Só as via de longe, quando na vila. Raparigas de cabelos lisos e longos, busto grande, debruçadas nas janelas, as luzes avermelhadas lá dentro… Naquele fim-de-tarde-quase-noite, início de junho, fez diferente: abriu uma das cinco de canha que levava pro mês, e ali mesmo, no meio do povo, começou a beber. Andando no meio das gentes, bichos estranhos, pelo canto do olho via os dedos apontados, os risos de canto de boca (escárnio) e o menear de cabeças ao vê-lo passar. Curiosidade tinha, mas decerto, foi mais pela bebida que borbulhava em redemoinho na cabeça bronca, do que por especulação, que sem querer, sem notar, sem se dar por conta, entrou… Contam que as putas sequiosas por desvendá-lo, entre risinhos e puxões, o cercaram com dengos, achegos e chamegos. As luzes avermelhadas lá dentro. A fumaça dos cigarros suspensa qual rabos de galos num céu preparado pra chuva. O cheiro do chinedo e o cheiro de trago dos machos que o olhavam de atravessado, como que não acreditando no que viam. Seria mesmo ele ali? O bugre da choupana? Sem saber ao certo o que fazer, o bugre foi se deixando enrolar por Analice – puta velha e cancheira –, de olhos pequenos como que apertados, de cabelo negro e graúdos cachos, tetas grandes, gordacha e de cara lustrosa, que o arrastou pro quarto puxando-lhe as barbas, e fazendo biquinho como quem chama cavalo novo pela rédea. Dizem que o bugre só saiu dos aposentos da china dois dias depois, passos falhos, pernas bambas. Analice o acompanhou até a porta, e apesar da aragem das manhãs de junho, de leque em punho, afogueada. Obrigou-se a folgar por uma semana – a coitada – por conta das assaduras. A zona nunca mais foi a mesma. O chinaredo, depois da propaganda feita pela colega, espera pelo bugre todas as noites. Até senha foi distribuída entre as moças pra melhor organizar o rodízio. O bugre nunca mais desceu à vila – nem pra comprar cana, nem fumo, nem querosene… No alto da canhada a chaminé continua fumegando… 

um, dois

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andávamos camuflados     usavam-se uns grandes fatos de neve que nos tapavam as feições, as pernas e os pés tortos e identificáveis         andávamos camuflados    lembro-me,     sobretudo,             era Verão e suávamos debaixo dos fatos              sentíamos o calor na pele e o frio na pele              o suor a secar    

e

era sempre em transmissão  de um para o outro  que nos encontrávamos        achei sempre que        existíamos em intermitência ou estática   como a televisão

não cumpríamos planos, éramos            sobretudo os outros      gosto sobretudo da palavra sobretudo porque também éramos outras coisas   mas éramos mais as que vestíamos             : os outros :

 os do inverno acérrimo  no verão contundente                       éramos esses

   do surro a escorrer pelas ruas     como uma lesma     mas não era baba   era menos espessa   e não       deixávamos um rasto intenso       o odor marcava nos        mas não sobretudo

 

                        Sobretudo                   

      os fatos das neves  com padrão militar de ensaio                              nunca passámos despercebidos   aprendi a língua do avesso  porque andávamos    sobretudo camuflados   nunca nos desencontravam

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A C O R D A R A  N O V A M E N T E  C O M  V O N T A D E  D E  F A Z E R  D O  M U N D O  M A T É R I A


[Perfil de Catarina Real na Enfermaria 6]

Haikus Coreanos

Dormem os cavalos
nas estepes -
esqueceu-se o medo.[1]

Escorre por entre os dedos
a areia dourada -
goza a queda.

Depois do Verão
regressam
a palidez e a escuridão.

Tem que chegar o Outono
para a folha
poder viajar.

A fruta que apodreceu
à sombra
cumpriu com a doçura.

Nar´yan-Mar
tão desconhecida
quanto o vermelho próximo.

Escrevo da Sibéria -
distância e frio
em vez de palavras.

Cresce-se -
prémios tornam-se
como aniversários.

Conseguir ser só
num país de solidão -
o absoluto.

Da violência
nascem impérios -
só eles terminam.

Da violência
nascem impérios -
só ela persiste.

A neblina cobre
as estepes -
acende-se o horizonte.[2]

Sabes-me ao nevoeiro
de Novembro
no campo geado.

O Mestre disse -
não é a distância
mas a ausência.

Olha a Lua -
os meus olhos
os teus.

Podias construir
um império no coração
mas não.

Um último salto
da ponte -
todas as vezes.

Um vizinho
louco -
quem não?

Ter a pele salpicada
com a ausência
dos teus lábios.

Dos antigos
nem uma memória
dos seus olhos.

À estrada do hotel
despedidas
e esquecimento imediato.

Quantos olhos
as mesmas
Histórias.

Montanhas de sonhos
e tantos outros
abismos.

Esse ponto de encontro
da humanidade -
a miséria.

Nada está completamente
perdido
se houver dor.

Na dor
a certeza
da possibilidade.

E quando as cinzas
arrefecem
e se continua vivo?

Tudo oxida
mesmo
em segredo.

Facilmente as mãos
se esquecem
de ser vazias.

Leva-se sempre
a montanha
para as distâncias.

Habitua-te
ao amargo -
o Verão é breve.

Estranha o ar pesado
aquele que veio
da montanha.

Sobre o musgo
sempre
em casa.

Descer do monte
reparar
que anoiteceu.

Encher vazios
antes
do vazio.

Ar-Seul

 


 

[1] Sobre a Mongólia

[2] Sobre a Mongólia.

o puto da Bica

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emborrachado

com um maço de cigarilhas na mão

deu-se-nos a conhecer à porta da Casa Liège

“sou primo do Salgado” disse o velhote

“mas não vão pr'aí bradá-lo aos 4 ventos”

“é melhor não” respondi

nunca o vi sóbrio

e pensando bem

nunca o vi com um copo vazio -

de vez em vez entornava

um cochito ou outro -

nem tão-pouco o vi beber de empino

“eu sou o puto da Bica” respondeu

quando lhe perguntámos pelo nome

“toda a gente daqui me conhece

por puto da Bica”

puxou a cigarrilha até aos pulmões e num minuto

lá nos disse que se chamava Carlos

a minha amiga dava-lhe trela

um pouco mais de dois dedos de conversa

enquanto eu os ouvia com atenção

disfarçada

fazemos uma boa parceria

ali sentados nos degraus da Bica

somos dois bons comparsas

o equilíbrio certo

entre silêncio e rumor

entre euforia e disforia

entre vida e morte

“fui ter com o meu filho a Vilamoura”, contava-lhe a certa altura

“e já agora, deixe-me que lhe diga, querida,

os pastéis de nata ali não valem uma beata”

“pode dar-me uma cigarrilha” perguntei

“meu querido, este é o tabaco mais reles que

podes fumar”, respondeu mostrando-me os Chesterfield

“bom, ou isso ou o pastel”, retorqui

e lá me deu a cigarrilha e

meia dúzia de gotas de vinho branco

nas calças

“depois de uns quantos dias lá em baixo”, prosseguiu

“não tinha cheta para voltar,

e como o meu filho trabalha no casino

e percebe como tudo funciona ali dentro

disse-me «ouve, velho, é aquela a máquina que

te vai levar de volta a casa»,

e, meus queridos, parece mentira

mas aqui me têm,

venci a maldita da máquina”

o ascensor travava palmos abaixo de nós

num resmungo preguiçoso de Julho

recheado de turistas até às costuras

e o guarda-freios no derradeiro sisífico esforço

“isto é que é uma maravilha” disse o puto da Bica

olhando embasbacado para as estrangeiras que desciam do ascensor

com o copo inclinado em ameaça de

verter o vinho a qualquer instante

é um talento raro equilibrar ao mesmo tempo

a embriaguez e a volúpia

sem fraquejar

e nós cedemos sempre