Gostava de ir à Grécia

Livaniana fica na Grécia
no árido das montanhas,
o caminho onírico dos nenúfares
enfrenta a terra quente, isolada
como um útero, o acelerador
de partículas sob a foice da lua.
Imagino os gregos de coroas
de estrelas em lugares
onde as abelhas conectam
com o pólen.
Correm mulheres
pelas veias do Verão,
a diástole do corpo verbo,
o azul nos olhos,
bocas em forma de ilha –
as estrias vermelhas
da história.
Escuto as ninfas gregas,
reparo as trajectórias, saltos
de vibração laranja,
explosão invisível
entre as pernas,
o pássaro de fogo.
Solto
voo
e desejo se confundem.
De novo a tragédia grega.

Borralho

Borralho

 

Era fácil, engolia-se a escuridão e o vazio dos dias,

Olhavam-se as paredes com força suficiente para lhes destilar

Da humidade outros significados, acreditava-se ainda

Que era possível sair-se do tempo enquanto se batia um verso,

Tornava-se a realidade palpável, mesmo que apenas no passado,

Traziam-se os dias quentes de volta, o cheiro a cona aos dedos,

Enquanto na cama ressonava o cansaço dos lábios nos outros,

A poesia fazia sentido, os dedos deixavam-se levar por um tremor

Embalado por uma harmonia quase divina, era fácil,

Bastava um copo cheio da fase que fosse, no fim o resultado

O mesmo, mas ao menos um alívio arrancado da melancolia

Eterna do cair de uma folha, na sua leveza a felicidade oxidada,

Agora isto, não esperar nada das palavras, atirar versos

De barro à parede a ver se a luz se acende e a noite longa

Como um inverno sem vinho, morre-se tantas vezes

E todas as palavras deste mundo, não tocam sequer a eternidade.

Borralho II

 

Bastava um canto vazio num bairro plantado num luar de Agosto,

A ideia do amadurecer das romãs antes do Inverno, o meu esperma

Que te humedecia as cuecas numa tarde ainda quente de chuva,

Abrigados do desencanto que o futuro sempre reserva,

O amor era pouco mais que a eternidade, um infinito em forma de açúcar

Derramado numa mesa de café da província, esquecer tudo

Por uma vontade maior que qualquer fome, bastava um corpo

No outro, mas o inverno consegue ser tão longo e frio,

E os anos oxidam até o brilho das estrelas, a verdade, quando o caudal

Do rio agoniza na canícula, mostra-se como os sacos com ossinhos

Dos cães e gatos que foram lançados da ponte romana,

Então basta uma palavra para a bílis se derramar na remela fresca,

Fode-se numa pressa de carne que descongela no saco da mercearia,

Só porque em casa não há um canto que não tresande ao que trazia

O luar às noites de geada e sabor ao vinho já vinagre,

Quantas vezes se repete a mesma história antes do cansaço

Nos impor uma responsabilidade do tamanho da morte.

Borralho 3

 

Cabernet Franc e o silêncio defunto de todas as amantes,

Hoje umas velhas, cada uma um cabelo branco, uma ruga,

Um evitar de espelho, um filho que ancorou a resignação,

Outro que afundou o que restava da juventude,

Eu acho que vivo para ser memória, um arrependimento

Que hoje nunca, um terrorista sem-abrigo confortável,

Com um trabalho essencial que nem pandemias param,

O fumo que curou o fumeiro hoje apenas nas paredes

Do que foi a própria pocilga da porca que comia

Os gatinhos recém-nascidos, oferecidos numa crueldade

Inocente, a do pior tipo que nem deus julga, engolidos

Entre merda e batatas que tinham ficado esquecidas,

Cacarejam as galinhas enquanto Rimbaud eleva a pena

De um poema no reflexo das Ardenas num buraco negro,

Eternamente, como o arrependimento, o bochecho

Oxigenado num exagero pouco definido, a eternidade,

O azul que se visita às escondidas, num pequeno-almoço

De ostras e o Hemingway a explicar ao lado, também,

O sabor de uma pêra e a morte que água de couves cozidas

Antes de um corno se enfiar na continuidade da carne,

Tudo isto é estrangeiro como os órgãos que nos levam

Ao momento que nos permite a leitura de qualquer

Movimento peristáltico, o nariz sangra contra o papel-higiénico,

O Cabernet Franc vai-se engolindo enquanto não se engasga

O tempo na sorte ou a falta dela, certo é o outono.

Borralho 4

 

O mais importante nesta vida é a possibilidade do silêncio,

O silêncio consciente, ouvir a rugosidade da parede nos olhos,

Não o silêncio de acordar porque alguém abriu uma porta,

Ou a carta caiu no chão, ou deixaram de nos escrever

E compensam as ausências com flores que se tornam

Plásticas e o sol arranca-lhes a cor para relembrar o esquecimento,

Isto, estar aqui às duas e meia da manhã, nada mais artificial,

No entanto, amanhecem as madrugadas na procura

Dos meus dedos por pepitas de ouro ou merda,

Uma perdição no plano cartesiano, o infinito mais próximo

Dos anos noventa do que amanhã, fazer crer que o medo

Dos cães nos dias de festa era dos foguetes e não do ridículo

Do nosso mau gosto civilizado, será o universo simétrico,

Terá um centro, uma ressaca de língua pintada,

A sombra de uma figueira onde desejar uma morte perfeita,

O mais importante nesta vida é este silêncio de dedos

Que criam nada, um caos lógico, essencial, como a ausência

Absoluta num momento do tamanho da eternidade.

Borralho V

 

No quarto ao lado, das duas uma, ou alguém se masturba,

Ao mesmo ritmo do toque das teclas, ou alguém me odeia e dorme,

A porta não se tranca porque o lençol seca, salpicado com esperma

Incontáveis vezes, só não se trocou o sofá por desconhecimento

Da verdadeira variedade genética entranhada no sofrimento

Das fibras, maltratadas por copos de vinho trémulos e pepitas

De chocolate, espalhadas como merda, iluminadas apenas

Por um filme de Pasolini em fevereiro, e um gajo, passada

Quase uma década, continua a esfarrapar-se todo,

Por caralhos que se esquecem da cor dos olhos logo que

Se deixam embalar pela doçura inelutável da eternidade,

Aquele gajo tentou, arfando, aquele último aperto para nada,

Este verso que se desembrulha e gostaria de ser sublime

E a vida impossível dos que a organização do caos

Tornou num destino trágico, apenas alguém se move

Na cama do quarto ao lado, a saturação dos dedos,

Inconsistente com o grau de desespero de quem espera

Um verdadeiro apocalipse que o torne o anjo anunciado

Há tantos anos atrás, quando ainda havia uma luz no cabelo

Além da prata da inevitabilidade, mas ao menos isso…

Borralho VI

 

Só podemos realmente digerir o que mamamos

Há uns 6000 mil anos para cá, parece a história da minha vida,

Incontáveis caganeiras, por uma fome sem enzimas,

Um turno da noite numa folga, apanhar um táxi no hospital

Partir o telemóvel contra um poste numa distração focada,

Cona, que mais, ir ao encontro de mais um doce cataclismo,

O culpado, sempre o mesmo, este estômago alojado

Entre a gaita e os tomates, pai da imaginação insone

Das manhãs que puxam insones jactos contrariados contra a sanita,

Deixar na cama, imensos sacos murchos sem leite,

Para ir mamar na persistente firmeza de uma nova ilusão,

Deixar no taxista a certeza de uma taxa por um primitivo

Prazer roubado a sinais de fogo antes de aprender

O que estava realmente escrito nas rugosidades do anel,

Já frio, antes do coalhar do silêncio nas fibras do que isto move.

10/2022

Turku

O pequeno-almoço

Padaria Kora, Atenas. Fotografia de Mariana Bisti.

Para a Inês

 

Aquilo de que melhor me lembro sobre Breakfast at Tiffany’s são as cenas em que o gato, Cat, é abandonado e reencontrado num beco. E, claro, a cena inicial, com Audrey Hepburn a comer o pequeno-almoço em frente à montra da famosa loja de diamantes. Imaginei sempre que Truman Capote devia ter visto toda a novela desenrolar-se a partir do momento em que lhe ocorreu a primeira imagem. Por outro lado, ainda estou para encontrar uma coisa humana que seja expressão mais acabada de um recomeço do que os pequenos-almoços. Num dos seus poemas mais famosos, “Anunciação,” Ruy Cinatti escreveu que nós não somos deste mundo, mas que “anoitecendo, a vida recomeça.” Esta vida que recomeça de noite, à medida que o poema continua, chega à manhã e a um amigo nómada, que se vem aproximando, mas ninguém nesse poema toma o pequeno-almoço.

Estou a pensar em manhãs e pequenos-almoços porque há pouco tempo tive uma discussão com uma amiga que começou por ser sobre colonialismo e acabou a ser sobre pequenos-almoços. Não sei como chegámos aí. Há um verbo inglês de que gosto muito e que uso pouco. Meander. Meandering é o que se diz dos cursos dos rios com as suas muitas voltas, com a sua forma de labirinto, mas também pode ser dito de alguém que segue um percurso intricado ou de alguém que vagueia sem grande plano ou destino. Gosto das minhas conversas como os cursos dos rios pendem para as suas complicações. A minha conversa sobre colonialismo com a Inês, andou e andou, e andou até que já não tinha nada a ver com isso e acabou no pequeno-almoço. Aliás, acabou com a memória dela de um poema sobre um pequeno-almoço histórico (Russell Edson, “The Historical Breakfast”), em que um homem declara cada elemento desta refeição, em toda a sua banalidade, histórico. Mas daí lembrámo-nos de A importância do pequeno-almoço da Francisca Camelo. Os pequenos-almoços podem ser pequenos teatros. Não são, talvez, Históricos (embora alguns o sejam), mas são históricos, culturais, políticos, têm elementos sociológicos (daí nos termos lembrado do livro da Francisca). Pensei, por uma vez, que seria possível fazer o balanço de um ano em pequenos-almoços, como é possível medi-lo em livros lidos ou séries vistas, e que isto não seria completamente disparatado.

Por exemplo, o pão que normalmente como ao pequeno-almoço, em casa, quando estou quieta em Oxford, no princípio deste ano custava £3,40, o que nunca me pareceu extraordinariamente barato em comparação com o pão da minha infância rural, passada num pequeno país do Sul da Europa, onde penso que talvez o seu preço não chegasse aos cem escudos, e, tenho a vaga ideia, de que com a mudança da moeda terá passado a 1€, mas talvez esteja a exagerar. Cerca de vinte anos estão agora entre mim e essas memórias. O pão que compro para o pequeno-almoço em Oxford custa neste momento £4,50, é talvez o mais caro que alguma vez foi desde que tenho memória de comprar pão. É o primeiro ano, no entanto, em que o compro depois de uma pandemia seguida por uma guerra. O preço do pão que sobe preocupa-me, faz-me pensar demasiado em imagens que vi em manuais de história, de cartazes com o preço do pão na Alemanha entre as duas guerras. Faz-me pensar mais em imagens de fome do que no pequeno-almoço.

O meu pão inglês é classe-média até à náusea do cliché e tive de fazer alguma pesquisa até descobrir ao certo onde o comprar. O pão inglês nunca é facilmente bom, em muitas lugares que vendem pão nem sequer é feito todos os dias. Isto diz qualquer coisa da relação deste país com a comida. O meu pão é comprado em padarias com nomes pretensiosamente franceses ou dinamarqueses, onde se vendem tipos de pão inspirados em diferentes países e continentes. O pão que eu compro é producto e reflexo de uma sociedade cosmopolita e global.

O pão que não é classe-média que entra nos pequenos-almoços ingleses de pessoas que não podem pagar £3,40 por a loaf of sourdough bread (o pão que eu sempre tinha achado normal, que é fermentado, mas que é afinal, neste país, pão gourmet) é comprado normalmente no supermercado, é tipo Panrico e é pensado para sobreviver a um ataque nuclear. Não digo isto em qualquer espécie de bom sentido: é um pão com zero valor nutricional, ao qual a dado altura, por lei, o governo inglês decretou que tinha de ser adicionada vitamina D, por causa da insuficiência crónica desta vitamina que afecta as pessoas que em regra o consomem, que na verdade somos quase todos, porque ninguém lhe escapa na proverbial sandes do almoço. Atrás deste pão muito mais barato há uma verdade triste e inescapável: a de que Inglaterra é um dos países mais desiguais da Europa. E isto é visível em algo tão mínimo como o pão.

Durante a pandemia, na pastelaria dos libaneses em Cowley, o dono instituiu a regra de dar pão e comida fosse a quem fosse, se a pessoa dissesse que não podia pagar. Surpreendia-me saber que esta pessoa tinha, noutro capítulo da sua vida, vivido como corrector de bolsa em Londres. E depois tinha-se fartado de tudo e aberto este lugar, logo no início da pandemia. Tenho uma amiga com quem costumava tomar o pequeno-almoço que é historiadora do império romano e que tem muita dificuldade em aceitar que as diferenças sociais sejam tão óbvias ao nível de algo tão básico como pão. A minha amiga teve uma infância rural como eu. Diz-me às vezes que um dia se fartará da história do império romano e que poderá depois abrir uma padaria e que esta é a profissão mais digna que ela conhece. Eu digo-lhe que aparecerei para comprar o pão do pequeno-almoço. As padarias fascinam-me de manhã, quando tudo ainda está prestes a começar.

            Há cidades neste continente onde amo tomar o pequeno-almoço, sobretudo se estou com tempo, e outras em que odeio. Odeio, por exemplo, tomar o pequeno-almoço no centro de Roma, onde vou errando de café em café, cada qual mais apinhado de turistas, onde um cornetto, a versão italiana dos croissants, custa um preço absurdo, para turista, que é a expressão de uma falha de hospitalidade e da monopolização de um centro de uma cidade que não tem existência para lá do turismo. É um teatro sem vida, uma natureza morta esse pequeno-almoço desmaiado nessas mesas inóspitas. Como se pode começar um dia assim? Não se pode entender ao certo o que é tomar um pequeno-almoço em Roma num destes cafés. Há, no entanto, excepções. Como por exemplo, aquele pequeno café em Trastevere, não muito longe de Piazza Trilussa, cujo nome agora me escapa, um pouco escondido, demasiado parecido com os cafés de Lisboa. Mas em bairros mais afastados do centro de Roma pode entender-se mais facilmente o que seja esse pequeno-almoço, um cornetto, um cappuccino e um expresso, por favor, digo num italiano que funciona, em Pigneto, o bairro onde Pasolini filmou Accattone, ou em San Lorenzo, onde isto custa ainda, apesar da inflação, qualquer coisa como 2.50€, e onde estou rodeada de romanos que estão a ler o jornal ou a olhar para o telefone, ou que saíram para passear o cão, ou que se preparam para ir trabalhar. A pulsação da vida nesta cidade atravessa este momento. Os cornetti lembram-me, apesar das diferenças, os croissants que se pode comer ao pequeno-almoço no Porto. Também os cafés de Roma e do Porto se parecem. É um cliché dizer isto. Estou aqui à procura de uma afinidade entre duas cidades que amo muito.

            Há cidades em que tenho rotinas maníacas para tomar o pequeno-almoço, que denunciam as minhas obsessões com voltar sempre aos mesmo lugares e por trás disso sei que se esconde o meu amor por certas ruas, por certas pessoas em certas ruas, com um sentido de fidelidade e uma gratidão natural, quase inconsciente, um pouco comovida. Isso acontece-me, por exemplo, se estou em Lisboa e resolvo atravessar metade da cidade só para ir tomar o pequeno-almoço ao café Luanda, as torradas e o galão, uma combinação através da qual regressa por um instante toda uma estação da minha vida que desapareceu e não voltará nunca mais. Reparo com isto que sempre que mudei de hábitos em termos de pequenos-almoços houve alguma mudança sísmica na minha vida, algum grande corte.

Em Chiaia, em Nápoles, há um café diante de uma piazza onde por vezes vou tomar o pequeno-almoço, e envio sempre uma fotografia desse pequeno-almoço a um amigo. É raro cruzarmo-nos nesta cidade da qual gostamos muito os dois. Quando é ele quem cá está, é ele quem me envia uma versão desta imagem. Piada, provocação e nostalgia são os sentimentos deste ritual que, bem vistas as coisas, não pode ser chamado de anódino.

Há os meus pequenos-almoços em Atenas, que são muitas vezes solitários, empreendidos cedo e antes de me juntar a um amigo ou outro, e isto acontece porque sei que nem um santo talvez teria paciência de os tomar comigo. Começam normalmente numa padaria que fica num bairro que se chama Kolonaki até onde normalmente ou tenho de andar um pouco ou fazer um desvio e a padaria fica no topo de uma colina. O cheiro do pão e dos pães de canela e de cardamomo consegue sentir-se desde cá de baixo, consegue ver-se também uma pequena fila de turistas e locais madrugadores, mas esta fila vai aumentando à medida que a manhã avança. Compro um pão de canela com o azul do horizonte ao fundo da rua e começo depois a descer em direcção a Exarchia, com a colina do Licabeto, onde Aristóteles se despediu de vez de Atenas, atrás de mim e é só em Exarchia, num café com uma montra que um grupo de anarquistas partiu em protestos, e assim ficou, que compro o meu primeiro cappuccino do dia. Não venho aqui por causa do café, embora não seja mau, e há a vantagem de haver leite vegetariano, mas porque uma amiga me apresentou este sítio, que fica diante de um apartamento que partilhámos durante parte de um verão. Mas este é já um pequeno-almoço muito urbano e até turístico para Atenas, que talvez lembre a minha amiga dos cafés de São Paulo, onde ela vive, que reflecte uma opção dietária perpassada de preocupações para com o planeta e para com os animais. Mas um pequeno-almoço ateniense não se encontra nem nesta padaria de Kolonaki nem nesta completamente coffee shop, vinda de Londres ou Berlim, uma aberração em Exarchia, bairro de anarcas, sintoma de uma gentrificação que virá e será implacável, e que acabará, temo, com muitos dos fournos, as padarias gregas, onde o pequeno-almoço para mim é muitas vezes bougatsa, uma espécie de tarte com doce de leite, ou croissants de chocolate, e café grego, que, na verdade, é café turco.

Quando me apetece tomar o pequeno-almoço em Atenas sem andar de um lado para o outro em busca, afinal de contas, da minha versão matutina daquilo a que Tom Waits chamou numa canção de heart of Saturday night, há um café que amo, perto do museu da Acrópole, que de noite é um bar, que se chama Lotte, onde gosto de me sentar a observar as pessoas. E gosto do nome do sítio, que é tirado de Goethe, e eu queria muito conseguir imaginar o que seria Lotte em Weimar em Atenas.

De tudo isto se conclui que os pequenos-almoços são históricos, mas também a-históricos, políticos e privados, actos de busca e da imaginação, expressões de gratidão idiossincrática pelo dia que começa, mas também, por vezes, actos de intensa nostalgia. Mas a nostalgia, creio, não é necessariamente uma forma de saudosismo barato ou de sentimentalismo, embora, claro, também seja isso (e às vezes penso que não há nada de errado com certas formas de sentimentalismo). Mas pode ser também uma maneira de resistência, um gesto para abrir o livro em branco de um dia e tentar amar as horas que estão por vir.    

Tremo logo existo

Fazia tanto frio
naquele começo
de dois mil e vinte e um 

início que é quase uma memória
vista da varanda deste
presente onde estamos
sem saber suspensos 

ou sabemos
ou o mundo avança 

no carro mudas
de mudança 

o prazer esquecido
de haver rima
e nomes de no carro
se percorrer a estrada
de haver coisas no mundo
para além do humano 

o verde dos montes
o céu vasto azul
a vertigem
os enxames
os bandos
as alcateias 

o início do ano um peixe
voando nas águas
cristalinas junto ao pé
tão perto e já tão longe
brilhante dorso multicolor
unindo-se invisível
de novo ao cardume
ou em ato fundador

Annie Ernaux, uma entrevista

Na Enfermaria gostamos muito de Annie Ernaux, foi, pois, com grande felicidade que soubemos do Nobel da Literatura, prémio que não desdenhamos, como agora é de bom tom fazer-se nos círculos restritos da mais alta inteligência literária. Há sempre «uvas verdes».

Depois de uma brevíssima introdução, deixamos-vos com uma entrevista ao jornal Le Monde, da jornalista Sandrine Blanchard, com cerca de 6 anos, julgamos que é uma boa maneira de ficarmos um pouco juntos dela, de partículas da sua realidade. A tradução é de Victor Gonçalves

Elena Medel, poeta e romancista, refere, num artigo ao El País (8/10/2022), que Annie Ernaux «transcende as etiquetas de “autobiografia” ou “autoficção”», ela própria recorreu, antes, ao conceito de «auto-socio-biografia», ela que gosta tanto de Bourdieu. Gosta também, o seu feminismo não é secreto , de Simone de Beauvoir, e, por razões agora ligadas às questões de mobilidade social e vergonha de classe, de Dédier Éribon, do seu magnífico Retours à Reims. A própria autora disse, numa entrevista a Mará Sonia Cristoff, Clarín, que «classe de origem e feminismo são dois eixos cruciais na hora de escrever, atravessam tudo o que escrevo.»

Há muito onde ir buscar na sua obra uma frase síntese, que, como é habitual em situações semelhantes, relevará tanto quanto esconderá, gostamos e optamos por esta: «Et je crains toujours de laisser échapper quelque chose d’essentiel. L’écriture, en somme, jalousie du réel.» [Temo sempre deixar escapar alguma coisa de essencial. A escrita, em suma, ciúme do real.] (Annie Ernaux, L’occupation)

 Je ne serais pas arrivée là si… [não teria chegado aqui se…],
… Se a minha mãe! E é sem hesitação possível! Foi fundamental. Pela sua personalidade, a sua força, a sua visão do mundo e em particular do mundo social. Tudo isso me suportou, e também me levou à revolta. Ela queria traçar o meu próprio destino. É largamente responsável por ele.

Esta mãe sempre a empurrou para a frente. Ela queria dar-lhe aquilo que não tinha tido?
Acima de tudo, ela queria dar-me uma vida interessante, uma vida independente — este termo era muito importante. Era menos o sucesso material do que o sucesso intelectual que importava para ela. Quando percebe que a escola está a resultar, fará tudo para me facilitar esse percurso e nomeadamente — o que era bastante excecional para as raparigas da época — impedir-me literalmente de me entregar a uma ocupação feminina. Ela tinha uma espécie de condescendência, quase desprezo, pelas mulheres que ficavam em casa porque os maridos podiam sustentá-las. Fui criada nessa imagem negativa do lar. Quando o meu pai morreu, disse-me, pouco depois, uma frase que achei terrível: «Vou limpar-te a casa». Era para me libertar desses afazeres. Isto significava «ainda estou aqui». É enorme.

Quando pensa na sua mãe, qual é a primeira imagem que aparece?
Materialmente, é a imagem do fogo. É uma mulher que, como dizia, nunca se deixou pisar. O meu feminismo vem dela. A minha mãe não tinha medo de nada. Estava sempre revoltada. Com espantosos excessos de violência. Não vivíamos na doçura na família Duchesne! Recebi muitas chapadas. Neste campo, eu sou a lenda da família!

Porquê?
Porque era fresca! Opus-me rapidamente à autoridade. Só pensava em desobedecer. Estava bastante inclinada para as questões sexuais. A minha mãe achava que eu continha todas as possibilidades do mal, e eu também estava convencida disso.

A sua excelência escolar foi para agradar à sua mãe ou porque gostava da escola?
A escola fazia-me feliz. Como filha única, encontrei finalmente colegas de turma. Era uma faladora inveterada. E adorava ler. Mas separava as minhas leituras, os livros comprados pela minha mãe e os das aulas de francês.

Quais são as suas primeiras memórias marcantes de leitura?
E Tudo o Vento Levou
[Gone with the wind] de Margaret Mitchell, que li quando tinha nove anos. A minha mãe tinha-o comprado para ela. Acho que foi a maneira como ela falava dele com os clientes na mercearia que me fez querer lê-lo. Porque eu adorava estar debaixo do balcão a ouvi-los discutir. Este livro representava um mundo para mim. Acreditava na realidade dessa história. Eu até procurei o nome Scarlett O’Hara no dicionário! Queria saber mais do que o livro! Jane Eyre, de Charlotte Brontë, também me marcou muito. Este livro na primeira pessoa é como um fio condutor da existência. Trata-se, também aqui, de viver uma vida de independência, sem dominação. Estes modelos estruturaram-me.

Quais são os seus sonhos de jovem?
Em criança, não tinha nenhum desejo específico, o futuro estava em aberto. Com os meus amigos, os meus primos, havia o imaginário do amor. Nas cartas que escrevi aos dezasseis anos sentia repugnância pelo casamento. Na época, não podíamos imaginar outra maneira de estar com um homem. Tenho a sensação, desde muito cedo, de que o casamento nada mais é do que quase o fim da vida. Talvez tenha sido a influência da leitura de Une vie de Maupassant que me abalou. Li-o aos treze anos às escondidas e fiquei completamente alterada.

Desenhava-se um desejo profissional?
Eu sabia que ia fazer alguma coisa. A minha mãe sempre me recordou de que na escola primária uma freira lhe disse: «Annie é uma futura professora.» Não falhou! Nos trânsfugas sociais, os milagrosos passam por aí; por uma profissão na qual não há necessidade de ter uma herança económica.

Desde quando tem essa consciência de classe?
Nunca foi totalmente formulada. Mesmo no meu diário íntimo. Vem da sensação e da certeza: pertenço a um meio modesto. Tenho essa consciência de classe na escolha dos amigos, na diferença que sinto perante outrem. Sei tudo o que me separa de alguns deles e ao mesmo tempo tenho essa vontade de os conhecer. É um mundo que me parece maravilhoso, porque há a música clássica, aquela que eu ignoro. A música é realmente, na época da adolescência, o signo de exclusão. É dela que eu mais me quero apropriar.

De que sente mais falta?
Muitas coisas! Mas nunca é ciúme social. É a sensação de uma falta, de uma imperfeição. A ideia de injustiça vem muito depois.

Chega quando?
Eu não sentia isso em mim, mas nas situações. Quando fiz a minha comunhão no internato católico de Yvetot, perguntei se a minha prima — que estava na escola pública — podia vir. Chega o dia, estamos em maio, ela levou o vestido mais bonito que tinha e um casaco de pele de coelho. A diretora chega ao pé de mim: «Onde está a sua prima, não a vejo?» Respondo-lhe: «Está ali.» Então, o rosto da diretora... era desprezo. Nunca me esqueci. Histórias assim, tenho toneladas delas. É a força dos trânsfugas quando admitem que o são: eles sabem muito mais sobre o mundo social, pela posição que ocupam, do que aqueles que estão naturalmente no mundo dominante.

Em que momento teve a sensação de ter mudado de classe social?
Principalmente ao morar longe dos meus pais e ao casar com um rapaz que era de classe média burguesa de direita.

O que mudou então na vida diária?
Temas de conversa; o facto de sentir a condescendência do meu companheiro pelos meus pais e meio social; as famosas maneiras à mesa e, o que imediatamente me impressionou muito, essa segurança no mundo, da qual eu estava completamente privada. Tem-se a impressão de que o mundo é feito para essa classe dominante e que lhe pertence de direito e de facto. Também está ligada ao corpo: essa estranheza de ter um corpo plebeu, um lado «campónio».

Qual foi a primeira pessoa a quem falou sobre o seu desejo de escrever?
A uma nova amiga, que encontrei quando me matriculo na faculdade de letras. Em junho, quando fui aceite na propedêutica, lembro-me de escrever inventando um nome para mim: «Anne Saint-Claire vai publicar o seu primeiro romance.» É muito estranho. Posteriormente, sofri recusas justificadas. As coisas não aconteceram de forma linear. A consequência dessas recusas é a fuga em busca de um relacionamento com um homem. Depois, uma série de coisas um tanto dramáticas, como o meu aborto. Finalmente, vejo-me casada e depois mãe. Não consigo escrever, mas nunca paro de pensar nisso. O meu marido, Philippe Ernaux, leu o meu primeiro texto, com comentários pouco agradáveis. Depois disso, nunca mais pedi a ninguém para me ler. Muito rapidamente, questiono-me sobre a escrita: não há história para contar. Não é a história que conta, mas o que estava em jogo na história. No que vivenciamos, há algo que faz avançar o conhecimento. Há mais no escrever do que no recordar.

Tinha «o desejo de visitar o planeta». Fê-lo?
Este desejo foi rapidamente canalizado pelas necessidades da vida. Finalmente, viajei principalmente por causa dos meus livros. Mas fiz uma viagem extremamente importante com o meu marido em 1972. Tinha 31 anos. Foi organizado pelo Le Nouvel Observateur (antepassado de L'Obs) para conhecer Salvador Allende no Chile. Essa viagem durou duas semanas. Graças ao contacto com as poblaciones fiz uma viagem de regresso extraordinária à minha infância.

Porquê?
Porque percebo o quanto vivi num mundo próximo do que às vezes via nas poblaciones: o bairro operário, a família da minha mãe no qual o álcool era devastador, etc. Tenho a sensação de ter coisas para dizer. E depois, a acompanhar o grupo, havia um jornalista literário do Nouvel Obs, Jean-François Josselin. Conversávamos muito com ele. Não sei como nem porquê, revelei-lhe o meu segredo: já havia escrito um texto. Além do meu marido, ninguém sabia. Jean-François Josselin queria que lho enviasse. Prometi fazê-lo. Mas não mantive a promessa. Esse primeiro texto de 1962 era muito extravagante. Eu não contava a realidade, não tinha nada de social, era uma forma que procurava. Finalmente, comecei a escrever um mês depois dessa viagem ao fim do mundo.

A política sempre lhe interessou...
Pertenço a essa geração que se alimentou das histórias das guerras do século xx. Na família, mas também na aula, na qual o meu professor de história nos leu Os Sinos de Nagasaki [Takashi Nagai, 1949]. E depois, desde a infância que ouvi falar de política, à maneira das conversas de café. No café do meu pai. E a minha mãe sempre votou. Acompanhei-a pela primeira vez a uma urna em 1945. Ela ia assistir até à contagem. Continuo à espera de uma mudança profunda. Constato há várias décadas um movimento irreprimível da sociedade em direção a uma espécie de isolamento. Não há uma real aceitação dos outros. Dei aulas em Pontoise entre 1975 e 1977. Lembro-me de uma turma difícil do 9.º ano, agitada. Debatemos. Ainda tenho em mente os discursos já populistas dos estudantes que me diziam: «A minha irmã não teve um uma habitação social enquanto os árabes tiveram.» Arrastamos a questão do racismo há muito.

Quando teve o sentimento pleno e completo de ser escritora?
Tenho antes a consciência de um privilégio, uma oportunidade de poder fazer algo que é — talvez como a minha mãe teria dito — o que há de mais belo. Não procurei fazer carreira, mas preservar a possibilidade de escrever. Aliás, é muito difícil. Perante cada livro a ser escrito, não sou nada, de cada vez é uma luta. Realizei esse sonho de escrever e ser publicada. Mas não é o nirvana, a felicidade, não é nada do que eu imaginava.

Quer dizer?
Nunca imaginei que seria um compromisso tão grande; a forma quase mística que a escrita tomaria. É preciso sacrificar muitas coisas: vida sentimental, um pouco a família também. Eu não sou uma avó muito disponível! Quando agarramos a dobra, acabou. A existência é informe e vazia sem a escrita. Não se trata de dizer «nem um dia sem uma linha», mas de procurar, de ter um projeto e de que tudo esteja centrado em torno dele. Viver com um livro que terá de ser escrito. Mémoire de fille, teria sentido uma grande culpa se não o tivesse feito. La Place, também.

«É assim que vivem os homens»: Sempre se colocou esta pergunta...
Sim. Imergi desde muito cedo numa comunidade de pessoas. Conviver de manhã à noite com os fregueses de uma mercearia-café, com pouca ou nenhuma intimidade familiar, tinha a sensação de ser atravessada, desde muito cedo, por todo o tipo de conversas e linguagens. Depois, mudar de classe social, ou seja, mudar de mundo, dispõe para a observação, a fazer perguntas. As clivagens sociais continuam muito fortes. A sociedade francesa permanece uma espécie de aristocracia com os seus fastos, o seu cerimonial, as suas categorizações...

Que lugar teve a religião na sua vida?
Um grande lugar. No internato havia todos os dias história sagrada e orações. Para a minha mãe, o importante era haver religião: acreditar em Deus e comportar-se de acordo com uma regra moral. Ela acreditava na eficácia da oração. Mas quando a minha irmã morreu de difteria, a oração não fez muita coisa. Fiquei realmente marcada pelos sacrifícios a fazer e pela culpa sexual da minha primeira confissão aos sete anos: acusei-me de ter tido gestos indecentes e recebi uma saraivada de vergastadas do confessor. Portanto, entendi que era praticamente maldita.

O que sobrou?
Resta o que poderia chamar-se hipotexto. É também como um primeiro mundo [a religião]. Mesmo estando convencida de que o nada [néant] nos espera, ajo como se houvesse algo que deve ser salvo e do qual sou a guardiã. Não é a minha alma, é o que faço. É muito diferente. Pode dizer-se que a literatura ou a escrita substituíram, de certa forma, Deus. Ou que escrever é a missão que me foi dada.

Como experimentou os ataques? [ao aeroporto Zaventem, por islamistas, 32 vítimas]
Esta manhã, no rádio, fiquei impressionada com o que um rapaz muito composto e calmo disse na France Inter: sim, há violência, mas não tanto quanto nas grandes guerras anteriores ou na Síria. Não foi dito por passividade, mas como uma espécie de sentimento do que é o curso da história. O mais difícil é tentar entender e saber que não seremos capazes de o perceber no momento presente; será mais tarde. O que também chama a atenção — e é terrível dizê-lo — é a facilidade com que integramos o que acontece. No dia seguinte aos atentados de Bruxelas, no RER [comboio suburbano] entre Paris e Cergy, um homem e uma mulher usavam apenas boatos sobre o que havia acontecido em Bruxelas. «Parece-me que algo aconteceu», dizia a mulher. Foi só isso. Esta vida que continua impressionou-me. Só falavam de trabalho, férias, filhos... Era um dia como outro.